Pecuária
Suinocultura:
Driblando a crise

Criatividade e disposição ao trabalho são atitudes para vencer a crise na suinocultura


No Brasil, a Suinocultura Intensiva é uma atividade econômica de risco como qualquer outra dentro da agropecuária, onde geralmente se observa curtos períodos de crises que aparecem ciclicamente a cada 2 ou 3 anos. Estas crises são causadas ora por aumento excessivo da oferta de carne suína com relação a demanda de consumo interno que causa queda no preço do suíno, ora pelo aumento do custo de produção pela elevação dos preços dos principais ingredientes componentes da ração (principalmente o milho). Algumas vezes esta última ainda aparece associada a queda do preço do suíno, que com certeza é a pior situação.

Esta atividade se encontra em crise desde junho do ano passado, onde houve uma elevação no patamar de preço dos constituintes das rações, o que não ocorreu com o preço do suíno, inclusive caindo também em dólar no mercado internacional, conforme observa-se no gráfico abaixo:

Aumento dos preços agropecuários no mercado interno (de março/2001 a março/2003)

Produto

%

Milho

168
Trigo

125
Soja

116
Arroz

90
Frango

45
Café

43
Bovino

40
Cana

20
Suíno

17
Inflação
FIPE
22
Fonte: Adaptado do Informativo Momento ELANCO no. 06 (maio/2003)

Para minimizar os efeitos deletéricos atuais do baixo preço frente ao alto custo de produção do suíno vivo, resta ao suinocultor para se manter vivo nesta atividade.

Otimização da produtividade – Neste item deve-se pensar em melhorar a eficiência produtiva, que no caso dos iniciadores: descartar as matrizes de baixa produtividade e aumentar os cuidados com os leitões do parto até a desmama. No terminador, uma sugestão é o uso do “Manejo de Restrição Alimentar”, onde apesar de se aumentar a mão-de-obra (até 5 a 7 tratos por dia), causa uma redução de até 20% na quantidade de ração consumida, o que melhora a conversão alimentar e diminui o custo de produção.

Grão úmido – Baseando-se em nossa experiência na região de Campo Mourão-PR, eu não poderia deixar de prescrever nossas soluções, onde o objetivo principal é de se encontrar alimentos regionais alternativos econômicos ao grão seco de milho. A silagem de grão úmido de milho é uma delas. Até o final da década de 90, o alimento não era muito difundido, visto que na região outros cereais energéticos de inverno (triticale, cevada, centeio, aveia, etc.) e até resíduos da recepção de cereais (triguilho e o próprio “milho quirera” conhecido como “milho peneira 4,5” por aqui), eram comercializados com preços bastante inferiores ao do grão seco de milho. De lá para cá o mercado destes produtos se alterou para cima, trazendo seus preços a patamares muito próximos ao do milho grão seco, e ainda no caso específico do triticale, que até ultrapassou o preço do milho, inviabilizando os seus usos na alimentação de suínos, principalmente para quem necessita de comprá-los.

Então a silagem de grão úmido de milho, quando usada na alimentação de suínos, se tornou uma das poucas opções para que se efetivamente se consiga um custo de produção abaixo do preço do quilo do suíno vivo.

A silagem de grão úmido de milho pode substituir em até 100% o grão seco de milho nas rações de suínos, em todas as fases do ciclo de produção. Como principais vantagens pode-se citar: diminuição de até 25% no custo da ração, melhoria significativa nos resultados zootécnicos (C.A., G.P.D.), diminuição da ocorrência de algumas enfermidades (principalmente diarréias), diminuição nos gastos com medicamentos, e até diminuição nas taxas de mortalidade.

Cana-de-açúcar – A cana-de-açúcar “in natura” também vem sendo muito utilizada na alimentação do gado leiteiro. A forrageira vem sendo , analisada por pesquisadores de Minas Gerais para alimentaçao de suínos. A tecnologia também já está disponível aos cooperados integrados do Projeto de Suinocultura da Coamo.

Algumas das experiências mais bem sucedidas estão entre os cooperados da região de Mamborê. Eles estão utilizando com sucesso a cana-de-açúcar in natura moída em mistura de até 20% em algumas rações. Também fizeram silagem de cana, que vai ser aberta e testada ainda neste junho.

Milho planta inteira – A silagem de planta inteira de milho é um produto muito empregado na alimentação de bovinos e acreditamos que poderá ser utilizado também para suínos, sendo fornecido como um dos tratos do dia na terminação (no do meio do dia, por exemplo), e também para matrizes em gestação. A grande vantagem deste alimento quando comparado com o grão seco de milho é a produção de alimento por área colhida que pode ser de até mais de 4 vezes, e sem a necessidade de restrição alimentar (física), já que ocorre uma restrição química.

Análise Bromatológica e Química (dados médicos) de alguns ingredientes utilizados na alimentação de suínos:

Ingre-
diente
Grão seco
de milho
amarelo
Silagem de
grão úmido
de milho
Silagem
de planta
inteira
de milho
Cana de
açúcar
"in natura"
moída
Silagem de
cana de
açúcar
moída
Grão seco
de triticale

PB %
EM (s)
kcal\kg
FB %

9,00
3.315

2,50
6,47
2.706

1,77
2,25
2.130

9,00
2,40
?

8,90
0,90
?

8,60
12,50
3.100

3,60
UM % 12,00 35,00 70,00 72,20 78,10 12,00
NDT % 80,00 61,09 18,60 16,30 25,60 75,00
Lipídios
(EE) %
4,50 2,82 0,90 0,60 0,60 1,50
Ca % 0,02 0,02 0,09 0,07 0,02 0,05
P (t) %
MS %
0,25
88,00
0,22
65,00
0,05
30,00
 

0,08
27,80

0,02
21,90
0,24
88,00
Fonte: Adaptada oe ANDRIGUETTO et alli (1986), PUPO (1979), FIALHO & BARBOSA (1997) Ministerio da Agricultura (Revisão 1996), Folhetos PIONNER

Médico veterinário Rogério Paulo Tovo, coordenador técnico do Projeto de Suinocultura da Coamo



Inverno:
Utilizando a pastagem pensando no verão

O ideal é trabalhar o manejo dos animais de forma eficiente visando, com isso, ter um maior retorno com a pastagem sem prejudicar a exploração das lavouras de verão

Manejar o pasto de inverno é, basicamente, controlar a condição das plantas, a programação do acesso e o impacto do pisoteio dos animais sobre a pastagem. A afirmação é do engenheiro agrônomo Sila Carneiro da Silva, professor de Manejo da Pastagem da Esalq – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP) de Piracicaba (SP). Segundo Silva, a colocação de animais para fazer a colheita da pastagem deve ser feita de forma cuidadosa, respeitando uma certa quantidade mínima de forragem que tem que ser deixada na área, não só para não prejudicar o animal mas para manter a sustentabilidade da produção do pasto; enquanto cultura, ou da lavoura subseqüente, seja milho ou soja. “É uma cadeia em que o produtor tem que procurar otimizar o uso de todos os recursos sem gerar malefício para o evento seguinte e buscando um benefício imediato para uso atual do solo”, revelou.

Entre as orientações destacadas pelo agrônomo, a conscientização de produtores e técnicos que o processo de colheita da forragem através do pastejo é uma das fases mais importantes do sistema. “De nada adianta o produtor ser muito eficiente em termos de uso de fertilizantes, insumos e recursos, produzir uma quantidade grande de forragem se ela não for efetivamente convertida em produto animal. O processo de conversão passa obrigatoriamente pela colheita de forma eficiente”, garantiu, considerando que para que o produtor possa manejar adequadamente o pastoreio, ele precisa compreender melhor a espécie de planta que se está trabalhando, o tipo do animal – suas exigências, necessidades, hábitos e as suas respostas às trocas de pastagem, ou rebaixar um pasto numa determinada altura, ou ainda colocar um tipo de fertilizante numa determinada taxa. “Tudo isso tem impacto sobre a forma como a planta se dispõe na área, em altura e massa; e isso interfere na sua produção, nas suas perdas, no valor nutritivo e no desempenho animal”.

O professor acredita que os fatores decorrentes da colheita da forragem pelos animais correspondem a um impacto entre 40 a 60% de eficiência global em produtividade. “E isso passa, obrigatoriamente, em se conhecer necessidades de plantas e animais. O produtor pode estar fazendo tudo certo na condução da forragem e errando no manejo dos animais sobre a pastagem”, considerou.

Muitas vezes, segundo Silva, enxergar o pasto alto, com bastante forragem não quer dizer que resulte em produtividade e lucratividade no fim do dia. É importante que a produção e vigor da pastagem seja transformada em produto animal e para isso a forragem precisa ser eficientemente colhida. “De certa forma, para favorecer a produção da planta, o produtor abre mão de colhê-la eficientemente. E aí ao invés da forragem ir parar na barriga do animal e virar produto (leite, carne ou lã) ela acaba virando material morto e sendo incorporada de volta ao solo, ou perdida”, completou.

O produtor deve trabalhar com um balanço entre produção, colheita e conversão da forragem em produto animal. Para cada espécie forrageira existem condições de manutenção da planta no campo (em termos de altura, massa), que permite o ótimo rendimento.


PASTAGEM RAPADA

Indicadores de campo, particularmente na própria planta, orientam o produtor sobre o momento exato de trocar os animais de piquete, evitando que eles explorem muito a capacidade de forragem da pastagem. Essa informação está relacionada com características morfológicas da planta e do pasto. O mais fácil e mais direto delas é a altura da planta.

“A pastagem deve ser bem aproveitada pelos animais, porém o criador deve ficar atento para não reduzir muito a massa de forragem, que servirá de base para a cobertura de palhada na cultura seguinte, no caso a soja”, explicou o professor João Restle, da área de bovinocultura de corte da Universidade Federal de Santa Maria (RS). Restle é um dos defensores do sistema e abordou, em palestra, a utilização da pastagem de inverno pensando na lavoura de verão.

Segundo o professor, uma boa dica é trabalhar o manejo dos animais de forma eficiente, garantindo o alcance dos dois objetivos. “Não se pode permitir que os animais rapem muito a pastagem. Em geral, os bovinos devem sempre caminhar em cima de pasto – da massa de forragem, que vai atuar como almofada, para evitar a compactação excessiva, que pode influenciar negativamente a produtividade de soja e milho”, orientou. Conseqüentemente, bem manejada a pastagem só poderá trazer benefícios inclusive pela reciclagem de nutrientes.

O produtor, na opinião de Restle, deve trabalhar com a massa de forragem mais elevada (acima de 1.500 quilos de matéria seca). Quanto maior esse volume, desde que não interfira na qualidade da pastagem, melhor. “O produtor pode fazer a medição através de uma avaliação baseada em cortes na pastagem. Tem que haver um equilíbrio para o que o produtor quer para o solo e para os animais”, assinalou.

Na verdade, conforme explicou o agrônomo, para que a pastagem possa rebrotar e crescer ela precisa de uma quantidade mínima de folhas para que haja fotossíntese. Então ela não pode ser rapada, porque teria dois prejuízos: um com relação à compactação do solo e, o mais imediato, é que os animais não vão ter o ganho de peso esperado. Por isso, o produtor deve estar atento ao manejo para fazer os animais consumam a pastagem de forma uniforme, mantendo a pastagem mais uniforme possível.