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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 351 | Junho de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Opini„o

Editorial:

Vender a produção pelo custo

Engenheiro agrônomo José Aroldo Gallassini, idealizador e diretor-presidente da Coamo Agroindustrial Cooperativa

A estiagem tem sido um grande problema para a agricultura brasileira nas três últimas safras e vem sendo responsável por relevantes prejuízos aos produtores. Historicamente, o período de março a setembro é de clima seco, mas com  incidência de chuvas que permitem o plantio das culturas de inverno e o trabalho com pastagens.

O que está ocorrendo neste ano é anormal, bem diferente do período de 1986 a 2004 onde não se verificou estiagem tão intensa como a que está sendo registrada atualmente.

O clima mudou, porém o que os produtores esperam é que seja  restabelecida a normalidade o mais breve possível visando a implantação do plantio e o desenvolvimento satisfatório das lavouras.

A seca é seguramente a única e principal frustração que faz com que os agricultores percam toda a sua produção, ao contrário do que geralmente acontece com as outras intempéries como geada, chuva de pedra e chuva na colheita, que provocam perdas parciais. Desta forma, o setor tem a necessidade de um seguro rural que proteja os produtores deste grave problema. Mas, em não havendo seguro e nem subsídio, o governo tem que olhar pelos produtores e apóia-los com medidas que resolvam seus problemas.

Analisando o cenário atual da nossa agricultura, percebemos que mesmo diante de todas as dificuldades, quem está em melhor situação econômico-financeira são aqueles produtores que se capitalizaram e não têm dívidas motivadas por compra ou arrendamento de terras, financiamentos de máquinas, entre outros fatores. Certamente, estão em melhor posição aqueles produtores que fizeram seus negócios com cautela e análise criteriosa, ou seja, no momento certo, de acordo com a sua realidade econômico-financeira.

Desta maneira, estão na vanguarda da agricultura brasileira aqueles produtores que promovem uma administração voltada para a gestão e o controle dos seus recursos. O cenário atual apresenta exemplos de toda ordem. Vai desde produtores que possuem áreas pequenas e vão muito bem, com gestão empresarial, diversificação e incremento de renda, até produtores que mesmo com áreas maiores e grandes volumes, estão com dívidas, arrendamentos e principalmente, com seus custos muito altos. Felizmente verificamos também que muitos produtores estão administrando seus negócios com eficiência, independente-mente do tamanho da área ou da produção.

Vivemos uma nova realidade na agricultura brasileira. É tempo de começar do zero novamente e cada produtor verificar e analisar a sua situação, visualizando o futuro para não cometer os mesmos erros de anos anteriores quando num ano comercializou a soja com altos preços e promoveu grandes investimentos, e já no ano seguinte foi surpreendido com baixos preços da commodditie.

Neste momento é importante que os produtores analisem e reforcem a idéia da necessidade de vender sua safra em função dos seus custos de produção. Entendemos que não se deve deixar divida para trás se houver possibilidade de se conseguir uma boa rentabilidade com a venda do produto nesse ou naquele momento.

O cenário hoje é outro e deve-mos voltar aos períodos que antecederam aos altos preços na agricultura. É tempo de reorganização na atividade, fazer somente o necessário e vender em razão dos custos, para então conseguir uma boa média na comercialização da produção e caminhar para uma agricultura consolidada.

Desta forma, agindo assim, acontecerá uma grande mudança na agricultura, ou seja, deixando de haver especuladores de mercado para venda da produção em função da necessidade. A especulação funciona como se fosse uma loteria, com remotas chances de acertos. O agricultor não deve jogar com o seu produto, mas sim planejar de forma que tenha uma boa média de preços ao longo do ano/safra, já que ninguém tem bola de cristal para saber quando e quanto o produto vai subir ou até cair de preço.

No atendimento as reivindicações da classe produtora o governo lançou este mês o plano agrícola com medidas para o saneamento dos problemas acumulados nos últimos anos. O volume de recursos do pacote agrícola é de cerca de R$ 60 bilhões, mas o que não se sabe ao certo é quanto desse montante irá diretamente para à agricultura. O setor necessita de dinheiro novo para atender a grande maioria dos produtores e em isto acontecendo, as cooperativas e empresas não teriam que arcar com os ônus dos custeios da produção.

A orientação da Coamo é para que os associados financiem suas lavouras nos bancos, no maior volume possível, para estejam protegidos em caso de uma possível frustração de safra. Por sua vez, a Coamo, que atendeu cerca de 2 mil associados em 2005 com o Fat Giro Rural, nova-mente está disponibilizando esta modalidade em benefício dos seu quadro social, com prazo de até 5 anos para pagamento.

É importante ressaltar que ‘cada caso é um caso’. Assim, cada produtor deve analisar sua realidade e verificar em quais medidas será beneficiado para resolver o seu problema de liquidez. Mas, nem todos serão contemplados totalmente com as medidas anunciadas pelo governo, mesmo porque elas serão insuficientes para os produtores que possuem alto grau de endividamento e que pedem um prazo de 10, 15 ou até 20 anos para liquidar seus débitos.