Meio Ambiente      



Rio do Campo:
Uma história de preservação e consciência


Microbacia devolveu qualidade ao ambiente produtivo rural e à água que abastece Campo Mourão


A história da Microbacia Hidrográfica do Rio do Campo, que corta as regiões da comunidade Alto Alegre e do distrito de Piquirivaí, em Campo Mourão, está intimamente ligada ao surgimento do conceito de preservação e consciência conservacionista do ambiente produtivo rural. E não poderia ser diferente, uma vez que o projeto foi o primeiro instalado no Brasil e um dos primeiros no mundo para o manejo de solos e água. A microbacia, iniciada na década de 70, ocupa uma área superior a 7 mil hectares, que são conduzidos por cerca de 100 agricultores. O projeto devolveu qualidade ao ambiente produtivo rural e à água do Rio do Campo, que abastece a cidade de Campo Mourão.

O cenário de degradação, comum nos anos 60 na região, foi substituído por diversas ações que buscaram o equilíbrio ambiental, através de práticas como o terraceamento mecânico do solo, adequação de estradas e carreadores, reflorestamento das margens dos rios, implantação de abastecedores comunitários, adoção do sistema de plantio direto, adubação verde e utilização de produtos seletivos com baixo impacto ambiental para o controle de pragas nas lavouras. O projeto foi liderado pela Associação dos Engenheiros Agrônomos de Campo Mourão (AEACM), Acarpa (hoje Emater-Paraná), ITCF (hoje IAP), Prefeitura Municipal, Sanepar e Coamo. E continua, hoje, com apoio de diversas entidades da comunidade.

Com o trabalho em andamento, o projeto foi complementado, em 1994, com apoio da Embrapa-Soja, possibilitando a instalação de um laboratório comunitário – também o primeiro do Brasil, para a multiplicação do Trissolcus basalis, em busca do controle biológico do percevejo da soja. Dois anos depois a microbacia receberia o primeiro lugar no prêmio Paraná Ambiental, na categoria de proteção dos recursos hídricos. Assim, o projeto foi avançando com o acompanhamento das lavouras para o levantamento de pragas e predadores naturais existentes na microbacia.

Avanço – Hoje, quase 30 anos depois de instalado, o projeto se mantém firme nos ideais de preservação do meio ambiente. O engenheiro agrônomo Roberto Carlos Guimarães, assessor técnico da Emater-Paraná, regional de Campo Mourão, acompanha o trabalho na microbacia há 10 anos. Ele conta que 100% dos produtores continuam usando inseticidas biológicos ou fisiológicos para controle da lagarta da soja. O volume de vespinhas também cresceu em relação ao início do projeto. “O laboratório de produção de Trissolcus basalis foi ampliado. Com isso, temos condições de aumentar em 20% a produção de vespinhas, chegando a aproximadamente 1 milhão por ano”, destaca Guimarães.

Entre os maiores avanços conquistados com o projeto estão a adequação das estradas, a despoluição do manancial, a implantação de abastecedores comunitários com poços semi-artesianos e a educação ambiental, que é difundida entre os agricultores e estudantes. “O reflexo de tudo isso pode ser verificado na qualidade da água que abastece Campo Mourão: em 1983 o índice de turbidez (NTU’s - Nível de Partículas Sólidas em Suspensão) da água era de 197; e nas últimas 10 safras, o mesmo índice está entre 30 a 40 NTU’s”, comemorou.

O projeto da Microbacia Hidrográfica do Rio do Campo é mantido através do Fundo Azul. O rio é responsável pelo fornecimento de 80% da água utilizada para o abastecimento da população urbana de Campo Mourão.


CONSCIENTIZAÇÃO

Os irmãos João, Cândido e Antonio Schefer, da localidade Barras, são cooperados da Coamo e pioneiros no projeto. Eles lembram das dificuldades do início e comemoram os avanços ambientais conquistados depois da implantação da microbacia. “Desde o início estamos fazendo a nossa parte. Recompomos a mata ciliar e estamos conduzindo as lavouras de acordo com as orientações técnicas, procurando zelar pela qualidade do meio ambiente”, revela Cândido Schefer.

A consciência preservacionista dos Schefer não influencia nos resultados das atividades da propriedade. Pelo contrário, os irmãos mantêm as médias de produtividade nos 34 alqueires que cultivam na região. “Não é a forma como trabalhamos, mas sim a maneira que trabalhamos. Temos que buscar o futuro, sempre, de olho nas nossas próximas gerações. E o fato de estarmos contribuindo para uma melhor qualidade de vida de todos, nos faz sentir como heróis”, vibra Cândido Schefer.

O sentimento de dever cumprido é o mesmo para o também cooperado Nivaldo dos Santos, que possui a sua propriedade também na localidade Barras. Ele não é pioneiro no projeto mas tem uma missão muito importante dentro dele. No sítio de Santos, de apenas 10 alqueires, está uma das nascentes que originam o Rio do Campo. “Não há como ficar alheio a tudo isso. A água dessa nascente, que chega aos lares de tanta gente, também serve a minha família”, salienta.

Santos chegou a construir um abrigo para o olho d’água, mas admite que poderia estar fazendo mais. “Não só eu, mas todos nós poderíamos estar fazendo um algo a mais para colaborar na preservação desse ambiente, que é nosso”, resume.

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