TECNOLOGIA:
Quando o básico não é
um luxo
AO ECONOMIZAR NOS CUSTOS DA SAFRA DE VERÃO O PRODUTOR RURAL PODE NÃO ESTAR SE DANDO CONTA DE QUE A PRECISÃO DA AGRICULTURA ESTÁ NO EQUILÍBRIO ENTRE A TECNOLOGIAE O SEU CUSTO BENEFÍCIO. AO INVESTIR NO CULTIVO, O HOMEM DO CAMPO FAZ A LIÇÃO DE CASA, BUSCANDO O MÁXIMO DO POTENCIAL DA LAVOURA, NUM ANO QUE TEM TUDO PARA SER DIFERENTE DA SAFRA PASSADA
Custo/benefício. Uma relação que encabeça
a lista de prioridades do produtor rural no momento de planejar
o cultivo da safra de verão. A pouco mais de um mês
do início do plantio, mais do que nunca o homem do campo
tem repensado atitudes e buscado alternativas para manter o equilíbrio
entre o básico e o luxo da tecnologia. Tudo para manter
o nível de produtividade das lavouras sem onerar o orçamento,
comprometido pela dificuldades enfrentadas neste último
ano/safra. Mas no impulso da racionalização de custos,
muitos agricultores estão se esquecendo dos benefícios
da tecnologia. Ao economizar nos investimentos da lavoura o produtor
rural pode estar deixando de fazer a sua lição de
casa, que é produzir com volume e qualidade. Deixa de lado
a busca pelo máximo potencial das culturas por manter o
pensamento focado no imediato. E o que é pior: num ano
que tem tudo para ser diferente do passado.
Para o engenheiro agrônomo Antonio Carlos Ostrowski, supervisor
de Assistência Técnica da Coamo, dos tempos bicudos
ficam as maiores lições. “O tipo de economia
que o produtor pode e deve fazer é planejar cada ação
que irá desenvolver na propriedade”, explica. Fazer
as coisas na hora e na época certa, sem jogar dinheiro
fora, é a dica que o agrônomo dá aos agricultores.
“E isso não é luxo e sim básico. É
a nossa agricultura de precisão: nem o excesso e nem a
falta de tecnologia”, pondera.
Planejamento é a palavra-chave quando o assunto é
onde economizar para o cultivo de verão. “Essa combinação
de fatores pode significar um pouco mais de dinheiro no bolso
no final da safra”, aconselha Lineu Domit, pesquisador da
Embrapa Soja, de Londrina. Entre os custos variáveis de
produção, os gastos com adubação,
herbicidas e aquisição de sementes são os
que mais pesam para o agricultor. “É aí que
entra a importância de uma parceria forte. O produtor pode
racionar o seu investimento comprando os insumos antecipadamente,
e ganhando com isso”, orienta Ostrowski. Ele cita o plano
safra da Coamo, que ofereceu os insumos aos cooperados a um custo
25% menor que o praticado na safra passada. “São
oportunidades que o agricultor não pode deixar passar.
Assim, ele mantém o nível de investimento, gastando
menos”, constata o agrônomo da Coamo.
Círculo negativo ou positivo –
A grande questão é: de onde o agricultor tira a
sua renda? É da produção ou do preço?
Isoladamente, no preço ele não consegue influir.
Quem vai ditar as regras é o mercado. Mas indiretamente
ele tem uma certa influência no preço, quando produz
mais ou menos. Já com a produção é
diferente. O produtor rural pode influir diretamente, de forma
positiva ou negativa. “Portanto, se reduzir tecnologia,
buscando a redução dos custos da lavoura, o produtor,
no final da sua colheita, terá uma produtividade menor
e, consequentemente, uma renda mais apertada”, argumenta
o diretor-presidente da Coamo, José Aroldo Gallassini.
Este seria, na opinião de Gallassini, o círculo
vicioso negativo, ou seja, menos investimento, menor produção
e rentabilidade mínima.
Mas existem anos em que a agricultura tem uma maior folga, dando
para sofisticar mais a lavoura. É aí que entra o
círculo vicioso positivo, ou seja, maior rentabilidade,
mais investimento e maior produção. “Mas como
estamos vivendo um ano de crise, com produtividades baixas e preços
ruins, esse é o ano do produtor fazer contas, planejar
melhor cada ação na propriedade, mas não
de reduzir tecnologia, que é o caminho para a produção”,
sustenta o presidente da Coamo.
Escolhas corretas ajudam a evitar desperdícios e racionalizar
mais os recursos. “Hoje, existem alternativas para se otimizar
a aplicação dos recursos nas lavouras, mas isso
exige uma mudança de hábito. É uma situação
semelhante a que vivemos com o racionamento de energia elétrica.
Muitos de nós descobrimos que era possível economizar,
bastava estar atento para isso”, compara o agrônomo
Fernando Adegas, da Emater-Paraná.
Contabilizando
a fisiologia vegetal
As
culturas são potencialmente produtivas e podem alcançar
altos patamares de rendimento. A pesquisa tem mostrado que é
possível produzir, com solo e clima favoráveis,
médias elevadas. “Mas é preciso saber explorar
esse potencial”, alerta Ostrowski. Ele dá o exemplo
de uma torneira para explicar o que convencionou chamar de ‘contabilidade
da fisiologia vegetal’. “Tudo o que o produtor rural
deixar de fazer para a sua lavoura será debitado do potencial
produtivo da cultura, reduzindo o resultado final”, orienta.
Outra metáfora usada pelo agrônomo da Coamo é
a do carro está programado para andar a 110 quilômetros
por hora, mas se eu estiver com os pneus ruins não vai
render o necessário para o seu motorista. “Então,
qual lavoura está mais susceptível a sofrer com
eventos climáticos? Eventualmente que a que está
menos tratada”, especifica.
Ostrowski acredita que esse ano, especialmente, os produtores
têm que produzir ainda mais, diantes das dificuldades enfrentadas
na última safra, que acarretaram em dificuldades no campo.
“Ficou muito claro que os produtores que têm um solo
melhor equilibrado, as culturas foram favorecidas, diante da estiagem
do último verão”, lembra. Para os agricultores
que ainda não definiram completamente o esquema de cultivo,
o técnico dá uma dica: “Temos tempo para ajustes”,
assegura. O agricultor, segundo ele, tem que repensar constantemente
o seu negócio, para que ele cresça e, com isso,
tenha maior renda. “Porque o que se busca é a manutenção
do investimento que se fez no passado. O agricultor tem que ter
consciência de que o impulso do seu próprio desenvolvimento
e da região só foi possível porque ele acreditou
na tecnologia, na assistência técnica e nos pacotes
tecnológicos, uma vez que são tecnologias testadas
e aprovadas, e com custo/benefício positivo. Então
não há como retroceder. Temos que andar sempre para
frente, de olho no futuro”, assegura.
Pacote
tecnológico
Um bom pacote tecnológico, de acordo com o Detec
da Coamo, é aquele que equilibra o econômico
do produtor rural e aspecto técnico da propriedade,
levando em conta as informações de solo e
de clima regional. Não existe uma “receita
de bolo”. Cada caso é analisado individualmente
na sintonia fina existente entre os agricultores e os técnicos
que assistem as propriedades rurais. Mas as ações
macros dentro deste processo devem ser concentradas na qualidade
do solo, uma boa adubação de base; sementes
de qualidade e com tratamentos; aplicação
de micronutrientes; um bom controle fitosanitário;
e cuidados especiais com doenças.
Produtividade média – A
estiagem foi a grande responsável no processo de
redução das produtividades na última
safra. A Coamo já chegou a uma média de produtividade
de 130 sacas de soja por alqueire em toda a sua área
de ação, que ocupa mais de 1 milhão
de hectares de área cultivada. “Esta média,
na última safra de verão, veio ao redor de
100 sacas por alqueire. Foi uma redução de
30%. Mas o quanto disso foi por causa da seca e quanto foi
por redução de tecnologia?”, pergunta,
novamente, Ostrowski. “Por isso, temos que evoluir
ainda mais nessa questão. O tipo de economia que
o produtor pode e deve fazer é planejar cada ação
que irá desenvolver na propriedade. Fazer as coisas
na hora certa e na época certa, sem jogar dinheiro
fora. Não é luxo e sim o básico”,
conclui o agrônomo da Coamo.
|
Com o pé
no acelerador da produção
Para os fatores que influenciam diretamente na sua produção
o cooperado Cezar Augusto Reis Camargo, de Palmas (Sul do Paraná),
é categórico em afirmar: “não tiro
o pé do acelerador”. Ele possui uma fazenda de 700
alqueires, onde cerca de 40% da área é destinada
ao plantio de lavouras de verão e inverno. “Depois
do ano difícil que tivemos todo o cuidado é pouco.
Mas não dá para abrir mão de produzir. Até
porque temos que buscar uma safra cheia neste verão para
que o clima de ânimo e otimismo volte novamente ao campo”,
analisa o produtor, que também é agrônomo.

O cultivo de verão, na propriedade de Camargo, é
dividido entre a soja e o milho. No inverno ele planta trigo,
triticale e aveia preta, para o pastoreio do gado. Aliás,
a pecuária é uma atividade importante na propriedade.
São 650 cabeças de animais da raça charolesa.
O produtor faz o ciclo completo da bovinocultura (cria, recria
e engorda).
Os 30 dias sem chuva, registrados na última safra justamente
no período mais crítico da lavoura de soja, fez
com que a produtividade fosse reduzida em cerca de 20% na fazenda
de Camargo. A média fechou em 120 sacas de soja e 350 sacas
de milho por alqueire. “A qualidade do solo suportou bem
a estiagem”, conta o cooperado, que em parceria com a Coamo
investe na fertilidade dos talhões da propriedade há
6 anos. “Tenho utilizado 100% da tecnologia preconizada
pela assistência técnica da Coamo. E vejo isso como
investimento, com retorno a curto, médio e longo prazos”,
salienta.
Monitoramento – Preparado para o plantio
da nova safra, Camargo admite que neste ano vai monitorar com
maior freqüência as lavouras. “É bom ficar
de olho para, dentro do planejado, executar melhor cada ação,
buscando otimizar o resultado de cada tarefa executada”,
alerta.
| Adubo
no adubo
Passa Sede é o nome do sítio que o cooperado
Alceno Schmoeller possui, na região de Rio da Bulha,
em Ivaiporã (Vale do Ivaí, no Paraná).
Sede até que tudo bem, uma vez que não há
como controlar os fatores climáticos. Mas fome, é
uma condição que as lavouras dele não
enfrentam. Dono de uma consciência tecnológica
apurada, o agricultor é referência quando o
assunto é adubação de culturas. “Aqui
até as lavouras alternativas de inverno, como aveia
preta e nabo forrageiro, recebem adubação”,
adianta Joselito dos Santos, engenheiro agrônomo do
entreposto da Coamo em Ivaiporã, que assiste a propriedade.
Ele diz que a iniciativa partiu do próprio cooperado,
com orientação do Detec da Coamo, para auxiliar
na condução do plantio direto. “Além
da adubação residual que fica para o verão,
esse tipo de atitude, através do aumento da matéria
orgânica sobre o solo, resulta em maior armazenamento
de água e menor perda de umidade por evaporação’,
explica Santos.

Segundo Schmoeller, as áreas que receberam adubos
verdes no inverno passado, com adubação complementar,
sofreram menos com a seca e renderam até 40 sacas
a mais, por alqueire, em comparação com outras
não adubadas. “Nos anos piores é que
a gente vê o resultado do trabalho diferenciado”,
comemora o cooperado.
Retorno do investimento – Na propriedade de 75 alqueires,
2/3 da área é destinada ao cultivo de lavouras.
O restante é ocupado por reservas e pastagem. No
verão, a cultura principal é a soja, com o
milho entrando no esquema de rotação. E no
inverno, o trigo divide espaço com as alternativas
de adubação verde. A produtividade média
do sítio, na última safra, foi de 125 sacas
de soja por alqueire. “Mas nos anos em que o clima
corre normal já colhemos 176 sacas por alqueire,
de média, tanto na soja quanto no trigo. Sem contar
o milho, que já alcançamos 400 sacas por alqueire”,
contabiliza Schmoeller.
O retorno dos investimentos que o cooperado tem feito
na propriedade tem girado na ordem de 80%. “A conta
é simples: aplico 100 e tenho 180”, comemora.
|
Acreditar
sempre
“Não dá para deixar de lado o investimento
porque nunca se sabe como vai ser o ano. Se for bom, você
ganha mais. Se for ruim, você ganha menos. Mas nunca perde”.
A opinião é do cooperado Wilson Pereira de Godói,
que cultiva 70 alqueires de área na região do Anel
Viário, em Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná).
“Produzir não é a mesmo coisa que jogar na
loteria. As chances de um resultado altamente favorável
para o agricultor são grandes. Por isso é que acredito,
sempre, pois a agricultura é o meu negócio”,
pondera Godói.
O agricultor, que cultiva soja e milho no verão, e planta
aveia preta para o pastoreio do gado no inverno, também
teve suas lavouras afetadas pela estiagem na última safra.
“Faltou chuva entre as fases de frutificação
e enchimento de grãos”, lembra o engenheiro agrônomo
Luiz Lima, do entreposto da Coamo em Campo Mourão, que
orienta tecnicamente a propriedade. Foram cerca de 80 dias de
seca, o que comprometeu cerca de 35% da estimativa inicial, principalmente
da lavoura de soja. O cooperado fechou a safra com uma produtividade
média de 122 sacas por alqueire. “Tenho consciência
de que poderia ter sido ainda pior, não fosse o bom manejo
da lavoura e a tecnologia que venho usando para o cultivo”,
revela Godói.
Resultados – A redução
de 25% no valor dos insumos adquiridos para a nova safra de verão,
através do plano safra da Coamo, só aumenta as expectativas
do agricultor para uma excelente colheita. “Uma redução
que não implicou em economizar no pacote tecnológico
que será usado para fazer a lavoura. Pelo contrário.
Vamos até investir mais que no ano passado, por conta do
menor custo dos insumos”, comemora Godói.
|