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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 373 | Junho de 2008 | Campo Mourão - Paraná

Bovinocultura

Inverno com “boi na sombra”

Suporte forrageiro no período seco do ano garante alimentação de qualidade e permanência dos animais no pasto. Opções vão desde o tradicional consórcio entre a aveia e o azevém ao uso da cana-de-açúcar e o cultivo da brachiaria ruziziensis, uma gramínea que se adaptou bem aos solos arenosos e que além de proporcionar o pastoreio direto do gado também contribui para manter um bom volume de palha sobre o solo para o plantio direto

Todo criador gosta de ver a vacada sempre bem nutrida, se alimentando no pasto, que é a fonte mais barata de fornecimento de comida aos bovinos na propriedade. Tanto no leite quanto no corte, é sempre mais vantajoso, economicamente, manter os animais com um bom suporte forrageiro, seja na forma de pastoreio direto ou no fornecimento ao cocho. A alternativa garante alimentação de qualidade também no período seco do ano. Entre as opções que o produtor tem à sua disposição está o tradicional consórcio entre a aveia e o azevém; o uso da cana-de-açúcar in-natura, ensilada ou hidrolisada e o cultivo da brachiaria ruziziensis, uma gramínea que se adaptou bem ao solo arenoso e que além de proporcionar o pastoreio direto do gado também contribui para manter um bom volume de palha sobre o solo no plantio direto, dentro do esquema de integração entre a pecuária e a agricultura.

Ciclicamente, o período seco e frio do ano no Brasil começa a partir do mês de maio, se estendendo até meados de setembro. “Durante quatro meses há uma parada do crescimento vegetativo das forragens perenes de verão, ocasionada por um processo fisiológico”, lembra o veterinário Hérico Alexandre Rossetto, da Gerência de Assistência Técnica da Coamo. Ele assegura que o melhor caminho para os pecuaristas encararem as dificuldades do inverno é através do planejamento. “Com uma boa estratégia de nutrição, aliada ao manejo sanitário, o rebanho certamente atravessará este período ganhando mais, em alguns casos bem mais em produção”, orienta.

Fatores de decisão – Para montar um bom projeto alimentar que garanta que não irá falta comida para os bovinos durante o inverno, o criador deve saber qual será a demanda de consumo de alimentos, levando em conta o plantel existente em sua propriedade. Os fatores de decisão dependerão das possibilidades existentes na fazenda para a produção de forragens específicas de inverno, além do clima e das condições de solo de cada região. Algumas propriedades podem lançar mão do uso de silagens de capins; milho; sorgo e cana-de-açúcar, que também pode ser fornecida in-natura; de fenos produzidos a partir de diversas forrageiras e pastagens específicas como a aveia preta e o azevém.

A reportagem do Jornal Coamo percorreu diversas regiões da área de ação da Coamo para acompanhar o uso efetivo das alternativas que fornecem suporte forrageiro de qualidade para os animais. Na conversa com cooperados de Roncador, no Centro-Oeste paranaense e de Caarapó, no Sul do Mato Grosso do Sul, destaque para as vantagens da suplementação de inverno a pasto, como o baixo custo da forragem de cana-de-açúcar e a dupla jornada do consórcio aveia/azevém e da brachiária ruziziensis.

Fique sabendo!

De acordo com o veterinário Hérico Rossetto, durante o período seco do ano um alqueire de pastagem anual de inverno como o consórcio aveia/azevém, por exemplo, suporta a pressão de pastoreio de cinco a seis bovinos adultos, produzindo um total de 3 toneladas de matéria seca. Por outro lado, um alqueire de cana-de-açúcar produz cerca de 300 toneladas de matéria seca e consegue manter 50 bovinos adultos por um período de 120 dias.

Engorda de bois e mais palha no arenito com a ruziziensis

No solo arenoso predominante em boa parte da região de Caarapó, no Sul do Mato Grosso do Sul, uma gramínea tem feito o sucesso numa jornada dupla que favorece tanto a agricultura quanto a pecuária. É a brachiária ruziziensis, cultivada como alternativa de inverno para o pastoreio do gado e também como opção para a formação de palha ao sistema de plantio direto. A forrageira resiste bem às condições de clima e solo da região e se encaixou perfeitamente ao projeto de integração agricultura/pecuária.

“É uma planta que cobre rapidamente o solo, sem formação de touceiras, com bom desenvolvimento tanto em solos de alta quanto de baixa fertilidade”, ressalta o veterinário da Coamo, João Aurélio Alves Maciel, que atende a região. Ele diz que alta quantidade de raízes da ruziziensis melhora a estrutura física do solo, a aeração e a retenção de água. “Essa condição favorece a reciclagem de nutrientes. Além de que a germinação pode ocorrer na superfície do solo, não necessitando de incorporação das sementes. Assim, ela pode ser utilizada em sobre-semeadura”, acrescenta o técnico.

Soja na pastagem – Com todas essas vantagens o cooperado Aldeir Bellodi Pedro não pensou duas vezes e trouxe a ruziziensis para o esquema de exploração da fazenda Santa Maria, hoje um pouco diferente da tradição da propriedade, que basicamente sobrevivia da bovinocultura de corte. “Há dois anos resolvemos cultivar a soja em algumas áreas de pastagem. A experiência foi bastante positiva, já que optamos pela brachiária ruzisiensis para manter o gado no inverno e garantir a palha para o plantio direto da soja na próxima safra de verão”, revela o produtor.

A alternativa está ocupando 123 alqueires da área da fazenda, neste inverno. A maior parte do cultivo da ruziziensis foi destinada ao pastoreio do gado e 20% da área está consorciada com o milho safrinha.

Recria e engorda – Os bezerros produzidos em outra fazenda da família são trazidos para a Santa Maria para a recria e engorda na ruziziensis. O cooperado ainda fornece, no cocho, um suplemento protéico-energético para garantir que os animais ganhem o peso necessário para o abate nos quatro meses do inverno. “Antes os animais permaneciam na pastagem de verão, mas o ganho de peso era baixo. Pastoreando na ruziziensis os bovinos devem ganhar em torno de 600 gramas por dia, além de que vamos reduzir o tempo de engorda dos animais, sem contar que ampliamos a lotação para 10 cabeças por alqueire”, comemora o produtor.

Facilidade no manejo – Na opinião do veterinário da Coamo, além de alimentar o gado a ruziziensis tem outras vantagens para a região. Uma delas é a facilidade no manejo de pré-plantio da safra de verão. “A planta responde bem às operações de dessecação, facilitando o plantio das lavouras”, garante Maciel.

A salvação da lavoura, de inverno

O cooperado Ronaldo Mitsuo Takada, que possui propriedade na localidade de Caratuva, região de Nova Cantu, próxima a Roncador (Centro-Oeste do Paraná), conheceu as vantagens da integração lavoura/pecuária no ano passado e já adotou como a sua atividade principal de inverno. “Antes, aqui no sítio, só tínhamos carne no freezer ou na panela. Hoje a realidade é outra. O resultado é dobrado: no inverno com os animais e no verão com a boa produção da soja. Foi a salvação da lavoura”, comemora.

A decisão de ingressar na nova atividade foi motivada pela área técnica da Coamo, em razão da dificuldade de produção no cultivo do trigo ou do milho safrinha em alguns talhões da propriedade.

Resultado sem risco – No ano passado, quando destinou 28 alqueires para a pastagem de inverno, consorciando a aveia preta com o azevém, o cooperado manteve um plantel de 159 vacas na engorda. Os animais ganharam, em média, 750 gramas de peso por dia. “Tirando o capital investido na compra dos animais e parte do custo da estrutura física implantada na propriedade, o retorno foi de 30%. Foi melhor do que eu esperava, já que não tive risco algum no período”, contabiliza o produtor.

Estratégia – Neste ano o cooperado ampliou a área de pastagem de inverno para 34 alqueires. O cultivo recebeu boa adubação para garantir maior qualidade da forragem. O produtor também fez um complemento de nitrogênio através da uréia e não deixa faltar o sal mineral no cocho. “Na reta final da engorda do gado – um mês antes de comercializar os animais, é adotado um esquema de semi-confinamento, fornecendo um concentrado para os animais até que eles cheguem ao ponto de abate. Assim, ocorre um descanso da pastagem, visando a formação de uma espécie de colchão que oferecerá palha em boa quantidade para o plantio da soja, na seqüência”, conta o agrônomo Darwin Caleff  Ramos, do Detec da Coamo em Roncador.

Novilhas – Com um melhor planejamento, o cooperado conseguiu adquirir os animais mais cedo neste ano e iniciar o ciclo na época considerada ideal. Frutos de cruzamento industrial, 224 animais entraram no esquema de integração neste inverno na propriedade de Takada. “A preferência é por novilhas com o peso entre oito a nove arrobas. A opção pelas fêmeas é feita, basicamente, por causa do início do sistema. Nesta fase temos que nos preocupar com a precocidade no acabamento, já que não podemos correr riscos de não conseguir terminar os animais na época certa. E as novilhas são melhores neste quesito, chegando mais rápido”, explica o veterinário Alcides Kintaro Mitsuka, do Detec da Coamo em Roncador.

Soja mais produtiva – A soja é implantada na seqüência do pastoreio do gado. Neste verão o cooperado produziu uma média, na área, de 140 sacas por alqueire, apesar de uma chuva de granizo que afetou a lavoura. “Consegui ganhar nas duas pontas e isso que me deixou mais satisfeito para praticamente dobrar o esquema neste inverno”, assinalou.

Inverno estável – “Estou contente com o projeto . Se comparada com o trigo ou o milho safrinha, principalmente nesta área aqui da minha propriedade, a integração torna o meu trabalho durante o inverno mais estável. O gado não morre com geada. Então, apesar do frio, o inverno vai ser bem quente também neste ano”, valoriza Takada.

“Rapadura” no cocho e melhores resultados com a vacada

A cana-de-açúcar é uma das fontes que vêm sendo utilizadas pelo produtor rural para o suporte forrageiro dos bovinos no período de inverno, nas formas in-natura, ensilada ou hidrolisada. A planta madura é uma importante fonte energética para os animais. Bem manejada, a cana produz cerca de 300 toneladas de matéria seca por alqueire, possibilitando o rebrote por até quatro anos. 

O cooperado Antonio João Ferreira e seu filho Renato Vasques, de Caarapó, no Sul do Mato Grosso do Sul, fornecem cana hidrolisada para o plantel de vacas da fazenda. Eles optaram pela alternativa em função do custo/rendimento. “Há dois anos, no Encontro de Cooperados da Fazenda Experimental Coamo, em Campo Mourão, conhecemos o processo de hidrolisação da cana picada. Era o que precisávamos para otimizar o fornecimento da alternativa para a vacada”.

Mais palatável – Na propriedade dos Ferreira a alimentação das 500 matrizes nelore do plantel, durante o inverno, é basicamente cana hidrolisada. “A hidrólise da cana aumenta a sua digestibilidade em até 50%, e os animais chegam a ganhar até 15% a mais de peso diário se comparado à cana in-natura. Considerando, ainda, que a cana fica mais palatável e com cheiro de melaço ou rapadura”, explica o veterinário da Coamo, João Aurélio Alves Maciel.

Vacas no cocho e bezerros no creep-feeding – Com a área de cana-de-açúcar cultivada na fazenda são produzidas 1.500 toneladas de matéria seca, volume suficiente para atender a demanda do rebanho, segundo os cooperados. Cada animal consome, em média, 25 quilos de cana hidrolisada por dia, sendo que o abastecimento dos cochos é feito duas vezes por dia. Os animais ficam em sistema de semi-confinamento. Os Ferreira trabalham com o ciclo completo da produção animal para corte. Os bezerros, neste caso, são alimentados com uma suplementação específica, em sistema de creep-feeding.

Mais animais na mesma área – Com a opção da cana-de-açúcar o rendimento da fazenda fica configurado na ampliação da capacidade animal por área e na manutenção do escore corporal do rebanho. “As vacas que já criaram têm possibilidade de cuidar melhor dos bezerros e, na seqüência, procriar, novamente sem atrasar o ciclo reprodutivo”, informam os cooperados. Eles ressaltam que na forma hidrolisada há um maior consumo da cana pelos animais, comparando com a planta picada e servida in-natura. “Com esta alternativa conseguimos manter 50 cabeças em alqueire de área”, revelam.

Tratamento – Antonio e Renato Ferreira utilizam o método de hidrólise a seco, a partir do polvilhamento da cal micro pulverizada sobre a planta picada, com um equipamento adaptado ao duto da máquina forrageira. Isso permite que o processo de hidrólise ocorra mais rápido, com a cana podendo ser servida aos animais em cinco ou seis horas após o corte. “E com mais praticidade, pois a cana hidrolisada com cal pode ficar estocada por 3 ou 4 dias, sem azedar, e também não atrai abe-lhas”, salienta Maciel.    “Agora escolhemos o melhor momento para a venda dos animais. Não vendemos mais em função do clima”, comemoram os Ferreira, que estão otimistas com o inverno deste ano.