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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 374 | Julho de 2008 | Campo Mourão - Paraná

Encontro de Pecuária

Tecnologias para a pecuária

Encontro na Fazenda Experimental Coamo, em Campo Mourão, reúne 700 cooperados em torno de temas ligados a produção de carne a pasto

Apresentar alternativas de suplementação alimentar para período de inverno, bem como demonstrar tecnologias para produção de forrageiras de qualidade, despertando o interesse do pecuarista para a adoção de manejos que possibilitem a otimização da atividade, gerando renda e tranqüilidade para a condução dos negócios. Estes foram os principais objetivos do Encontro de Pecuária 2008, realizado na Fazenda Experimental Coamo nos dias 30 de junho e 1º de julho. Cerca de 700 cooperados e 100 técnicos e pesquisadores participaram do evento, que teve palco em Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná).

Dentro do tripé: manejo alimentar, sanidade e genética, a nutrição se tornou fundamental, nos últimos anos, para a obtenção de bons resultados com a pecuária e foi justamente este um dos temas centrais do encontro.

Temas –  Seis estações foram montadas para que os participantes acompanhassem atentamente os temas: manejo de inverno no sistema de integração agricultura/pecuária; planejamento forrageiro e suplementação alimentar; cercas para pastagens; alternativas de pastagens de inverno e adubação nitrogenada; consórcio de milho safrinha e braquiária ruziziensis; e manejo de plantas invasoras em pastagens.

O agrônomo Joaquim Mariano Costa, responsável pela Fazenda Experimental Coamo e coordena-dor geral do encontro, lembra que o agricultor teve a oportunidade de ver in loco experimentos testados e aprovados, bem como acompanhar palestras importantes, tratando genuinamente de pecuária. “Mostramos a importância de trabalhar a pastagem, tanto de inverno como de verão, da mesma forma que tratamos as lavouras comerciais, adubando o sistema”, comenta, explicando que há nove anos são realizados experimentos de agricultura-pecuária na Fazenda Coamo. “Neste tempo de pesquisas observamos resultados acima da média, com a manutenção dos animais à pasto”, revela.  Para Costa, “é imprescindível que o pecuarista se planeje para o inverno para não faltar comida para o rebanho. Fazer silagem de cana-de-açúcar, milho, ou até mesmo feno, é uma atitude inteligente para garantir comida aos animais durante o ano inteiro”, orienta.

O agrônomo da Coamo lembra que ainda há muito o que crescer, uma vez que existe um potencial muito grande para ser explorado pelos cooperados Coamo com a bovinocultura, seja ela de corte ou de leite. “Estamos buscando esse desenvolvimento e vamos avançar”, prevê Costa.

A integração na medida certa

Resultados do sistema, testado na Fazenda Coamo, foram apresentados aos cooperados no encontro

Os nove anos de pesquisa sobre integração agricultura-pecuária na Fazenda Experimental Coamo foram destacados durante o Encontro de Pecuária. Resumidamente, todos os resultados obtidos neste  período de experimentos, desenvolvidos pela Coamo em parceria a pesquisa oficial, foram apresentados aos participantes do evento técnico.

Nada de compactar o solo – O agrônomo Sérgio José Alves, do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), diz que a maior mística dos produtores já não assusta mais. Ele se refere ao fato de que muitos agricultores temiam pela compactação do solo, quando do pastoreio dos animais durante o inverno, sob as áreas onde, no verão, são implantadas culturas como a soja ou o milho. “De modo geral, aquele medo que o produtor tinha de colocar boi no período de inverno, onde mais tarde entra a cultura de verão, já não é mais tão evidente, pois quem está fazendo o plantio adequado do pasto de inverno, adubando e manejando direito, já está vendo que a produtividade ao invés de diminuir, como todos temiam, está na verdade aumentando”, observa Alves.

Ele lembra que o projeto de Integração Agricultura-Pecuária desenvolvido pela cooperativa em parceira com o Iapar e Universidade Federal do Paraná (UFPR), está se expandindo a cada dia. “Eu viajo bastante pelo Paraná, principalmente, e tenho percebido que muitos produtores já aderiram ao sistema, plantando aveia e azevém adubado, além de adubar também o pasto de verão. É umatecnologia que cresce, óbvio que em ritmo mais lento que a agricultura, mas o fatoé que existe sim um crescimento considerável dentro da Coamo. Penso quejá devemos ter algo entre 150 mil hectares de integração só na região da cooperativa”,prevê opesquisador.

Resultados consistentes – Segundo Alves, os resultados médios obtidos com o experimento são muito bons, principalmente para quem faz direito e utiliza todas as ferramentas de manejo disponíveis. Os resultados da integração agricultura-pecuária são consistentes e motivam a cada dia um número maior de adeptos a tecnologia, que é viável mesmo para quem não abre mão de cultivar milho safrinha e trigo no inverno, já que as partes mais baixas da propriedade, onde o risco de geada é maior, podem ser utilizadas para o plantio de aveia e azevém para o pastejo, que não morre com baixas temperaturas.

Mais forragem com planejamento

A deficiência com as pastagens perenes em certos períodos do ano é um dos problemas enfrentados pelo pecuarista, em razão da baixa produtividade das forragens. Ou pelo menos era. O Encontro de Pecuária deste ano abriu os olhos dos criadores para esta questão, que pode ser resolvida de forma organizada, desde que haja todo um planejamento estratégico.

O veterinário Hérico Alexandre Rossetto, do Detec da Coamo, explica que o produtor deve estar atento para a necessidade de coletar dados de pesagem das forragens, bem como a criar a demanda correta de animais a serem colocados no pasto, para saber quanto será necessário produtor de forragem, de acordo coma a sua carga animal em cada época do ano. “Mostramos para os produtores como eles podem fazer essas coletas na propriedade, alertando que em certas lacunas do ano, muitas vezes, ele tem de buscar alternativas alimentares para poder suprir a demanda dos seus animais. O que queremos é que eles aprendam a fazer um orçamento forrageiro para que não falte comida para o rebanho, não derrubando assim a sua produtividade, seja de carne ou leite”, diz Rossetto.

Produção na ponta do lápis – Equilibrar a disponibilidade de comida ao número de animais da propriedade foi o foco principal abordado na estação, que mostrou ainda, que dependendo da propriedade, tem muita gente deixando de produzir muito mais, exatamente por falta de um planejamento adequado.

Conforme Rossetto, existem alguns itens básicos para um bom planejamento. “O primeiro deles, diz o veterinário, é levantar a necessidade nutricional do rebanho, sabendo o quanto de alimento será necessário produzir por dia para atender a demanda de animais. Isso é feito através de uma escrituração zootécnica, baseado em cálculos precisos. Depois, é fazer a evolução dos animais durante o ano para saber a demanda de forragem que o plantel vai necessitar, mês a mês. A forma de fazer este controle é que o produtor deve ter sempre em planilhada e ao alcance das mãos”, co-menta o veterinário.

Rossetto ressalta que para aderir ao sistema e obter resultados o maior investimento do produtor será uma boa dose de entusiasmo, uma caneta e papel sempre a mão. “Ele tem de se acostumar a anotar tudo e estar com este levantamento sempre atualizado e, é claro, não perder o rebanho de vista, pois o que engorda o boi é o olho do dono”, salienta.

FALA COOPERADO:

Eurico Tadeu Grings, de Nova Santa Rosa (Oeste do Paraná) - “Achei tudo muito interessante. Cada região tem a sua realidade, mas o que estamos vendo aqui é perfeitamente aplicável às nossas propriedades”.
Jaime Dalchiavon, de Amambai (Sul do Mato Grosso do Sul) - “Muito bom. É uma oportunidade de conhecer novas tecnologias. Eu aprendi bastante e com certeza melhorar minhas atividades”.
Antonio Osni Renksenksen, de Pitanga (Centro do Paraná) - “Vale a pena participar, pois se você fica em casa deixa de conhecer as novidades e de aproveitar melhor a propriedade e ganhar o ano todo”.

Do outro lado do arame

Convencionais ou elétricas as cercas são investimentos de grande necessidade para as propriedades que trabalham, também, com a pecuária

A estrutura física da propriedade também conta muito para um bom desenvolvimento da pecuária moderna. É o caso, por exemplo, da qualidade das cercas, que quando são construídas da forma correta garantem maior segurança para o rebanho e tranqüilidade para o criador. O tema foi uma das novidades apresentadas no Encontro de Pecuária deste ano na Fazenda Experimental Coamo. Em parceria com a Gerdau e Walmur, foram demonstradas a maneira certa de construir cercas convencionais e eletrificadas, bem como apresentadas alternativas, como ferra-mentas e outros materiais, para utilização na propriedade.

O veterinário Fábio Adriano Guimarães Pinto, do Detec da Coamo em Guarapuava (Centro-Sul do Paraná), lembra que dentro do sistema de produção da pecuária,  quando se fala e investimentos fixos de grande necessidade, os cochos e cercas entram em primeiro plano, se comprado com outras estruturas fixas da propriedade. “E temos que levar em consideração os dois tipos de cercas utilizadas. As fixas, que servem mais para dividir as propriedades, e as elétricas, que podem ser alocadas ou não, de acordo com a necessidade de cada um”, explica o técnico, esclarecendo que as cercas elétricas vêm ganhando espaço na preferência dos produtores, sobretudo os que utilizam o sistema de integração agricultura/pecuária, pelo fácil manejo dentro da área. “A cerca elétrica é uma ferramenta muito útil, de fácil manuseio, da qual é necessário ter apenas alguns conhecimentos básicos, sem contar o custo-benefício dela, que é bastante vantajoso”, sugere.

Fabio Pinto explica ainda que as cercas convencionais têm efeito de contenção mecânico sobre os animais, diferente das cercas elétricas, que contêm os animais de forma moral. “Depois de condicionado ao uso da cerca elétrica, um simples fio que representa a passagem de energia é o suficiente para conter um animal adulto. É uma tecnologia que vem sendo cada vez mais aplicada dentro do sistema de produção na pecuária brasileira”, destaca.

O segredo é adubar o sistema

Integração pode agregar entre 50% a 60% a mais de rentabilidade à propriedade, garante pesquisador

Adubar a pastagem, seja ela de inverno ou verão, ainda não é prática muito comum entre os produtores rurais. E é justamente essa filosofia de não investir na pastagem, que a integração lavoura-pecuária quer mudar. No Encontro de Pecuária da Coamo, os produtores viram que é possível apostar na pastagem com baixo custo.

O agrônomo Alceu Luiz Asmann, do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), mostrou dados positivos sobre o tema. Conforme ele, a pastagem deve ser manejada como uma cultura normal, assim como a soja, o milho, o trigo e o feijão. “O importante é saber da necessidade de cada espécie, porque se a adubação foi aplicada de maneira correta e em quantidade equilibrada a resposta, certamente, será favorável”, garante.

O objetivo, na opinião do pesquisador, é fazer com que o solo fique adubado o ano todo, sempre beneficiando a cultura sucessora, seja pastagem ou grãos. “Queremos que o produtor ganhe dinheiro o ano todo, não só durante uma safra, mas sim no inverno e verão, na produção de carne e de leite, dando maior estabilidade a sua produção e tendo mais rentabilidade”, comenta.

Segundo o agrônomo, já está comprovado que quem faz integração corretamente, junto com a produção de grãos, está conseguindo agregar de 50% a 60% a mais de rentabilidade e maior estabilidade nos investimentos.

Baixo custo, alto benefício – Asmann observa que muitas vezes o próprio investimento que o produtor vem fazendo na propriedade já é o suficiente para obter bons resultados, bastando apenas fazer uma reorganização do sistema de manejo, como por exemplo, adubar mais no inverno e menos no verão, dependendo de cada caso. “Isso é mudança de atitude. Não quer dizer que o produtor terá de gastar mais para ter mais resultados. Os técnicos da Coamo estão muito bem preparados para repassar essas informações e orientar os produtores, se for necessário”, sugere.

Adubar o sistema – O veterinário Sandro Colaço Vaz, do Detec da Coamo em Engenheiro Beltrão (Norte do Paraná), diz que o foco do trabalho é adubar o sistema e não a cultura isoladamente. “A adubação que é feita no inverno acaba sendo reciclada, sendo aproveitada pelas culturas de verão”, explica.

Conforme o veterinário, essa é uma metodologia ainda nova, mas que vem sendo adotada pelos produtores com muito sucesso e vem se tornando um diferencial, um passo a mais na agropecuária. “Os resultados vêm sendo medidos e tabulados pela Coamo ano a ano, sempre com avanços, o que é muito bom”, comemora Vaz, lembrando que além de produzir mais comida para o gado, e com qualidade, ainda está sendo verificado um incremento na produção de grãos, no verão.

Tem braquiária no meio do milho

Uma das novidades do Encontro de Pecuária deste ano foi a demonstração do plantio de milho consorciado com braquiária ruziziensis, uma espécie de forrageira utilizada para cobertura verde e pastoreio de animais. O agrônomo Rodolfo Monice, da área de fitotecnologia, do IAPAR – Instituto Agronômico do Paraná, explica que esta é uma tecnologia destinada para recuperar solos degradados, principalmente de matéria orgânica, o que ocorre tanto em solos arenosos como argilosos. “Essa tecnologia vai permitir, através do sistema radicular da braquiária, uma grande injeção de carbono à matéria orgânica. O que vai limitar essa tecnologia vai ser o clima. Como o milho, essa espécie de forrageira é sensível ao frio, mas tem uma grande vantagem de agregar ao sistema a possibilidade da produção de carne através do pastejo dos animais, quando a cultura do milho for retirada”, lembra o pesquisador, afirmando que é uma forma de capitalizar mais o produtor, tendo ainda uma melhoria nas condições físicas do solo.

Cultivo – A tecnologia consiste no plantio da braquiária ruziziensis no intervalo da cultura do milho. A forrageira pode ser semeada junto com o cereal ou logo depois, dependendo o objetivo do produtor. A primeira opção é semear a braquiária após a colheita da soja e ter o pasto mais cedo, ou junto com o milho. Desta forma o pasto só estará pronto quando a cultura for colhida. “É uma agricultura ‘com precisão’ e não ‘de precisão’. Então, o papel do técnico é fundamental, pois esse plantio deve ser feito correta-mente e no momento certo”, alerta Monice.

Após a colheita do milho, entre 15 ou 20 dias, os animais já podem ser colocados na área para o pastejo, o que significa o produtor conseguir produzir carne em uma época em que praticamente ninguém tem pasto, além de colher milho. “O ideal, e que nós estamos indicando, é que o produtor opte por alternativas, fazendo parte da área com milho e braquiária consorciados e outra somente com braquiária para ter pastos mais cedo e mais tarde. Quanto mais diversificar, maior a probabilidade de não ter prejuízos”, orienta.

Cuidados – Apesar de ser uma tecnologia eficaz e inovadora, o plantio do milho consorciado com a ruziziensis também é bastante técnico. Sem a orientação adequada ela pode trazer prejuízos para o produtor, em termos de perda de produtividade, ao invés de lucro. “Quanto maior o potencial de produtividade do milho, maior o prejuízo, por isso, é preciso estar consciente de que essa orientação deve ser bem feita e com profissionalismo e a Coamo tem um departamento técnico bem treinado a esse respeito”, sugere Monice.

FALA COOPERADO:

José Maria Campos, de Pinhão (Centro-Sul do Paraná) - “Participo pela segunda vez desse encontro. Tenho tido bons resultados, também com a agricultura, já que antes eu só trabalhava com a pecuária”.
Laurindo Castione, de Abelardo Luz (Extremo-Oeste de Santa Catarina) - “Aprendemos muito em eventos como este. Não importa a distância. Não podemos abrir mão de buscar conhecimentos quando temos essas oportunidades”.
Anselmo Coutinho Machado, de Pitanga (Centro do Paraná) - “É uma oportunidade única de estar em contato com a pesquisa, já que precisamos dela e ela da gente. Estamos atrás de tecnologia e da boa informação”.

Pastagem livre de invasoras

O pasto tem que estar livre do mato para produzir em todo o seu potencial e garantir boa capacidade de suporte ao rebanho

Tão importante quanto controlar o mato em culturas comerciais é tomar a mesma atitude em relação às pastagens. Tratar o pasto como uma cultura comercial é o segredo para o sucesso com a criação. Quem garante é o agrônomo Samuel Premedides, da Dow Agrosciences, que participou do Encontro de Pecuária da Coamo, na Fazenda Experimental. Ele diz que o princípio básico para uma boa pastagem nos dias de hoje é a capacidade de dar suporte ao rebanho. Ou seja, é preciso saber qual a capacidade/animal que a pastagem agüenta, sem perder produtividade.

Premedides explica que com os altos custos de produção, bem como o valor da terra, o criador não pode mais se dar ao luxo de perder produtividade por falta de alimentação. “O pasto tem de estar livre para produzir. Todo seu potencial tem de ser destinado ao rebanho e não à competitividade com o mato, para que possa manter a maior quantidade de animais possível pastejando e produzindo carne”, explica.

Segundo o agrônomo, “a presença de plantas daninhas na pastagem, dependendo do volume, pode prejudicar e muito a produção de carne ou leite. Muitas vezes, o criador não consegue nem mesmo colocar o gado na área pelo excesso de invasoras”, exemplifica, considerando que medidas simples, como a procura de uma assistência técnica especializada, pode resolver até mesmo os casos mais complicados.

Omissão – O principal fator para invasão em alta escala de plantas daninhas na pastagem, de acordo com o técnico, é a própria omissão do produtor. Para Premedides, “é preciso agir desde o início da presença das invasoras, não deixando com que elas comecem a competir com a forrageira e consequentemente com o plantel, chegando ao ponto de não ter como combatê-la”, orienta.

Recuperar ou reformar? – Essa é uma pergunta feita pela maioria dos pecuaristas. Segundo o agrônomo, a decisão deve ser tomada de acordo com a presença da forrageira na área. “Esse é o principal fator a ser analisado. Posso dizer que em 90% dos casos é possível recuperar ao invés de replantar. Tendo o capim, mesmo que já por baixo da invasora, podemos eliminar esse mato com controle, e depois o capim se desenvolve normalmente, expressando todo o seu potencial”, garante Premedides.