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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 349 | Abril de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Ferrugem da Soja

A verdadeira face da ferrugem

FAVORECIDA PELO CLIMA, DOENÇA MOSTROU TODA A SUA AGRESSIVIDADE NESSA SAFRA DE VERÃO, TAMBÉM NA REGIÃO DA COAMO

Contra fatos não há argumentos. Para quem ainda não acreditava na agressividade da ferrugem da soja ficam as lições desta safra de verão. Favorecida pelo clima, a verdadeira face da doença, que já vinha sendo mostrada pela área técnica da Coamo, ficou estampada nas lavouras que acabaram de ser colhidas. Seja por iniciativa própria, através de faixas demonstrativas; por erros de estratégia de controle; ou ainda por pequenos detalhes no manejo da cultura, na região de atuação da cooperativa os associados puderam comprovar a manifestação da ferrugem. E em algumas áreas de forma intensa, com redução significativa na produtividade da lavoura.

Em São João do Ivaí, região do Vale do Ivaí, no Paraná, o cooperado Laércio Zago de Castro plantou 36 alqueires de soja. Ele tem um trabalho de três anos no controle preventivo da ferrugem, inclusive mantendo áreas testemunhas na propriedade para verificar o ataque da doença. No entanto, até então, ele não havia tido redução da produtividade da cultura por causa da ferrugem. “Nesta safra assisti a ferrugem tomar conta da área testemunha no meio da minha lavoura”, relata.

Na verdade, Castro fez parte de um projeto do Detec da Coamo de São João do Ivaí, que selecionou alguns cooperados para demonstrar a importância do controle preventivo para a ferrugem da soja, com ênfase para a primeira aplicação, considerada decisiva no manejo da lavoura. “Trabalhamos com a primeira aplicação de fungicida na hora certa, ou seja, no fase R2 (floração). Em todas as áreas o controle foi eficiente”, salienta o agrônomo Gabriel Rodrigues dos Santos Júnior. Segundo ele, nas faixas testemunhas, onde não foi feita aplicação de fungicida, a redução na produtividade das lavouras variou de 16% a 33% nas quatro propriedades avaliadas, comparando com a mesma área onde a doença foi controlada.

Ver para crer – Ainda na região do Vale do Ivaí, no Paraná, o cooperado Natalino Ferri, de Quinta do Sol, também sempre apostou no controle preventivo da ferrugem da soja, porém ainda não tinha visto o estrago que a doença pode causar na lavoura. Nesse verão ele viu. A faixa testemunha que ele deixou no meio da lavoura, de cerca de mil metros quadrados, e que não recebeu fungicida, representou uma diferença de 24%, em comparação com a área onde o controle foi realizado conforme orientação do Detec da Coamo. “Fiquei assustado em ver aquela faixa preta no meio da lavoura.

Já havia sido alertado, mas preferi ver para crer”, admite Ferri.

“Felizmente, mesmo ainda não tendo presenciado a agressividade da ferrugem, ele não abre mão do controle preventivo”, comemora o agrônomo Heron Ayres de Sousa Freitas, do Detec da Coamo em Quinta do Sol. Ele acompanhou o trabalho na propriedade de Ferri, que cultivou 350 alqueires de soja no verão. “Comparando, no mesmo talhão, a área onde o fungicida foi apli-cado, em apenas uma dose, e a outra onde não houve aplicação, a diferença em produtividade foi de 33 sacas. Uma redução considerável, se levarmos em conta que o custo médio de uma aplicação preventiva para o controle da ferrugem gira em torno de 4 a 6 sacas de soja por alqueire”, contabiliza Freitas.

Detalhes – “O segredo é não descuidar dos detalhes, porque a ferrugem não perdoa”, alerta o cooperado Celso Braganholo, de Luiziana (Centro-Oeste do Paraná), que plantou 150 alqueires de soja nesse verão. Ele conta que fez quase tudo certo, mas deixou escapar um pequeno detalhe durante o manejo da lavoura. Quando ele estava aplicando a segunda dose do fungicida, num talhão de 9 alqueires, caiu uma chuva de cerca de 20 milímetros logo depois de concluído o trabalho em metade da área. No dia seguinte, Braganholo aplicou o produto no restante da área. “Para a minha surpresa a chuva ‘lavou’ o fungicida e metade da área ficou comprometida pela ferrugem”, conta cooperado, que calcula uma redução de 10% na produtividade final do talhão.

Um detalhe também fez a diferença para o cooperado Valdecir Lopes de Camargo, também de Luiziana. Em cerca de 100 dos seus 360 alqueires cultivados com soja nesse verão, Camargo fechou a safra com uma produtividade média menor, entre 10 a 15 sacas. “O desenvolvimento da cultura me enganou, o que fez com que eu também antecipasse um pouco a primeira aplicação. Depois fiz a segunda dose e como a soja alongou o ciclo poderia ter feito mais uma ‘meia-dose’”, lamenta o co-operado, considerando que acertar o tempo da primeira aplicação é o grande segredo para o controle definitivo da ferrugem.

“É uma doença cujo controle não é difícil. Com monitoramento e ações no momento certo; com os produtos e recomendações adequadas, é possível conviver facilmente com a ferrugem”, garante o agrônomo Breno Rovani, do Detec da Coamo em Luiziana. Ele afirma que os cooperados já possuíam um bom nível de consciência sobre a importância do controle preventivo da doença, “mas a partir desta safra eles passarão a tomar ainda mais cuidado com a ferrugem; e nós, da assistência técnica, sempre estaremos ao lado do nosso cooperado para dar o suporte necessário para que ele alcance sempre o melhor resultado com a sua atividade”, sustenta o agrônomo da Coamo.

Segredo é acertar o tempo da primeira aplicação do fungicida

MONITORAMENTO E MANEJO CORRETO DA LAVOURA GARANTE CONTROLE EFICIENTE DA DOENÇA. APLICAÇÃO PREVENTIVA DEVE SER FEITA NA FLORADA

Você certamente já ouviu a frase: “só erra quem decide”. Pois é! Mas se fosse diferente, também não haveriam decisões acertadas. A capacidade de escolha é uma condição própria do ser humano, colocada em prática sempre que alguém está diante de um dilema, quer seja na vida pessoal ou profissional. Fazer ou não isso ou aquilo? Ir por esse ou por aquele caminho? Escolher é fácil, mas tomar a decisão certa exige coragem e determinação e, acima de tudo, uma boa dose de bom-senso.

Na agricultura, a exemplo dos demais segmentos da economia, decisão pode ser sinônimo de prejuízo ou lucro. Fracasso ou sucesso estão separados por uma linha fina que faz a diferença no final das contas.

“Nessa safra de verão os produtores de soja, de maneira geral, foram surpreendidos pelo clima, que esteve favorável para o desenvolvimento da Ferrugem Asiática da Soja. Eles tiveram uma verdadeira demonstração da agressividade da doença, que ainda é relativamente nova e que tem sido motivo de muita preocupação no campo. Sendo assim, o que determinou o resultado da lavoura foi a decisão de controlar preventivamente a doença ou não. Quem seguiu corretamente as orientações preconizadas pela assistência técnica não teve problemas. Mas quem resolveu arriscar e não controlar, hoje contabiliza perdas de produtividade”, orienta o engenheiro agrônomo Nei Leocádio Cesconetto, gerente de Assistência Técnica da Coamo.

Na região de atuação da cooperativa é possível comprovar esta afirmativa diante dos resultados de experiências feitas pelo Departamento Técnico em nível de campo. “Também pelo testemunho de vários associados, que, apesar do realizarem o controle adequado, viram a ferrugem reduzir os resultados da lavoura por detalhes de manejo da cultura. Desta forma, alinhar o tempo no manejo da lavoura pode garantir o controle eficiente da doença. O segredo, então, é não errar na primeira aplicação do fungicida,”, destaca Cesconetto.

Produtor teve seu pior ano com a doença, segundo a Embrapa Soja

Em uma safra com clima extremamente favorável à evolução da Ferrugem Asiática da Soja, especialistas são unânimes em afirmar que a doença reduziu a produtividade e elevou significativamente o custo de produção das principais regiões produtoras de soja no Brasil.

A situação mais crítica ocorreu nos estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. O aparecimento precoce da ferrugem na safra atingiu lavouras ainda no estádio vegetativo, aumentando tanto o custo de produção em função do aumento no número de operações para controle, como a pressão do fungo em áreas vizinhas. Há relatos de produtores que necessitaram de cinco aplicações para o controle da doença. Esses estados têm ainda um agravante: além das condições climáticas serem extremamente favoráveis ao desenvolvimento da ferrugem, o cultivo da soja na entressafra, irrigada por pivôs, proporciona o efeito chamado de ponte-verde, que faz com que o fungo continue se multiplicando num período em poderia estar diminuindo naturalmente.

Resistência aos produtos – Durante a safra, surgiram especulações de que poderia estar ocorrendo um processo de seleção para resistência da ferrugem aos fungicidas. No entanto, ainda não houve comprovação para essa suposição. “Na maioria das vezes, o insucesso está relacionado ao momento inicial de controle. Percebemos que, em muitas vezes, o agricultor ainda se confunde e o controle é iniciado quando os sintomas estão em um nível mais avançado”, explica José Nunes Júnior, fitopatologista de uma das entidades que integram o Programa Estadual de Manejo e Controle de Pragas da Soja – Soja Protegida. “A falta de domínio das tecnologias de aplicação de defensivos agrícolas, a prática recorrente de uso de misturas de produtos ou doses abaixo da recomendada pelo fabricante também foram práticas recorrentes nessa safra e deixaram prejuízo no bolso do produtor”, avalia Claudine Santos Seixas, pesquisadora da Embrapa Soja.

A ferrugem já causou prejuízos estimados de U$ 5 bilhões, desde 2002, considerando os custos da soja, da operação de aplicação e dos produtos, além da perda de arrecadação em função da quebra de produtividade.

Saiba mais sobre a ferrugem

Os principais sintomas da ferrugem da soja são observados nas folhas. Normalmente, a doença se inicia pelas folhas localizadas nas partes baixas da planta. Os primeiros sintomas são caracterizados por minúsculos pontos escuros (no máximo 1mm de diâmetro), no tecido sadio da folha, com coloração esverdeada à cinza-esverdeada, observados mais facilmente contra um fundo claro, como o céu, por exemplo. Na face inferior das folhas podem ser observadas saliências que correspondem a estruturas de frutificação do fungo. A presença de água na superfície da folha é um fator essencial para o início do processo de infecção pelo fungo.

O monitoramento semanal da lavoura é importante para que se identifique logo no início a ocorrência da ferrugem.

A ocorrência da ferrugem está diretamente associada às condições climáticas. Tempe-raturas médias menores que 28º centígrados e molhamento foliar de mais de 10 horas favorecem a infecção da planta. É por isso que nas regiões mais quentes é mais difícil aparecer a doença, ou quando aparece, não desenvolve de forma explosiva. As regiões com altitude superior a 700 metros são mais favoráveis à ocorrência da doença devido as tem-peraturas noturnas mais amenas associadas a um maior número de horas de orvalho. Regiões mais baixas, porém com chuvas bem distribuídas, também são favoráveis para um desenvolvimento mais rápido da doença.

Com o aparecimento das lesões, o desfolhamento da planta é rápido resultando em redução do número de vagens, do número de grãos, e do peso dos grão. No Brasil, por tratar-se de uma doença nova, faltam estudos sobre o impacto da ferrugem no rendimento da soja.

A única forma de controle é a aplicação de fungicida, mas é preciso saber reconhecer o momento certo de aplicar. Estudos da Embrapa Soja mostram que os fungicidas protegem, em média, por cerca de 25 dias. Se aplicar no momento errado, o agricultor pode ter que fazer várias aplicações, o que aumenta sensivelmente os custos de produção. Por outro lado, se o produtor não estiver moni-torando a lavoura, só vai perceber os sintomas quando for tarde demais, compro-metendo assim a eficiência dos produtos.

Fonte: Embrapa Soja - Sistema de Alerta