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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 351 | Junho de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Congresso Brasileiro de Soja

Os desafios da soja, dentro e fora da porteira

Em Londrina, Congresso Brasileiro de Soja debate os desafios e as oportunidades do agronegócio brasileiro diante da globalização do mercado da oleaginosa

Londrina, no Norte do Paraná, foi a Capital Nacional da Soja de 6 a 8 de junho. A cidade recebeu mais de 1,2 mil pessoas, entre produtores rurais, profissionais da assistência técnica, consultores, pesquisadores e outros profissionais que atuam diretamente no campo para a 4ª edição do Congresso Brasileiro da Soja (CBSoja), o maior evento do complexo soja no país, promovido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Os participantes vieram de todas as regiões produtoras do grão no Brasil e até de países vizinhos como Bolívia, Venezuela, Argentina e Paraguai.

O objetivo do evento foi discutir os grandes desafios e as oportunidades do Brasil diante da globalização. Foram convidados 27 especialistas em áreas que englobam desde as tecnologias de produção “dentro da porteira”, à logística e comercialização da safra “fora da porteira”.

Temas como o desenvolvimento de tecnologias para o controle da ferrugem da soja; os novos caminhos da indústria de defensivos na era da biotecnologia; os impactos da soja geneticamente modificada tolerante a herbicidas; o manejo sustentável da produção de  soja na região amazônica e como as mudanças climáticas globais podem afetar o processo de produção do grão nos próximos anos, também foram discutidos no congresso, realizado no Centro de Eventos de Londrina.

Ainda teve destaque durante o evento o processamento e a utilização da soja no mercado nacional e internacional. “Além disso, mostramos as oportunidades e as perspectivas para o aproveitamento da soja para usos não alimentares, como produção de biodiesel”, destaca Amélio Dall´Agnol, presidente da Comissão Organizadora do congresso. Ele lembra que as distâncias dos centros de produção e de comercialização da soja no País, aliada à predominância do transporte rodoviário, muito mais caro que o ferroviário e hidroviário, e a forma como esses fatores contribuem para incrementar os custos de produção e a perda de competitividade da soja brasileira no mercado internacional também foram debatidos durante o evento.

“O produtor é muito bom dentro da porteira. Ele utiliza adequadamente as tecnologias de produção, mas na compra dos insumos, na compra das máquinas, e na venda do produto, ele ainda falha e é onde ele deve aprender mais”, avalia Dall´Agnol.

Setor em desenvolvimento – O agronegócio brasileiro apresentou um crescimento significativo nos últimos 25 anos, em função das tecnologias geradas pela Embrapa e pelas demais organizações de pesquisa agro-pecuária. Nesse período, a produtividade geral da agricultura brasileira, em especial de grãos, cresceu em torno de 100%, fruto direto do uso de mais e melhores tecnologias. “No entanto, na mesma medida, crescem também os desafios do nosso ‘homem do campo’ diante da globalização dos mercados”, argumenta o presidente da Embrapa, Silvio Crestana.

Para o presidente da Embrapa, o CBSoja se consolida como principal palco de discussões sobre o agronegócio da soja, uma vez que a cultura responde por cerca de 12% das exportações brasileiras, gera benefícios indiretos de U$ 50 bilhões para o país e que vive sua mais grave crise. “Foi um momento para contextualizar a dimensão do agronegócio da soja brasileiro. A riqueza do debate e a qualidade dos palestrantes permitiu traçar um panorama completo e rico em diversidade de abordagens. A lição maior é que não é momento de desanimar, há caminhos, rumos a serem tomados”, salienta Crestana.

A crise e o mercado exportador

Para analisar o cenário atual do agronegócio brasileiro, o CBSoja trouxe o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e ex-ministro da Agricultura, Marcus Vinicius Pratini de Moares. Ele apresentou a palestra “Visão Global do mercado de soja: oportunidades e ameaças para o Brasil”.

Pratini de Moraes lembrou que logística e marketing são alguns dos grandes desafios que os produtores rurais brasileiros devem vencer nestes tempos de crise. Ele elogiou a competência do produtor rural brasileiro e disse que o Brasil é a última grande fronteira agrícola do mundo e essa condição deve ser aproveitada. “O mundo precisa do Brasil para comer e temos um horizonte fantástico”, afirmou, em relação às potencialidades que o país apresenta.

O ex-ministro vê vantagens para o produtor brasileiro em relação aos de outros países, já que ainda existem, para a produção agrícola, consideráveis 90 milhões de hectares (que podem aumentar para cerca de 200 milhões, com o aproveitamento de áreas onde atualmente existem apenas pastagens), além de água e tecnologia gerada por empresas como a Embrapa. “No entanto – complementa, é necessário que o governo federal também contribua. A política cambial e o sistema tributário atualmente adotados são problemas que devem ser resolvidos”.

Pratini de Moraes lembrou a importância do sucesso do agronegócio para o PIB
brasileiro e alertou: “se não houver hoje solução para os problemas daqui a dois anos teremos déficit na balança comercial”.

Uma saída que pode diminuir a crise é a aposta, que já está sendo feita, nas exportações para os países em desenvolvimento. Atualmente, o crescimento das exportações do agronegócio brasileiro para os países desenvolvidos é de 10% ao ano e aumenta para 23% quando se negocia com países emergentes como a China.

Coamo marca presença no CBSoja

A oportunidade de participar do CBSoja, foi muito valorizada pelos agrônomos da Coamo Nei Leocádio Cesconetto, gerente de Assistência Técnica, e Joaquim Mariano Costa, responsável pela Estação Experimental da co-operativa. “O evento abordou a cultura da soja em todas as suas fases, na cadeia da produção, com temas de grande reflexão para a pesquisa, assistência técnica e produtor rural”, desatacam.

Trabalhos – O congresso também dedicou um espaço para a apresentação de trabalhos de vários segmentos da ciência agronômica. Entre os painéis que estiveram à mostra, dois eram de co-autoria, entre a Embrapa-Soja e a Coamo: a exploração da agricultura em solos arenosos, expressando resultados de experimentos realizados na região do Arenito Caiuá, em Moreira Sales; e a rotação de culturas e química de solo, com enfoque para a melhoria da produtividade das lavouras de verão, em São Domingos, em Santa Catarina.

“Só temos a agradecer pela oportunidade da participação no congresso. A Coamo e a Embrapa são parceiras há mais de três décadas e, juntos, já desenvolvemos mais de uma centena de trabalhos em benefício do nosso quadro social”, conclui o gerente Técnico da Coamo.

O futuro dos transgênicos

“Existe no país uma resistência política e ideológica à adoção de novas tecnologias”. Esta é a opinião do diretor-executivo da Cooperativa Central de Pesquisa (Coodetec), Ivo Marcos Carraro, durante sua palestra no Painel que discutiu a soja geneticamente modificada tolerante a herbicidas, que aconteceu durante o 4º Congresso Brasileiro de Soja. “Esta oposição pode representar um atraso científico em relação a outros países”, alerta.

Outro grande estrago provocado pela demora na liberação de pesquisas científicas está na pirataria, que está levando a indústria de sementes do país à falência. Carraro lembra que a proibição do plantio de soja transgênica levou o produtor brasileiro, principalmente no Rio Grande do Sul, a contrabandear sementes da Argentina.

A Coodetec apresentou uma projeção para a próxima safra de soja no Brasil: 60% da lavoura deve ser constituída por sementes transgênicas. “Por isso é preciso olhar para o futuro e perceber que o atraso na adoção de novas tecnologias leva à ilegalidade, que por sua vez reduz os investimentos em pesquisas e, conseqüentemente, provoca a diminuição da competitividade do Brasil no mercado internacional”, salienta Carraro.

Soja tolerante à seca

A Embrapa Soja e o Jircas (instituto de pesquisa do governo japonês) anunciaram durante o CBSoja a obtenção de uma soja geneticamente modificada para maior tolerância à seca. A nova planta recebeu um gene chamado Dreb, extraído da planta Arabi-dopsis thaliana, a primeira planta que teve seu genoma seqüenciado. O gene codifica uma proteína que aciona os genes de defesa das estruturas celulares da planta e ocorre naturalmente em todos os seres vivos.

Para chegar a patente do gene Dreb, o Jircas dedicou dez anos de pesquisa, investindo aproximadamente  U$ 1 milhão/ano. “Essa é uma tecnologia estratégica para o país, pois junto de outras tecnologias, como o manejo do solo e o plantio direto, poderá amenizar as perdas que ocorrem quando há estiagem. A Embrapa pretende fazer os primeiros testes de campo em 2007, assim que obter a autorização da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança)”, afirma Alexandre Nepomuceno, pesquisador da Embrapa Soja e coordenador do projeto.

“Desde 2003, estamos trabalhando nesse projeto para inserir o gene Dreb em plantas de soja. Os primeiros resultados são animadores e demonstram o grande potencial para uso em variedades comerciais visando redução de perdas devido à seca. Para isso, usamos um técnica brasileira de transformação de plantas, desenvolvida e patenteada pela  Embrapa”, explica Nepomuceno, informando que os testes de campo com a soja Dreb devem durar cerca de 2 anos e que paralelamente serão iniciados os estudos de biossegurança ambiental, humana  e animal.

A região Sul do Brasil, que responde por cerca de 40% da produção nacional, é a que mais sofre com perdas por seca. Considerando as últimas três safras, os prejuízos diretos causados por situações de seca somam mais de U$ 4,5 bilhões. Somente no Rio Grande do Sul, em 2003/04, o ano mais crítico dos últimos três, a seca reduziu em 70% a produção de soja.

Ferrugem

Um prejuízo acumulado de mais de U$ 7,7 bilhões nas últimas cinco safras de soja no Brasil. O número foi apresentado pelo pesquisador da Embrapa Soja José Tadashi Yorinori durante o CBSoja. Apenas na última safra, de acordo com ele, foram cerca de U$ 2,6 bilhões de perda.

Para diminuir os prejuízos, Yorinori acredita que é fundamental treinar e capacitar os produtores, principalmente na fase inicial da ferrugem. Além de manter os níveis adequados de adubação e de equilíbrio nutricional do solo, outra sugestão do pesquisador é sempre estar informado sobre os locais em que a doença se manifestou.

O programa de melhoramento da Embrapa Soja está desenvolvendo cultivares com resistência à ferrugem.

O aquecimento global pode afetar produção futura

O que aconteceria com a produção agrícola se as projeções de elevação de temperatura – fruto do aquecimento global, se confirmarem ao longo dos próximos anos? Para o especialista Eduardo Delgado Assad, chefe da Embrapa Informática Agropecuária, localizada em Campinas (SP), as atuais práticas agrícolas brasileiras têm que ser repensadas. E existem soluções tecnológicas para isso. Os programas de melhoramento genético, por exemplo, não devem mais se ater apenas a questões como resistência a doenças e produtividade. As mudanças climáticas que vêm ocorrendo, muitas causadas pelas atividades humanas, também devem ser levadas em consideração.

Agrometeorologista, Assad citou que, conforme o cenário apresentado pelos estudiosos da área, o aumento da temperatura na Terra nos próximos 100 anos variará entre 1,3º C e 5,8º C. Ele prefere acreditar em um número próximo a 3º C no período, mas salienta que o aumento pode ser maior. E o grande efeito dessa alteração é o crescimento na intensidade das chuvas, que vem sendo verificado nos últimos anos.