
Depois do sucesso com álcool de cana-de-açúcar, responsável por colocar o Brasil na liderança mundial na produção e uso deste combustível alternativo à gasolina, o país vem acompanhando uma tendência mundial que se volta agora para um novo desafio: a substituição gradual do diesel de petróleo pelo biodiesel ou Hbio, que têm na sua formulação de base grãos oleaginosos de origem agrícola. É que ambos são produzidos a partir da mistura com óleos vegetais extraídos da soja, canola, palma, girassol, amendoim e mamona.
Brasil na liderança – Segundo a Embrapa, o Brasil é o único país do mundo com grande capacidade de expandir sua produção de oleaginosas, o que permitirá ao país assumir uma liderança mundial na produção de biocombustíveis. Mas o aumento da área plantada das oleaginosas vai exigir também um grande esforço dos pesquisadores. “É preciso aumentar a produtividade de algumas culturas e em outras falta ainda desenvolver um sistema de produção no Brasil”, afirma Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja. Outras opções promissoras dependem de muita pesquisa para se tornarem viáveis como matéria-prima. As sementes do girassol, por exemplo, têm alto teor de óleo (de 38 a 48%), mas a produtividade da cultura ainda é baixa no Brasil. “Temos poucas variedades de girassol adaptadas e o número de pesquisadores trabalhando com a cultura é pequeno”, explica Dall’Agnol.
O engenheiro químico Germano Frenzel Ottmann, superintendente Industrial da Coamo, aponta um levantamento publicado na Oil World Annual 2005 que afirma ser, a soja, a principal cultura brasileira, representando mais de 93% do total das oleaginosas. “Sendo assim, o óleo de soja é o único, no momento, com disponibilidade para alavancar programas de biocombustíveis de porte em nosso país”, considera.
Biodiesel – Diferente do ditado popular que não define, claramente, quem veio primeiro: o ovo ou a galinha, no caso do motor diesel e seu combustível, o óleo diesel, o motor veio primeiro. Quando o primeiro motor ciclo diesel foi apresentado ao mundo na década de 1900, numa feira em Paris, pelo seu inventor Rudolf Diesel, o motor funcionou com óleo de amendoim, pois o óleo diesel de petróleo apareceu mais tarde. “Atualmente os motores diesel funcionam bem com óleo diesel, e mal com óleos vegetais, pois estes produzem gomas no interior do motor dificultando a lubrificação e levando a ‘quebra’ do motor, além de emitirem acroleinas canceríginas nos gases de escape, devido à combustão incompleta da glicerina, um constituinte dos óleos vegetais”, alerta Ottmann. “Embora existam hoje no mundo motores especiais que queimam o óleo vegetal puro, como o alemão Asbelt, ou similares, mas que são custosos e pouco utilizados”, completa.
Para resolver estes problemas, segundo o superintendente da Coamo, o óleo vegetal deve ser modificado quimicamente através de reações de transesterificação entre óleo e álcool, dando como produtos um éster (biodiesel) e glicerina. “O éster formado pode ser metílico ou etílico, conforme se use metanol ou etanol (álcool de cana-de-açúcar) na reação”, informa. Na Europa e nos Estados Unidos, conforme explica Ottmann, usa-se o metanol. “Aqui no Brasil, a tendência é usar mais o etanol pela disponibilidade e ao maior apelo ecológico”, revela.
O engenheiro da Coamo diz que os ésteres (biodiesel) têm uma viscosidade e outras propriedades semelhantes ao diesel, e consequentemente funcionam melhor que os óleos vegetais não modificados no interior dos motores ciclo diesel. “Quando se utiliza óleo de soja e álcool de cana-de-açúcar, que são os reagentes mais disponíveis no Brasil, para cada tonelada de óleo são necessários 158,4 quilos de álcool, produzindo 105,6 quilos de glicerina e 1.050 quilos de biodiesel”, contabiliza.
Oferta de biodiesel – Com o incremento da produção mundial de biodiesel, também está crescendo a oferta de glicerina produzida nestes processos, o que derrubou seu preço internacional. Por conta disso, hoje na Alemanha a glicerina é um subproduto barato e que está sendo usado em fábricas de rações animais. Especialistas informam que a mesma influencia poderá ser sentida, futuramente, no mercado mundial de farelos vegetais.
Atualmente a Comunidade Européia, é a maior produtora mundial de biodiesel, com um volume ao redor de dois milhões de toneladas anuais. A meta da UE é produzir 14 milhões de toneladas/ano em 2010, atendendo um programa para uma substituição gradual em sua matriz energética por combustíveis renováveis. Esta substituição foi de 2%, em 2005; e será de 5,75% até 2010 e 8% até 2020.
No Brasil, o Programa Nacional de Biodiesel, que estabelece a mistura do biodiesel no diesel de petróleo, teve seu marco regulatório na Lei 11.097, de 2005. O programa prevê as seguintes etapas: de janeiro/2005 a janeiro/2008 – mistura autorizada de 2 %; de janeiro/2008 a janeiro/2013 – mistura obrigatória de 2 % e autorizada de 5 %; a partir de janeiro/2013 – obrigatória a mistura de 5 % de biodiesel ao diesel de petróleo.
“Desta forma, a partir de janeiro de 2013, estaria criada uma demanda em um mercado firme de 2,4 bilhões de litros de biodiesel no Brasil”, garante Ottmann.

Em sua unidade piloto de desenvolvimento de gorduras, localizada no parque industrial em Campo Mourão (CentroOeste do Paraná), a Coamo produziu, entre 2001 e 2002, vários lotes de biodiesel a partir de óleo de soja e etanol (éster etílico). A produção atendeu a solicitação do Instituto Tecpar, de Curitiba (Capital do Estado), diante de um programa de testes deste combustível em motores veiculares.
Na época, segundo informou o superintendente da Coamo, o Tecpar só dispunha de biodiesel-éster metílico de soja que foi doado pela Associação de Produtores de Soja dos Estados Unidos. “A Coamo ofereceu um importante apoio ao programa. Alem disso, quando o programa brasileiro foi iniciado, a cooperativa contribuiu para criar a especificação preliminar do biodiesel brasileiro, a pedido da Agencia Nacional do Petróleo (ANP)”, esclarece Ottmann.
O Hbio é um processo desenvolvido pela Petrobrás que incorpora óleo vegetal junto com as frações de diesel na alimentação das colunas de hidroconversão (HDT) de algumas refinarias de petróleo. As HDT’s são necessárias para a remoção do enxofre do óleo diesel. Quando são alimentadas junto com óleo vegetal, acontece uma quebra molecular, além da hidrogenação do produto, resultando em hidrocarbonetos parafínicos, que são similares ao diesel de petróleo.
Uma das vantagens neste processo em relação à transesterificação é a de que no processo Hbio não se produz glicerina. Neste processo, 100 litros de óleo vegetal são transformados em 96 litros de diesel e em 2,2 m3 de propano (gás liquefeito de petróleo).
É importante ressaltar que o Hbio não concorrerá com o biodiesel, embora possua um potencial de crescimento maior. Toda a produção de diesel da Petrobrás, incluindo o Hbio, receberá a adição do biodiesel nas proporções do programa brasileiro já estabelecido.
Existem hoje duas fortes razões para se produzir o biodiesel. Uma delas é a preocupação ambiental e a outra é um posicionamento estratégico. “A primeira tem seu respaldo no Protocolo de Kioto e na relação do gás carbônico emitido com o efeito estufa, já que uma tonelada de biodiesel produz 2,5 toneladas de gás carbônico a menos que a mesma quantidade de diesel de petróleo, além de não conter enxofre, minimizando as chuvas ácidas poluidoras”, informa o superintendente da Coamo.
No âmbito estratégico, conforme explica Ottmann, “a maioria das nações estão a procura de substitutos aos derivados de petróleo, pela auto-suficiência energética e em conseqüência um aumento de atividade industrial com mais empregos e aumento de renda no campo”.
Realidade no Brasil – Com o anúncio da construção de várias fábricas de biodiesel no Brasil, sendo três delas pela Petrobrás, o Ministério de Minas e Energia calcula que a capacidade de produção já atende a obrigatoriedade dos 2%, principalmente por já existirem outros projetos privados em andamento, que em conjunto com o projeto do governo poderão atender o porcentual estabelecido para até 2013.
Agroenergia é prioridade – Ao tomar posse como coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro), o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, afirmou que o desenvolvimento do Brasil neste setor passa pela implementação de políticas públicas que favoreçam o setor privado em infra-estrutura, negociação internacional e compreensão das cadeias produtivas.
Uma das primeiras iniciativas de Rodrigues, à frente da GV Agro, é a formação de um grupo de trabalho que irá estabelecer um centro de pesquisas em agroenergia.
O ex-ministro disse que o Brasil tem condições de liderar o segmento de agroenergia, setor que ele considera o foco das atenções neste século.Por que produzir biodiesel? |
Área de expansão do cerrado brasileiro (milhões de hectares) |
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