Opinião     



EDITORIAL:

A lição da euforia

ENGENHEIRO AGRÔNOMO JOSÉ AROLDO GALLASSINI, DIRETOR PRESIDENTE DA COAMO

Iniciamos o ano de 2004 com preços elevados, principalmente para a soja. Foi, realmente, um sucesso, em termos de valores, que seguiu até meados do ano. Também tivemos novidades em termos de comercialização, com contratos fixos a US$ 10 e móveis a US$ 9,70, que depois o cooperado fechou até a US$ 18,50 a saca – naturalmente muito pouco atingiu o nível máximo, diante da dificuldade de prever o que aconteceria com o mercado). Os bons preços foram motivados por uma série de fatores, entre eles a estiagem na colheita. Desde 1986 não se verificava essa condição, que culminou com a seca também na Europa e nos Estados Unidos. Isso ajudou a confirmar os preços altos do início do ano.

Analisando as vendas dos cooperados podemos dizer que o grande volume foi negociado a preços que ficaram acima de R$ 40,00. Cerca de 70% das vendas aconteceram nesses volumes, chegando até a R$ 52,50, que foi o nível máximo do mercado. A fixar, ficou cerca de 30% da produção, onde os produtores aguardam um novo aquecimento do mercado.

A queda nos preços da soja iniciou com a atitude da China, que alegando problemas de semente tratada devolveu muitos navios de soja para o Brasil. No entanto, não é preciso fazer muito esforço para saber que diante do alto preço da soja no mercado internacional a saída chinesa foi achar argumentos para cancelar contratos e isso acabou jogando os mercados para baixo. Com a soja a US$ 18,50 começou a inviabilizar as produções de frangos e suínos no mundo inteiro, especialmente na China e na Europa, que já estão buscando alternativas para diminuir o consumo de farelo de soja. Para tudo existe um limite. Quando se cria um ambiente de baixa ninguém segura o mercado. Assim, hoje o mercado volta a atuar em níveis normais, com os preços médios dos últimos 10 anos (entre US$ 10 e US$ 11 dólares a saca).

A lição que fica de tudo isso é que devemos rever a euforia de arrendamentos de terras a volumes entre 40 a 50 sacas por alqueire, que são inviáveis, mas que estavam motivados pelos bons preços da soja no mercado e as altas produtividades da cultura. Com a euforia dos produtores, tudo subiu, e muito. As máquinas e implementos agrícolas foram nas alturas. A demanda tornou-se tão grande que as empresas não conseguiam atender e os preços subiram. Com a queda de preços da bolsa, a situação já está mudando, ou voltando ao normal.

No entanto, ocorre que nós tivemos alta nos preços dos adubos (cerca de 50%) e de herbicidas (de 7% a 30%). E os preços desses produtos sobem rapidamente no mercado e não baixam não mesma velocidade como os da soja, por exemplo. Assim, temos um ano completamente atípico, apesar da boa perspectiva de colher uma boa safra de trigo, diante do favorecimento do clima, a exemplo de 2003, quando houve geada em setembro o que acabou não atrapalhando a safra.

Agora é hora de colocar os pés no chão e fazer uma boa análise do futuro. O melhor negócio é esperar um pouco para ver como que fica esses níveis de preços no mercado, porque estamos vendo o mundo todo aumentando as áreas de plantio de soja (o Brasil aumentará mais de 3 milhões de hectares de soja) e se o consumo mundial reduzir em função de preços, principalmente, poderemos ter novas dificuldades de preços de soja, diante dos excedentes mundiais. Por outro lado, se ocorrer frustrações de safra poderemos voltar a ter bons preços. O que precisamos é colocar o pé no freio e esperar para ver o que vai acontecer, reduzindo custos desnecessários.

INVESTIMENTOS – Possuímos, como todos os cooperados sabem, uma defasagem de armazenagem da ordem de 30 milhões de sacas. Por isso, os cooperados aprovaram, em assembléia realizada dia 21 de julho, R$ 142 milhões em novos investimentos em ampliações e modernizações na infra-estrutura das unidades e a construções de novos entrepostos, no Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, incrementando a nossa capacidade de armazenagem em cerca de 6 milhões de sacas. Isso vai fazer com que reduzimos o déficit de armazenagem, diminuindo também o custo de frete que sempre que tivermos que tirar esses produtos para outros entrepostos ou armazéns de terceiros, justamente quando o frete é o mais caro. Esse custo, somente neste ano, já passa a mais de 20 milhões de reais. Dentro do pacote, também foi aprovada a aquisição de novas áreas para reflorestamento energético.

SAFRA DE VERÃO – A nova safra de verão terá o plantio iniciado a partir de setembro e a Coamo já colocou a disposição dos cooperados todos os insumos necessários. Está tudo organizado e planejado, mais uma vez, para não haver qualquer problema na hora do plantio.

Com relação aos preços, que voltaram aos níveis normais dos últimos 10 anos, é bom que a gente capriche o máximo possível para ganhar em produtividade, para ficarmos na expectativa de vender bem a nossa produção. Se Deus quiser, teremos uma boa safra e bons preços também, já que a agricultura brasileira tem um grande poder de fogo no mercado internacional.


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