SISTEMA É CONSIDERADO A MAIOR REVOLUÇÃO
TECNOLÓGICA JÁ INTRODUZIDA NA AGRICULTURA NOS ÚLTIMOS
DOIS MIL ANOS
O início dos anos 70 serviu de pano de fundo para as primeiras
experiências brasileiras com o sistema de plantio direto. O
Paraná, em especial, foi o precursor da tecnologia no país.
O primeiro plantio de que se tem notícia foi feito na região
de Rolândia, no norte do Estado, pelo produtor Herbert Bartz,
em 1973. Ele foi aos Estados Unidos, conheceu e trouxe a técnica
para o Brasil. Depois o sistema foi difundido em Cornélio Procópio
e chegou à região de Campo Mourão em 1974, através
do cooperado da Coamo Joaquim Montans. Assim, a tecnologia que revolucionou
a agricultura está completando, em 2004, 30 anos em Campo Mourão,
município que foi um dos pioneiros na implantação
da prática no Brasil.
O sistema de plantio direto surgiu frente a necessidade de tornar
mais sustentável a produção agrícola,
minimizando os custos com insumos e otimizando o aproveitamento da
área de plantio. E conseguiu. Mais de três décadas
depois de implantada no país, a tecnologia é tida como
a única alternativa para a sustentabilidade da agricultura.
“Foi o grande acontecimento nos últimos dois mil anos
de exploração agrícola. É o que a ciência
agronômica ofereceu de mais importante até hoje, do ponto
de vista biológico, químico e físico do solo”,
resume o engenheiro agrônomo Joaquim Mariano Costa, responsável
pela Fazenda Experimental da Coamo, em Campo Mourão, que acompanhou
de perto o processo evolutivo do plantio direto no campo.
Com o plantio direto, o agricultor fecha o cerco contra os principais
problemas que degradam o solo e, de quebra, ainda incrementa o sistema
de produção, melhorando a produtividade e racionalizando
os custos de produção. Dentre as vantagens do plantio
direto estão a garantia de reduzir a lichiviação
de nutrientes e da erosão superficial do solo, a manutenção
da vida microbiológica do solo, a garantia de uma melhor atividade
dos adubos químicos e de que todas as reações
químicas no solo sejam bem sucedidas. Além da questão
econômica, o sistema também consiste em reduzir o impacto
ambiental causado pela agricultura. Dentro deste novo paradigma de
produção, o plantio direto passou a ser orientado por
três procedimentos base, conhecidos como projeto “3Rs”:
rotação de culturas, resíduos no solo (plantio
na palha) e roots (raiz, no sentido de imobilidade do solo e reciclagem
de nutrientes).
A evolução
em CM
O
plantio direto chegou praticamente junto com a Coamo na região
de Campo Mourão. Por isso, a cooperativa acompanhou todo
o processo evolutivo da tecnologia, participando ativamente dos
trabalhos de conscientização dos produtores e desenvolvimento
das ferramentas que tornariam possível efetivação
do novo sistema de plantio. “Conscientizar os produtores,
no início, de que o controle da erosão era o único
futuro para a agricultura não foi tarefa fácil. Felizmente
conseguimos, aos poucos, introduzir as técnicas de conservação
do solo e plantio direto, as quais, literalmente, foram a salvação
da lavoura”, lembra o engenheiro agrônomo José
Aroldo Gallassini, diretor presidente da Coamo.
As limitações enfrentadas pelo agricultores na região
de Campo Mourão, no início da implantação
do sistema de plantio direto foram, principalmente de ordem mecânica
e operacional. Primeiro das máquinas plantadeiras: “antes
só tinha a Rotacaster, que trabalhava o solo na linha do
plantio com um mecanismo rotativo; outra questão eram os
herbicidas. Na época só se trabalhava com os dessecantes
e não havia produtos para fazer o controle dentro da lavoura,
com pós-emergência de boa seletividade”, lembra
Joaquim Costa.
Outra questão foi o preparo do solo, na parte superficial.
Segundo Costa, os agricultores ingressavam no sistema para resolver
o problema da erosão. “Era o apaga fogo. A última
esperança dos produtores”, destaca. Por isso, todos
os solos já tinham sofrido erosão. Então a
superfície do solo era deficitária e já exibia
problemas que dificultavam o plantio e a colheita das lavouras.
“Havia, também, a questão de correções
do solo, pois o produtor não usava a correção
como pré-requisito para entrar no plantio direto”,
revela, acrescentando que o que se buscava era uma composição
de matéria orgânica (palha) sobre o solo, sem considerar
a importância da própria vida microbiológica
do solo.
Diante das dificuldades os produtores acabavam desistindo do sistema
no primeiro ano e, inclusive, passavam a fazer propaganda contrária
do plantio direto. “Isso acabava sendo uma experiência
negativa para o desenvolvimento do sistema e impedia que outros
produtores ingressassem no PD”, salienta Costa. Assim, os
agricultores estavam diante de um dilema: sabiam da importância
do sistema para o controle da erosão mas não conseguiam
assimilar bem os resultados de um sistema produtivo totalmente diferente
na lavoura.
Mas com muito cuidado e um forte trabalho de assistência técnica,
os produtores foram assimilando a tecnologia. No final da década
de 70, já havia cerca de 10 mil hectares de cultivo direto
na região de Campo Mourão. Mas foi a partir dos anos
80 que o sistema começou a deslanchar. Foi quando surgiram
as primeiras máquinas desenvolvidas especialmente para o
plantio direto. E algumas empresas também começaram
a desenvolver algumas moléculas de pós-emergente seletivos
para as culturas. Assim, os produtores foram aderindo e as áreas
de PD aumentando. “Em 84 nós já tínhamos
catalogado na região de Campo Mourão cerca de 60 mil
hectares de lavouras em PD. Hoje, o sistema ocupa praticamente 100%
das áreas de cultivo da região”, contabiliza
Costa.
“Segredo
é não interromper o sistema”, diz Montans
Poucas
tecnologias agrícolas têm experimentado um crescimento
tão rápido em nível mundial como o plantio
direto. E Campo Mourão foi uma das primeiras regiões
do Brasil a implantar o sistema. A
prática foi introduzida no município há 30
anos – em novembro de 1974, pelo cooperado Joaquim Peres Montans.
Ao lado de Montans, os agricultores Henrique Gustavo Salonski (um
dos cooperados fundadores da Coamo), Gabriel Borsato e o engenheiro
agrônomo Ricardo Accoly Calderari integram o grupo dos precursores
que ajudaram a desenvolver a tecnologia no país.
A novidade se espalhou rapidamente. Tanto que muitos interessados
visitaram as terras dos pioneiros para conhecer os resultados e
saber como fazer para adotar o plantio direto.
Montans chegou a Campo Mourão e trouxe na bagagem o plantio
direto. Ele conheceu o sistema na visita que fez com o seu pai,
Paulo Pimenta Montans, também cooperado da Coamo, a um centro
de pesquisa em Rolândia. Decidiram adotar a técnica
em seguida na propriedade da família em Cornélio Procópio.
Agrônomo recém-formado, Montans utilizou o PD para
melhorar as produtividades das terras da família. E conseguiu.
Trocou a fazenda de 300 alqueires de café da família
por uma outra de 500 alqueires de samambaia. “O meu pai não
queria nem saber. Não queria trocar e me chamou de louco.
Mas eu comprei. Apostei na agricultura e na idéia de plantar
no sistema direto e tive sucesso”, comemora.
Em novembro de 1974 Montans trouxe máquinas específicas
para o plantio direto e semeou os primeiros 10 alqueires de soja
com a nova técnica. Eram as históricas Rotacaster.
O cooperado lembra que o solo não estava totalmente nivelado
e corrigido, mas se adaptou bem ao sistema e proporcionou boa germinação
da lavoura. “Foi um sucesso, logo de cara”, lembra Montans,
acrescentando que o técnico Gil Rabelo, na época na
ICI, foi fundamental para o êxito do PD no Brasil.
Os resultados
com o PD foram validados e melhorados ano após ano, nessas
três décadas de cultivo. Um bom exemplo de incremento
de produtividade com o uso desta tecnologia está na fazenda
Santa Maria, de Joaquim Montans, propriedade que de lá para
cá nunca mais teve suas terras aradas ou gradeadas. Em 1974
a produtividade era de 70 sacas de soja por alqueire e hoje a média
gira em torno de 180 sacas de soja por alqueire. “O segredo
é a continuidade do sistema. Não mexer no solo”,
ensina Montans, que comemora: “essa evolução
é um orgulho para todos nós e hoje com novas variedades,
adubação verde, rotação de culturas
e toda uma tecnologia a nossa disposição, sabemos
que podemos aumentar ainda mais as nossas produtividades”.
TERRAS LAVADAS – Quem também se recorda
bem daquela época é o engenheiro agrônomo Ricardo
Accioly Calderari, diretor secretário da Coamo. “O
progresso foi tão grande nas últimas três décadas
que os agricultores mais novos sequer imaginam como eram os solos
e a agricultura na década de 70”, diz. Os agricultores
tinham, na época, duas grandes preocupações:
precisavam de chuva, mas quando chovia, às vezes nem era
chuva muito forte, as terras eram literalmente ‘lavadas’
e tudo se perdia, incluindo a lavoura e o solo. “Se existe
agricultura hoje é porque existe o plantio direto”,
conta.
Três décadas depois de implantado, o plantio direto
continua sendo comemorados pelos agricultores de Campo Mourão,
safra após safra. Tranqüilidade e agilidade no plantio,
reserva de umidade no solo, menor custo de produção,
maior segurança, germinação uniforme, desenvolvimento
das plantas em um mesmo padrão, tolerância ao veranico
e, sobretudo a conservação dos solos, são as
principais vantagens apontadas pelo cooperado Joaquim Montans. Ele
já dizia isso em 1976, dois anos depois de encabeçar
o plantio na região. E sua opinião não mudou.
“O que tem de diferente, hoje, é que as idéias
amadureceram e nos deu a certeza de que a continuidade no sistema
é o único caminho para o sucesso do plantio direto”.

| FATOS |
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Surgido
na Inglaterra, em 1950, através de pesquisas da
ICI (atualmente Syngenta), o PD foi introduzido pouco
tempo depois nos Estados Unidos e de lá se espalhou
para vários países do mundo.
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Em 2003 o PD era praticado em aproximadamente
72 milhões de hectares no mundo, Sendo que 47,5%
da tecnologia se concentra na América Latina,
36,7% nos Estados Unidos e Canadá, 12,5% na Austrália
e 3,3% no resto do mundo, incluindo Europa, África
e Ásia.
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A região da Coamo saiu de 45%
de áreas com plantio direto, em 1985, para quase
100% em 2004. Em 1978, a Fazenda Experimental da Coamo
utilizou máquinas emprestadas do cooperado Joaquim
Montans para realização de ensaios de
plantio direto para difusão aos cooperados da
Coamo.
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Em
1976 Campo Mourão foi palco para o lançamento
do Plano Nacional de Conservação de Solos
(PNCS). O então ministro da Agricultura, Alysson
Paulinelli e o governador Jaime Canet Júnior estiveram,
em 4 de setembro de 1976, na Praça Bento Munhoz
da Rocha Netto (Praça do Fórum), juntamente
com diversas autoridades e milhares de produtores que
acreditavam ter chegado ao fim a caminhada desenfreada
da erosão nas terras brasileiras.
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