Especial

Campo Mourão é pioneira no plantio direto

Técnica que revolucionou a agricultura foi introduzida na região há 29 anos

Sistema de plantio direto foi a salvação da lavoura e ajudou a racionalizar a exploração agrícola
Campo Mourão foi uma das primeiras regiões do Brasil a implantar o sistema de plantio direto (PD), técnica que revolucionou a agricultura brasileira e mundial. A prática foi introduzida no município há 29 anos - em novembro de 1974, pelos cooperados Joaquim Peres Montans, Henrique Gustavo Salonski (um dos cooperados fundadores da Coamo), Gabriel Borsato e Dr. Ricardo Accoly Calderari, que tiveram visão e 
adotaram a técnica apostando nos bons resultados que viriam num futuro próximo.

A novidade se espalhou rapidamente. Tanto que muitos interessados visitaram as terras dos pioneiros para conhecer os resultados e saber como fazer para adotar o plantio direto. Fato este que transcorreu em tempo recorde em centenas de propriedades, fazendo com que mais e mais agricultores compartilhassem deste extraordinário benefício que trouxe inúmeras vantagens ao meio ambiente produtivo rural.

A história do plantio direto data de 1950, na Inglaterra, quando pesquisadores da ICI (atualmente Syngenta) procuravam várias opções para a agricultura e descobriram o "Reglone", herbicida de contato capaz de destruir as ervas daninhas. A partir deste trabalho, a empresa desenvolveu o plantio direto. Pouco tempo depois o sistema foi introduzido nos Estados Unidos e de lá se espalhou para vários países do mundo.

No Brasil, a história registra que o plantio direto chegou em 1972, em Rolândia, no norte do Paraná, através do produtor Herbert Bartz, que foi aos Estados 
No plantio convencional erosão tomava conta do solo
Unidos e adquiriu uma máquina Alli Chalmers - específica para o PD, e obteve sucesso com a nova técnica após testes em sua propriedade. Depois de Rolândia o sistema foi difundido em Cornélio Procópio e na região de Campo Mourão. Em seguida, espalhou-se pela região dos Campos Gerais e outras regiões do Paraná e do Brasil, consolidando a adoção desta importante descoberta para a conservação do solo e incremento de produtividade na agricultura mundial.
 



A história em fatos

O cooperado da Coamo Joaquim Peres Montans, radicado em Campo Mourão há 30 anos, contou ao Jornal Coamo que tomou conhecimento do plantio direto na visita que fez com o seu pai, Paulo Pimenta Montans, também cooperado da Coamo, ao Centro de Pesquisa e Desenvolvimento sobre Plantio Direto que a ICI mantinha em Rolândia, na fazenda Veseroda. O interesse foi grande e logo após a técnica foi adotada por seu pai em Cornélio Procópio.

Joaquim Montans mudou-se para Campo Mourão em junho de 1973 para administrar a fazenda da família de 300 alqueires de café. Mas o jovem engenheiro agrônomo, recém-formado, tinha visão do futuro e um firme propósito: utilizar o PD para melhorar as produtividades das suas terras. E este sonho foi consolidado na ousadia que fez, trocando a fazenda de 300 alqueires de café por uma outra de 500 alqueires de samambaia.

Novembro de 1974 é uma data histórica para Campo Mourão e região. Período em que o agricultor Joaquim Montans trouxe máquinas específicas para o plantio direto e semeou os primeiros 10 alqueires de soja com a nova técnica na área de terras do agricultor Advento Martins. Terras estas que não estavam totalmente niveladas e corrigidas. "O solo estava mais solto, mais fofo, mas se adaptou bem ao sistema e proporcionou boa germinação. Foi um sucesso", lembra Montans, acrescentando que o técnico Gil Rabelo, na época na ICI, foi fundamental para o êxito do PD no Brasil.

Os resultados com o PD foram validados e melhorados ano após ano nessas três décadas de cultivo. Um bom exemplo de incremento de produtividade com o uso desta tecnologia está na fazenda Santa Maria, de Joaquim Montans, propriedade que de lá para cá nunca mais teve suas terras aradas ou gradeadas. Em 1974 a produtividade era de 70 sacas de soja por alqueire e neste ano girou em torno de 170 a 180 sacas de soja por alqueire. "Essa evolução é um orgulho para todos nós e hoje com novas variedades, adubação verde, rotação de culturas e toda uma tecnologia a nossa disposição, sabemos que podemos aumentar ainda mais as nossas produtividades", garante Montans. 

O progresso foi tão grande nas últimas três décadas que os agricultores mais novos sequer imaginam como eram os solos e a agricultura na década de 70. "Antes do PD era aração ou grade rome (conhecida como o 'terror da terra'), grade niveladora e terras degradadas com muita erosão. Tínhamos na época duas grandes preocupações: precisávamos de chuva, mas quando chovia, às vezes nem era chuva muito forte, as terras eram ´lavadas´ e perdíamos tudo. Se existe agricultura hoje é porque existe o plantio direto", conta o engenheiro agrônomo Ricardo Accioly Calderari. 

Conforme relato de Gabriel Borsato, as dificuldades na implantação do plantio direto na região não eram pequenas, tanto no aspecto técnico, como nos maquinários e uso da mão-de-obra qualificada para a operação. "Mas tudo valeu a pena. Naquela época mesmo já estava convencido da vantagem do sistema. Se não fosse o PD não teríamos essas grandes produtividades" resume Borsato.

"A erosão estava acabando com as nossas terras. Precisávamos tomar uma atitude para não perdê-las. Veio então a idéia do sistema com o uso de máquinas importadas resultando nessa experiência bem-sucedida. O plantio era bem feito, a germinação muito boa e a distribuição de adubo também", explica o pioneiro Henrique Gustavo Salonski, acrescentando que o PD é uma realidade hoje até na região do arenito.

Passados quase 30 anos, os benefícios do PD continuam sendo comemorados pelos agricultores, safra após safra. "Tranqüilidade e agilidade no plantio, reserva de umidade no solo, menor custo de produção, maior segurança, germinação uniforme, desenvolvimento das plantas em um mesmo padrão, tolerância ao veranico e, sobretudo a conservação dos solos", são as principais vantagens que o cooperado Joaquim Peres Montans apontou na edição do Jornal Coamo (nº 30, em janeiro de 1976). "E essas continuam sendo, quase 30 anos depois, importantes vantagens que o plantio direto nos proporciona", disse Montans.

"Na região da Coamo, por exemplo, saímos de 45% de áreas com plantio direto em 1985 para quase 100% em 2003. É uma evolução fantástica", disse Dr. Aroldo Gallassini, presidente da Coamo.

Outro exemplo de pioneirismo da região de Campo Mourão na preocupação com a qualidade do meio ambiente produtivo rural foi o lançamento do Plano Nacional de Conservação de Solos (PNCS) em 4 de setembro de 1976, pelo ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, governador do Paraná Jaime Canet Júnior e autoridades e produtores.