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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 397 | Agosto de 2010 | Campo Mourão - Paraná

Alternativa

O leite na dianteira dos negócios

Bem planejada e executada a bovinocultura leiteira tem mudado a realidade econômica e social da propriedade rural, gerando renda, otimização na gestão da mão de obra familiar e melhoria da qualidade de vida no campo. Em alguns casos, a alternativa já assume a posição de principal atividade do sítio

O projeto de diversificar o pequeno sítio na comunidade Lirial, em Araruna (Noroeste do Paraná), não poderia ter encontrado melhor opção. Ao decidir pela bovinocultura leiteira, há quatro anos, o cooperado Erasmo Carlos Alves de Souza mudou, para melhor, a realidade econômica da propriedade. Bem planejada e executada, a atividade otimizou a mão de obra e propiciou uma melhoria da qualidade de vida no campo. Hoje, a atividade tomou a dianteira dos negócios do sítio e deu novo ânimo para o ‘seo’ Erasmo e a família dele.

AVANÇO – Tudo começou com seis animais. A retirada do leite era feita no balde ao pé, e, consequentemente, a produção se mantinha baixa, diante da falta de tecnologia e manejo alimentar adequado. “Aos poucos fui incrementando a atividade, motivado pela orientação técnica da cooperativa e pela possibilidade de ampliar a renda do sítio”, conta Souza. E os investimentos não foram em vão: hoje o plantel do cooperado é formado por 39 cabeças da raça holandesa, sendo que 15 delas estão em lactação e outras dez em período de pré-parto. Ao todo, seis mil litros de leite são retirados a cada mês. O alto controle de pré-dipping e pós-dipping (desinfecção dos tetos antes e depois da ordenha) garante um produto com baixo índice de células somáticas, conferindo alta qualidade ao leite.

TRANSFORMAÇÃO – A produção leiteira gerada pela vacada do ‘seo’ Erasmo é dividida. Uma parte é vendida a granel e outra transformada pela família em queijo. São cerca de 130 quilos de queijo por mês. O produto é vendido na cidade, sob encomenda, pela esposa do cooperado, dona Iraci. Até o soro – sub-produto da preparação do queijo -, é aproveitado, sendo destinado à engorda de suínos.

BOA ESTRUTURA – No sítio dos Souza, a principal filosofia de trabalho tem como foco o bom trato da criação e a qualidade do leite. “Os investimentos realizados pelo cooperado no manejo alimentar das vacas e também na estrutura para a retirada do produto são diferenciais do negócio”, elogia o veterinário Fabiano Camargo, do Detec da Coamo, que atende a região. A estratégia do produtor, segundo o técnico, é alcançar o máximo do potencial da atividade. “O projeto leiteiro do sítio inclui ordenhadeira mecânica, resfriador e uma nova mangueira, com sala de espera e de ordenha. O produtor também investiu em trator, carreta e ensiladeira, de olho na melhoria de todo o esquema de manejo alimentar”, completa Camargo.

QUALIDADE ALIMENTAR – A boa sanidade e qualidade alimentar também são diferenciais no projeto da família Souza. Todo o cuidado é feito de perto, e pelo próprio ‘seo’ Erasmo. “É como aquele velho ditado: ‘o boi só engorda com o olho do dono’; aqui não são só os olhos, mas o corpo todo”, brinca.

Além do pasto, as vacas do plantel recebem alimentação complementar diretamente no cocho, composta por 60% de cana innatura e 40% de silagem de milho. Há, também, uma complementação com ração concentrada em 23% de proteína, administrada aos animais de acordo com a produção leiteira de cada um. “Todo esse cuidado nos garante um bom resultado com a atividade. Hoje, por causa dos investimentos realizados, não é possível aproveitar os lucros; mas eles estão aqui”, comemora o cooperado, que garante que há um retorno de 50% na gestão da pecuária de leite. “É, certamente, o principal negócio aqui do sítio”, afirma.

MAIS PRODUÇÃO – A meta do produtor é ampliar os resultados com a atividade leiteira. Ele revela o projeto: retirar 300 litros de leite por dia. “De agora em diante tenho a certeza de que a alternativa vai deslanchar, diante do incremento tecnológico e profissionalismo”, conclui Souza.

Genética apurada na busca por novos mercados

Na propriedade do cooperado Marcos Antonio Lotti, de São Pedro do Iguaçu, no Oeste paranaense, a pecuária de leite chegou há três anos. O produtor decidiu investir na atividade enquanto participava de uma das turmas do curso de formação de lideranças cooperativistas, realizado pela Coamo. “O projeto nasceu de uma oportunidade, depois que fui motivado a diversificar a propriedade”, revela Lotti. Ele conta que, com o incremento da nova atividade passou a se considerar um empresário rural, buscando rentabilidade em várias pontas. “A opção pelo leite foi a mais acertada, porque é uma atividade que traz diversas oportunidades de rentabilidade para dentro da porteira”, comemora Lotti.

NEGÓCIO FORMADO AOS POUCOS – Entre as metas estabelecidas pelo cooperado para a bovinocultura leiteira estava a de proporcionar uma nova opção de trabalho que pudesse ser conduzida por toda a família, sobretudo os dois filhos, Vitor e Felipe. “Os animais também trouxeram mais vida para a propriedade”, acentua o produtor, ressaltando que o negócio foi sendo formado aos poucos. “Optamos pelo gado jérsei e a primeira bezerra que compramos tinha apenas um dia de vida. Criamos como um ‘bebezinho’. Depois veio a segunda, a terceira e então não paramos mais”, lembra Lotti. Hoje, o plantel é formado por 40 vacas em produção e 30 novilhas.

No início, os Lotti não fizeram grandes investimentos, mas hoje não abrem mão de uma boa genética na linha materna. Eles importam sêmen de animais de alta linhagem e realizam inseminação artificial nas vacas, buscando animais que possam sustentar boas crias e apresentar alto rendimento leiteiro. E, também, têm projetos para de trabalhar com transferência de embriões e com a desnatação do leite, visando agregar mais rentabilidade ao negócio. “A ideia é continuar crescendo por meio do aprimoramento tecnológico também na pecuária, como já fazemos na agricultura, e não depender apenas de vender grãos”, salienta.

ALTA PRODUTIVIDADE – Na propriedade do cooperado, as vacas em lactação apresentam uma produtividade que oscila entre 20 e 22 litros por animal/dia. O resultado é considerado muito bom pelo produtor, que utiliza bem o dinheiro do leite. “A produção leiteira ajuda a manter a propriedade; paga a parcela de máquinas, do trator, garante o combustível usado no trabalho diário, e em reformas”, contabiliza Lotti. A rentabilidade do negócio, na opinião do produtor, está na condução da atividade. “Nosso custo de produção é reduzido. E na parte alimentar o projeto está baseado no sistema de integração lavoura/pecuária, com o fornecimento de silagem de aveia no cocho como alimentação complementar”, enumera, considerando que, para o próximo ano, o cultivo de aveia e azevém sobre o pasto perene de verão é uma opção para o superaproveitamento da pastagem.

VENDA DE NOVILHAS – Outra alternativa de receita que o produtor encontrou com a inclusão da pecuária de leite na propriedade é a venda de novilhas. “É uma forma, também, de incentivar outros produtores a iniciarem na atividade”, destaca.

Segundo Lotti, o projeto leiteiro instalado na propriedade está caminhando para representar 50% do resultado gerado anualmente pelo sítio, dividindo espaço com a agricultura. Além da família, dois empregos são gerados diretamente com o leite produzido na propriedade.

Segredo é manter foco no manejo da atividade

O leite compõe o grupo dos principais produtos agropecuários do ponto de vista da competitividade. Quem afirma é o veterinário Hérico Alexandre Rossetto, do Supervisor Técnico da Coamo. Segundo ele, o setor leiteiro possui uma alta capacidade produtiva por área e se destaca por propiciar alta geração de mão de obra por área produtiva, tendo, assim, grande impacto social. “Estima-se que a atividade leiteira emprega cerca de 17% da mão de obra utilizada pela agropecuária brasileira”, revela Rossetto.

O veterinário argumenta que economicamente a atividade tem a ação de manter o produtor rural estruturado, pois, possui uma boa rentabilidade. E, tecnicamente, ela é a atividade agropecuária de maior potencial de produção por área, ao ser comparada com as demais atividades do setor. “Para isso, o produtor precisa observar e desenvolver certos pontos, necessários para o sucesso da atividade, como nutrição balanceada e adequada para o potencial genético dos animais utilizados, controle sanitário correto, disponibilização de um local adequado para o descanso, estratégico, dos animais, o qual está intimamente ligado a performance produtiva das vacas em lactação, e finalmente, possuir mão de obra treinada”, enumera.

Os produtores que desenvolvem a atividade leiteira também devem levar em consideração, na opinião de Rossetto, o uso correto das tecnologias apropriadas para o potencial produtivo do rebanho, mantendo um correto controle das unidades produtivas (vacas em lactação). “Para isso, precisam de instalações bem dimensionadas, com boa estrutura de sala de ordenha, de alimentação, área de sombreamento para os animais descansarem, cochos para água e sal mineral, e bezerreiros”, orienta. Também devem controlar, de acordo com o veterinário, o manejo dos animais dentro dos piquetes de pastagens, realizando as adubações necessárias, respeitando as alturas corretas de entrada e saída dos piquetes e ajustando a dieta alimentar diária dos animais de acordo com a produção apresentada. E na questão sanitária é muito importante manter um controle rigoroso, conhecendo as doenças que estão envolvidas com a atividade leiteira e as formas corretas de controlá-las. “Assim, observamos que a atividade leiteira exige competência administrativa, pois, possui uma rotina de trabalho comprometida e diária, necessária para que este produto nobre traga alta rentabilidade para o produtor”, conclui Rossetto.

Queijo com sabor de lucro

Do café ao leite. Uma mudança radical na vida do cooperado José Moacir Menão, de Janiópolis (Noroeste do Paraná). Em 1961, quando chegou com a família à região, ele ajudou os pais a formar o cafezal. Permaneceu no sítio e diversificou as atividades. Sem abandonar a vocação para o café, e com o apoio da esposa, dona Odília, e dos filhos Adriano e Leandro, ‘seo’ Moacir incorporou a produção de soja e milho e a pecuária de leite ao dia-a-dia do sítio. “A implantação das novas atividades foi uma necessidade e colaborou para a nossa manutenção no campo”, afirma o cooperado.

O aproveitamento da mão-de-obra familiar foi o que mais motivou o agricultor a diversificar a propriedade. Dos 15 alqueires de área, oito são direcionados para a produção de grãos, um para o café e cinco para pastagens, formadas a partir do capim MG5 e grama Tifton. Aos poucos a atividade leiteira vai ganhando espaço entre as alternativas de produção. “Comecei há 20 anos, com a retirada do leite só para a manutenção da propriedade. Hoje o nosso plantel é formado por 17 cabeças de girolandas, sendo que dez estão em lactação, e produzem uma média de 70 litros de leite por dia”, planilha Menão. Os animais, segundo ele, permanecem à pasto o ano inteiro e recebem, no inverno, uma complementação com silagem de milho. “Assim, é possível afirmar que o nosso queijo é orgânico, produzido a partir do leite de animais que vivem basicamente do pasto”, diferencia.

AGREGAÇÃO DE VALOR – A produção diária de leite na propriedade da família é toda direcionada para a fabricação de queijo tipo frescal. Dona Odília é responsável pela transformação e conta que acorda cedo para retirar o leite e iniciar a produção do dia. “Todos os dias preparamos oito queijos, com média de um quilo cada um, que são entregues para clientes na cidade duas vezes por semana”, revela. Cada queijo é vendido por um valor de R$ 9,00. “A vantagem do leite, no nosso caso, é que através da produção dos queijos conseguimos agregar mais valor à atividade. E, assim, temos dinheiro todos os dias no bolso”, comemoram, afirmando que, hoje, a alternativa representa mais de 50% da renda gerada pelo sítio.

PASTO IRRIGADO – Dentro do projeto de melhoria contínua no sítio, os Menão estão prestes a implantar, com recursos do governo estadual, um sistema de irrigação numa área de 30 mil metros quadrados de pastagem. “Também vamos dividir melhor a área, em vários piquetes, para que os animais aproveitem melhor a pastagem e possamos ter um custo menor com a produção”, adianta ‘seo’ Moacir.