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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 385 | Julho de 2009 | Campo Mourão - Paraná

Integração Lavoura / Pecuária

Coprodução rentável e sustentável

Genuinamente paranaense e com foco na qualidade da terra, integração lavoura/pecuária é comparada ao sistema de plantio direto. Tecnologia, que comemora 10 anos de instalação na Fazenda Experimental Coamo, expõe o conceito de equilíbrio da fertilidade: bem nutrido, o solo alimenta a planta, que alimenta o boi. É o ambiente produtivo rural sendo utilizado de forma rentável e sustentável, garantindo estabilidade à produção de grãos, carne e leite.

Todo o conceito que se tem hoje em dia sobre a produção do boi verde (criado a pasto, num esquema intensivo e altamente tecnificado, que favorece a precocidade na terminação dos animais) se encaixa perfeitamente a um projeto que vem revolucionando a produção sustentável no campo. Trata-se da Integração Lavoura/Pecuária, uma tecnologia genuinamente paranaense e que vem sendo comparada ao sistema de plantio direto. O projeto tem como foco a qualidade da terra, numa coprodução rentável e sustentável. Bem nutrido, o solo alimenta a planta, que alimenta o boi. Garantia de estabilidade à produção de grãos, carne e leite.

Idealizada dentro do curso de pós-graduação em Agronomia e Produção Vegetal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), há 14 anos, a linha de pesquisa que difundiu a tecnologia ganhou os campos a partir de um trabalho de validação iniciado há 10 anos pela Fazenda Experimental da Coamo, em Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná). “O que fizemos foi sistematizar a relação solo/planta/animal dentro de uma demanda estabelecida pelos próprios agricultores, que buscavam uma alternativa econômica para o período de inverno”, conta o professor Aníbal de Moraes, da UFPR. “Com apoio do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Syngenta, a pesquisa evoluiu muito nesta década e já é capaz de responder todos os questionamentos dos produtores rurais, principalmente na relação da química, física e biologia do solo, dentro do sistema”, comemora Moraes.

SUSTENTABILIDADE EM CINCO PONTOS – Para o professor Adelino Pelissari, também da UFPR, o projeto está inserido no papel do agricultor do futuro, que é ter a mesa farta de boa comida e boa bebida, e a natureza preservada. “Todo o trabalho está ancorado num amplo conceito de sustentabilidade. É uma forma efetiva de tornar a propriedade rural economicamente viável, ambientalmente sustentável, socialmente justa, culturalmente aceita e eticamente correta”, garante.

SOLO MAIS PRODUTIVO – Integrante do projeto de pesquisa desenvolvido dentro da Fazenda Coamo, o pesquisador Sérgio José Alves, do Iapar, lembra que no início os estudos geraram desconfiança do agricultor. “O maior receio era colocar os bois nas áreas de produção agrícola, porque havia uma preocupação com a compactação do solo, a partir do pisoteio do gado”, explica Alves. No entanto, a pesquisa, segundo ele, quebrou não apenas este, mas outros paradigmas construídos em torno da tecnologia. “O produtor rural que investiu na tecnologia e que consegue manejar bem os talhões da propriedade destinados ao sistema ganhou muito. O solo, nas áreas de coprodução, está mais produtivo”, revela o pesquisador.

Em média, nas últimas cinco safras, a produtividade da soja nas áreas de integração dentro da Fazenda Coamo, tem girado em torno de 10 sacas por alqueire a mais, na comparação com as demais lavouras comerciais. No milho, a média é de 80 sacas por alqueire a mais. E com a produção de bovinos de corte, os ganhos são, em média, de 900 gramas por animal por dia, no caso de machos inteiros e cruzados; 800 gramas por animal por dia, para machos castrados; e 780 gramas por animal por dia, para fêmeas. “Todos os anos é possível fazer duas safras cheias, sem correr os riscos climáticos do inverno. Eu sempre digo que boi não morre no inverno, nem com geadas e nem com granizo”, brinca Alves.

UM PROJETO PARA UM PAÍS – Em algumas regiões do Brasil o sistema ganhou força entre os pecuaristas como alternativa para reforma de pastagens. “O trabalho desenvolvido dentro da estação experimental da Coamo foi pioneiro no país. Foi a primeira vez que se trabalhou o sistema fechado, dando atenção às produções de grãos e carne, de forma intensiva”, revela Sérgio Alves. Neste sentido, os estudos científicos gerados a partir da pesquisa conduzida dentro da Fazenda Coamo servirão de base para o aprimoramento do sistema nas demais regiões brasileiras. “Estamos desenvolvendo, em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MA-PA), um projeto para contemplar sete estados da federação: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Bahia, a partir das informações geradas dentro da unidade demonstrativa da Coamo”, adianta Aníbal de Morais. Hoje, segundo o professor, a produção integrada de sistemas agropecuários é o principal projeto dentro do MAPA. “O ministério está apostando neste segmento, já que a coprodução vem sendo bem aceita no país inteiro”.

Médias de grãos e de carne

Produtividades médias de soja e milho cultivados sobre resíduos de pastagens de inverno, cujos pastoreios foram manejadas em diferentes alturas, nas últimas seis safras, sendo que uma delas foi milho:

ÁREA DE SOJA
pastejada - 69,81 sacas por hectare
não pastejada - 65,07 sacas por hectare

ÁREA DE MILHO
pastejada - 192,35 sacas por hectare
não pastejada - 153,78 sacas por hectare

Produtividade média de carne, somente sobre pastagem:

Machos inteiros e cruzados - 900 gramas/animal/dia
Machos castrados - 800 gramas/animal/dia
Fêmeas - 780 gramas/animal/dia

Fonte: Gerência de Assistência Técnica/Fazenda Experimental Coamo

Entenda o sistema

O projeto de Integração Lavoura/Pecuária Intensiva prevê a utilização de uma parte de pastagem perene de verão para 3,5 a quatro partes de pastagem anual de inverno. O pasto de verão deve ser implantado com correção do solo (fosfatagem, potassagem e calagem, se necessário). É preciso, também, aplicar adubação nitrogenada na pastagem perene de verão, além de subdividir a área em piquetes para facilitar o manejo correto dos animais na área, respeitando o índice de área foliar (altura da planta) dentro dos piquetes.

A área que será destinada ao pastoreio de inverno deve receber, em plantio direto, o cultivo de aveia preta em consórcio com azevém. Além da utilização da quantidade correta das sementes, o produtor também deve observar adubação correta de NPK e de nitrogênio. E, assim como no pasto perene, realizar o manejo de altura da pastagem dentro dos piquetes, como forma de potencializar o máximo de aproveitamento da forrageira pelos animais. Por fim, utilizar bovinos de qualidade genética adequada para alta produção de carne ou de leite.

 

 

Do “feijão com arroz” ao prato principal

A instalação da unidade demonstrativa de Integração Lavoura/Pecuária dentro da Fazenda da Coamo aconteceu no dia 22 de fevereiro de 1999. Na época, ocupou três hectares de área. Os três primeiros anos foram dedicados à validação do “feijão com arroz” da tecnologia. “Neste período, buscamos fixar alguns parâmetros do trabalho, como a quantidade de animais por área e o tempo de pastoreio em cada piquete, no verão e no inverno”, lembra Joaquim Mariano Costa, responsável pela estação experimental da cooperativa. “A partir daí já verificamos que o sistema revolucionaria a produção nas duas atividades. Os primeiros resultados extrapolaram o que estávamos esperando. E, assim, começamos a fomentar a implantação em propriedades de cooperados”, conta Costa.

AFINAMENTO – A partir daí, a área de pesquisa foi ampliada para 12 hectares e o foco passou a ser dado para o afinamento dos parâmetros e ao aprofundamento de outros dados no sistema, como o uso de bois castrados ou não; machos ou fêmeas; altura de pastoreio e rendimento da soja e do milho no sistema. “Para a nossa surpresa, contrariando todas as expectativas iniciais – que o pisoteio dos bois poderia compactar o solo e fazer render menos as lavouras –, em todos os anos a produtividade de soja e milho foi superior, quando comparada com as demais áreas comerciais da fazenda”, destaca Costa. “O porquê disso ainda demanda mais tempo de pesquisa. O que se sabe é que a urina as fezes do boi interfere na parte biológica do solo: mudam o pH e beneficiam alguns tipos de microorganismos que interagem para a maior disponibilidade de fósforo e potássio e fornecimento de nitrogênio. Esta incerteza acabou gerando novas interrogações na pesquisa. E esta será a terceira etapa do projeto”, esclarece o agrônomo.

25% A MAIS, NO MÍNIMO – Um levantamento da Coamo revela que o rendimento mínimo de uma propriedade rural, no primeiro ano após a implantação do sistema, pode chegar a 25% a mais, mesmo em situações onde o agricultor tem que investir na composição da estrutura para abrigar os bovinos. “É lucro certo, considerando, sobretudo, a sustentabilidade do sistema”, comemora Costa, enfatizando que alcançar este incremento de renda somente com a produção agrícola é praticamente impossível. “Uma nova tecnologia para a soja, por exemplo, pode garantir um aumento de produtividade de um a dois sacos, dependendo do caso”, afirma.

O agrônomo da Coamo aproveita para agradecer o apoio recebido da UFPR, Syngenta e Iapar na condução do trabalho de pesquisa. “Esta parceria foi fundamental para a geração dos resultados com a integração aqui dentro da fazenda e nas propriedades dos nossos cooperados. Iniciativas como esta são responsáveis pela construção de um futuro melhor para todos nós”, valoriza.

RÓTULO SOCIAL – Para Joaquim Costa, a sustentabilidade serve de rótulo para o sistema. “Os bois ganham peso somente a pasto e recebem apenas a mineralização no cocho. É o boi mais verde que existe”, constata. O sistema, na avaliação de Costa, permite retirar o máximo das propriedades do solo sem declinar os aspectos físicos, químicos e biológicos. “Não existe, hoje, nada melhor em termos de tecnologia. É estabilizar a renda e manter o ambiente produtivo rural”.

Uma grande revolução no pasto

Áreas comerciais sustentam lotações de 22 bovinos por alqueire. Na região da Coamo, mais de 200 mil animais estão alojados no sistema

Os resultados gerados pela pesquisa com o sistema de Integração Lavoura/Pecuária foram apresentados aos associados da Coamo, durante os últimos 10 anos, no Encontro de Cooperados, realizado anualmente pela Gerência de Assistência Técnica da cooperativa. E os dados da estação experimental também foram comprovados no campo, principalmente por meio do incremento produtivo na área de bovinocultura de corte e de leite. Dados da cooperativa dão conta de que hoje são 1.282 associados que adotaram e mantêm o sistema dentro da propriedade, na área de atuação da Coamo. Este volume corresponde a 6% do quadro social da cooperativa. Do total de produtores envolvidos com o projeto, 615 são produtores de leite e 667 são pecuaristas de corte. E nas áreas destinadas à integração estão alojados 203.400 bovinos.

MAIS ANIMAIS POR ÁREA – Segundo o veterinário Hérico Alexandre Rossetto, do Detec da Coamo em Campo Mourão, “a cada ano que se passou, nesta última década, percebemos que os cooperados intensificaram a tecnologia de produção. E, hoje, observamos que as pastagens perenes instaladas nas propriedades dos associados apresentam lotações de 22 bovinos por alqueire, número muito expressivo quando consideramos que a média de lotação do Estado do Paraná é de 3,6 bovinos por alqueire”. Para Rossetto, em relação ao desenvolvimento do sistema, a meta da Coamo é melhorar ainda mais a produtividade das propriedades, fomentando o uso correto da tecnologia. “Comprovamos, acima de tudo, que os cooperados que seguem a tecnologia preconizada apresentam resultados mais estáveis no verão e no inverno, na lavoura e na pecuária. Sendo assim, o sistema, antes pensado apenas como uma alternativa de produção econômica para o período de inverno, hoje se consolida em uma das mais importantes tecnologias rentáveis e sustentáveis para o campo”, considera Rossetto.

Números do sistema na Coamo

203.400 cabeças de bovinos alojados no sistema
20% do total de animais da área de ação da cooperativa
1.282 associados adotaram e mantêm o sistema na propriedade
48% são pecuaristas de leite e 52% são pecuaristas de corte
7,6% dos produtores de soja participam do sistema
6% dos cooperados estão integrados à tecnologia
121.000 ha de pastagem de verão e 117.000 ha de inverno
Lotação do pasto é 600% maior dentro do sistema
Nas áreas de integração a média é de 22 bovinos por alqueire

Pioneirismo

O cooperado Celso Morofusi, de Mamborê, foi pioneiro na implantação da tecnologia. Ele percebeu a viabilidade do sistema depois que ingressou em uma pós-graduação em adubação de pastagens, em 1994. “Comecei aplicando as informações que a literatura trazia sobre o assunto. E como os números da pecuária no Brasil eram baixos, fiquei confuso no início, pois, ao colocar os animais na pastagem adubada e solos corrigidos o resultado foi surpreendente: algo em torno de dois mil por cento a mais”, assinala Morofusi.

A partir daí o agricultor passou a investir em novas áreas, buscando ampliar os conhecimentos e adequar o projeto para a realidade da sua propriedade, inclusive com orientação do professor Aníbal de Moraes, da UFPR. “Foi a grande alavanca dos negócios aqui da fazenda, já que sempre considerei a agricultura uma atividade de alto risco, onde o investimento era grande para um valor agregado pequeno. Justamente o contrário do que é a integração”, compara.

SAFRA DE BOIS – Na opinião do cooperado, o sistema estabiliza a produtividade das lavouras comerciais de verão e, principalmente, potencializa a produção de carne, mantendo os animais somente a pasto. “O futuro do sistema pode ser comparado a um grande horizonte. Novos mercados abrem a cada dia para esta safra de bois. Quem produz este tipo de carne sabe que a demanda é sempre maior que a oferta. Isto, sem dúvida, dará uma grande contribuição para o desenvolvimento regional”, avalia.

Cooperados comemoram

Sérgio Panceri, de Campo Mourão; Breno Bach, de Nova Santa Rosa; e as irmãs Dulcinéia e Judisséia Boiko, de Roncador, valorizam experiências no projeto

Há oito anos o cooperado Sérgio Panceri, de Campo Mourão, no Centro-Oeste paranaense, faz parte do projeto de Integração Lavoura/Pecuária. Ele conta que a idéia inicial foi diversificar a propriedade e otimizar a mão-de-obra. Na fazenda, o produtor destinou uma área de 15 alqueires para o pasto perene, cultivado com o capim Brachiária Brizanta, e dividido em 11 piquetes. Panceri mantém, nesta área, 300 animais para corte, em pastoreio intensivo. No inverno, os bovinos pastejam uma área de 60 alqueires, implantada com o consórcio de aveia preta e azevém. “Prefiro os bezerros cruzados, mas nem sempre é possível conseguir bons animais. No entanto, os lotes sempre entram no verão e são vendidos no final do inverno”, conta.

O cooperado compara a rentabilidade do gado com os resultados da safrinha e do trigo. “Os bois são mais estáveis. Não tem problema com geada ou seca”, comemora, afirmando que ainda há outra vantagem: “a presença dos animais ajuda a maximizar o potencial do fertilizante utilizado na área, o que aumenta ainda mais os resultados da propriedade”. No caso de Panceri, a satisfação é dobrada, já que a pecuária sempre fez parte da propriedade.

LEITE COMO CARRO-CHEFE – A bovinocultura leiteira faz parte da vida do cooperado Breno Bach, de Nova Santa Rosa, no Oeste paranaense. Há 10 anos ele resolveu investir pesado na atividade e, há sete, implantou o sistema de Integração Lavoura/Pecuária na propriedade. “O objetivo foi aumentar a renda, já que a propriedade é pequena”, conta Bach, que começou com 10 vacas. “Hoje são 20 vacas aqui no sítio, sendo que 18 estão em lactação. A média de produção é de 25 litros por animal por dia, rendimento possível a partir da qualidade no trato com os animais”, confessa.

Com boa genética – os animais são holandeses puros –, o diferencial no sítio dos Bach é o manejo alimentar. O pasto perene de verão, cultivado com a grama Tifton 85, ocupa um alqueire da propriedade e recebe 600 quilos de adubo a cada 40 dias. Os animais não pastoreiam a área. No esquema adotado por Bach, a grama é cortada na altura ideal de pastejo e fornecida aos animais em forma de feno. As vacas também recebem, no cocho, silagem de milho em planta inteira. “No inverno, os animais ficam nos piquetes com o consórcio de aveia preta e azevém. E ainda sobra uma área para o plantio de milho safrinha”, salienta.

O leite retirado no sítio dos Bach é do tipo B, devido a qualidade do sistema de produção. Por ano, o volume produzido na propriedade é de 146 mil litros de leite. O lucro do produtor chega a 40%. Com isso, ele mantém a estrutura do sítio e livra todo o resultado da lavoura. “Hoje, o leite é o carro-chefe aqui da propriedade. E esta intensificação na produção só foi possível graças ao sistema de integração, que favoreceu as nossas duas atividades”, destaca Breno Bach, informando que o projeto da família é ampliar o plantel para 30 vacas em lactação e produzir uma média de 600 litros de leite por dia.

IRMÃS ESTREANTES – Dulcinéia Boiko e Judisséia Boiko de Andrade, cooperadas em Roncador, no Centro do Paraná, estão iniciando no projeto de Integração Lavoura/Pecuária. Elas conheceram o sistema há dois anos, através de visitas a outras propriedades rurais onde o sistema já foi implantado, e resolveram diversificar as atividades do sítio. “Investimos na preparação da estrutura e já estamos com o primeiro lote de animais – 70 vacas –, na área de aveia, há cerca de 30 dias. A expectativa é a melhor possível”, revela Dulcinéia.

No inverno, as irmãs destinaram 15 alqueires para o pastoreio do gado, divididos em 12 piquetes. No verão, os animais serão mantidos em uma área de três alqueires cultivada com Estrela Africana e dividida em 10 piquetes. “Aos poucos vamos ampliar o sistema. A meta é chegar a 300 animais, dependendo dos resultados que conseguirmos alcançar”, pondera a cooperada.

A escolha pela integração não foi por acaso. As irmãs Boiko analisaram outras atividades, “porém nenhuma delas, teoricamente, tem maior potencial que a Integração Lavoura/Pecuária, já que, por ser uma região de inverno muito rigoroso, o milho safrinha não vai bem aqui para nós”, afirmam. Elas garantem que todos os investimentos feitos na propriedade foram pensados para a aplicação da mais alta tecnologia dentro do projeto. “A nossa meta é tornar a propriedade uma referência para a região, em produção sustentável”, adiantam.

Flexibilidade é marca registrada

Sistema se adapta facilmente ao esquema de trabalho das propriedades rurais e não distingue a escolha por bovinos de corte ou leite

No campo é possível perceber a flexibilidade do projeto de Integração Lavoura/Pecuária. O sistema de adapta perfeitamente à realidade de cada propriedade, seja ela grande, média ou pequena. Também não há distinção entre a escolha por bovinos de corte ou leite. O que muda mesmo, em algumas regiões, é a forma de condução do sistema, já que a base do trabalho é manejar as características físicas, químicas e biológicas de cada tipo de solo.

NO ARENITO – Para o caso de solos mais frágeis, como é o caso do arenito, a opção dos produtores rurais é trabalhar com a braquiária ruzizienses para o pastoreio de inverno, no lugar do consórcio de aveia e azevém. A forrageira aumenta o volume de palha sobre o solo, o que favorece o solo arenoso em regiões com temperatura mais alta. Agricultores do Mato Grosso do Sul, por exemplo, já utilizam a ruzizienses com bons resultados.

Na Fazenda Experimental Coamo a tecnologia vem sendo testada há pelo menos três anos. A forrageira é plantada junto com a cultura do milho safrinha, de forma intercalada. “Depois da colheita do milho, ela se espalha na área e pode ser pastejada pelo gado. Em seguida, antes do plantio de verão, é dessecada. Assim, junto com a palhada do milho, a ruzizienses forma uma grande camada de massa seca que cobre o solo por mais tempo, dando sustentação ao sistema de plantio direto”, esclarece o agrônono Joaquim Costa, da Fazenda Experimental Coamo.

INJEÇÃO DE CARBONO - A pesquisa indica que a tecnologia do plantio de milho consorciado com braquiária ruziziensis injeta carbono à matéria orgânica. “A injeção se dá através do sistema radicular da forrageira”, explica o pesquisador Sérgio Alves, do Iapar. “O que pode limitar o uso da ruzizienses é o clima. A exemplo do milho, ela é sensível ao frio”, orienta Alves.

Nova estratégia no açougue

Empresária de Campo Mourão garante que na sua loja só entra carne de bovinos criados na integração

Há oito anos a empresária Leila Maria Tonello da Luz, de Campo Mourão, resolveu mudar a estratégia no atendimento aos clientes do açougue no supermercado da família. Ela conta que passou a dar mais atenção à qualidade da carne, de olho no novo mercado que estava se abrindo na região. “Depois que passamos a oferecer a carne de bois selecionados, criados no sistema de integração e, por consequência, mais precoces, fidelizamos ainda mais a nossa clientela”, revela. Segundo a empresária, a aceitação dos consumidores foi tão grande que ela teve que ampliar em mais de 100% o volume de abate dos animais. “É claro que isto aconteceu gradualmente, mas neste período passamos de 40 para 100 animais abatidos por semana”, comemora.

A própria Leila é quem compra os animais. Hoje ela já possui uma rede de propriedades que fornecem os bovinos conforme a necessidade das suas três lojas. E como cooperada da Coamo, ela também começou a produzir bovinos no sistema de Integração Lavoura/Pecuária, e o primeiro lote de 20 animais já foi para o abate. “Faço questão de acompanhar todo o processo, até mesmo o abate, junto com o nosso veterinário. Tudo para dar mais segurança aos clientes”, garante.

Apesar do maior custo no açougue, quando comprado com a carne comum, a empresaria garante que o consumidor prefere a qualidade. “Este tipo de carne chega a custar entre 10 a 15% a mais. Parte deste valor é repassado ao preço final da carne, mas o consumidor não reclama. Ele prefere pagar um pouco mais para poder consumir um produto de maior qualidade”, afirma.

OLHO NA COMPRA – A dona de casa Terezinha Queiroz, de Campo Mourão, ficou surpresa ao saber da origem da carne que passou a comprar depois que sentiu o sabor diferente do produto na sua mesa. “Não sabia que a produção era feita desta maneira, com preocupação econômica e com o meio ambiente. Mas percebi logo que se tratava de um produto diferenciado. Então, não tive dúvidas em mudar para melhor. E hoje não abro mão desta qualidade quando vou ao supermercado”, enfatiza.

Cliente exigente, Terezinha confere bem o produto antes de fechar a compra da carne. “Saber identificar o produto é fundamental”, orienta. “O diferencial está na cor e na textura da carne. Não tem como errar”, completa.

Carne de qualidade

O consumo da carne de qualidade está ganhando terreno na região de Campo Mourão graças a iniciativas como a implementação do sistema de Integração Lavoura/Pecuária. Os criadores passaram a investir mais na produção, de olho neste novo mercado. O produtor Celso Morofusi, apresenta um relatório de um grupo de criadores. Os números dão conta de que cerca de 80% da carne consumida hoje na região de Campo Mourão é proveniente de bois de qualidade. Os animais abatidos na região, segundo ele, também atende outros mercados no Estado do Paraná. O levantamento indica que 1.500 animais criados dentro do sistema são abatidos por mês na região. “Ganhamos mercado porque por trás da nossa criação há uma grande preocupação de sustentabilidade. Transparência para quem produz e consume. Tudo é estratégicamente controlado para dar segurança a todos os elos da cadeia produtiva”, explica Morofusi.

Linha de estímulo

Criado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Programa de Estímulo à Produção Agropecuária Sustentável (Produsa) disponibiliza uma linha de crédito para disseminar o conceito de agronegócio responsável, agregando a eficiência, as boas práticas de produção, responsabilidade social e preservação ambiental. Entre os objetivos do programa está o estímulo a recuperação de áreas degradadas, como pastagens; a regularização de áreas de reserva legal e preservação permanente; o uso racional das áreas agrícolas e de pastagens e a implementação de sistemas produtivos sustentáveis.

Os beneficiários do programa são produtores rurais e cooperativas e os recursos podem ser contratados nas instituições financeiras credenciadas. A taxa de juros é de 5,75% ao ano, quando se tratar de projeto destinado a áreas degradadas, e 6,75% ao ano para os demais casos. O prazo total, para projetos de sistemas produtivos de integração agricultura/pecuária é de até 144 meses, incluída a carência de até 36 meses. E no caso do limite de valor dos financiamentos, pode ser de até R$ 400 mil para a recuperação de áreas degradadas e até R$ 300 mil para os demais casos.