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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 384 | Junho de 2009 | Campo Mourão - Paraná

Sucessão Familiar

Negócios de pai para filho

Quando dar sequência às atividades da família pode ser uma garantia de sucesso profissional

A expressão chinesa “pai rico, filho nobre, neto pobre” está cada vez mais longe do campo. Mesmo com as inúmeras opções no mercado de trabalho, a maioria dos jovens agricultores é seduzida, mesmo, pela lida diária no sítio. Herdaram dos pais muito mais que traços genéticos. Afinal, os pais são as maiores influências na formação das crianças. Os exemplos cultivados dentro da família e durante a rotina de atividades da propriedade são decisivos na formação da carreira e também ajudam a construir a personalidade destes sucessores, que desde muito cedo têm um forte contato com o trabalho no campo. E neste caso, construir uma carreira dentro dos negócios da família pode significar, sim, uma garantia de sucesso profissional.

ADMIRAÇÃO – Aos 31 anos de idade o cooperado Wilson Menin Júnior se sente preparado para assumir o controle da propriedade de 320 alqueires, localizada na região de Rio Sertão, em Mamborê (Centro-Oeste do Paraná). Ele conta que sempre teve uma admiração pelo pai, o também cooperado Wilson Menin. Desde pequeno, ele acompanhava o dia-a-dia da fazenda, e o que era uma brincadeira virou coisa séria. “Cresci neste ambiente e na hora de escolher a profissão não deu outra: fui estudar agronomia já pensando em assumir os negócios da família. Descobri que era a minha vocação, já que sempre tive muita liberdade para escolher qualquer outra profissão”, afirma.

Menin Júnior conta que passou por um período de “estágio” na fazenda. Foi para aprofundar os conhecimentos no gerenciamento da propriedade. “Primeiro foi na área operacional – tive que trabalhar duro; depois a administrativa e, agora, a parte financeira”, revela, ainda sob os olhos do pai. Mas a partir da próxima safra tocará o negócio sozinho.

A sucessão familiar na propriedade dos Menin já está na terceira geração. “Passei o chapéu para ele, assim como recebi do meu pai, na certeza de que foi o melhor para a nossa propriedade”, salienta Wilson Menin. A relação dos dois sempre foi baseada no respeito e na confiança. “Eu também me preparei para esta sucessão. Sabia que chegaria esta hora. Felizmente posso comemorar orgulhoso esta decisão do meu filho em se-guir a profissão que aprendi com o meu pai, e ele com o pai dele”, enfatiza o cooperado.

ENTRE IRMÃOS – A história da família Bedin, de Ouro Verde, no Extremo-Oeste de Santa Catarina, tem o mesmo desfecho, com uma vantagem: um orgulho triplo para o patriarca, o cooperado Ênio Antonio Bedin. Os três filhos dele, que também são cooperados da Coamo, aprenderam cedo o caminho que conduzia a família para o trabalho no campo, na propriedade conquistada com muito trabalho. Fábio Luiz (34), Evandro Paulo (31) e Rodrigo Antonio Bedin (29) seguiram bem as lições do pai e hoje os três irmãos formam uma parceria sólida e co-mandam todo o trabalho na fazenda.

Há cinco anos os Bedin trabalham juntos e estão à frente dos negócios da família. O pai está sempre ao lado dos filhos. “Agora trabalho para eles. Fiquei só com a ‘boléia’ do caminhão, e só na época de colheita”, brinca ‘seo’ Ênio. O relacionamento dos quatro chega a emocionar. “Fomos criados com o objetivo de dar sequência ao trabalho do nosso pai. Ele nos ensinou a ser assim. Além de filhos, somos parceiros nos negócios”, conta Rodrigo, o caçula, formado em Administração de Empresas, e que responde pela parte administrativa da propriedade. Fábio e Evandro estudaram agronomia e coordenam o trabalho no campo. “O nosso segredo sempre foi o diálogo e o carinho que temos um pelo outro. É assim que tem que ser, pois hoje a agricultura mudou um pouco da minha época. Quanto mais profissional melhor”, destaca o patriarca dos Bedin.

Com a sucessão, os negócios passaram a render mais. “Agora somos quatro puxando para o mesmo lado. É natural que haja uma evolução”, explica Rodrigo. Ele revela que todo o trabalho segue um planejamento de longo prazo. “Foi o que trouxemos de fora para dentro da nossa porteira”, acentua o cooperado.

Até hoje os Bedin vão e voltam do trabalho juntos. O horário de saída é às seis da manhã. O trabalho rende o dia inteiro e à noitinha eles retornam. “Não se vê muito disto nos dias de hoje. Felizmente tive a sorte de ter os meus filhos sempre ao meu lado. A sensação é de dever cumprido”, assinala ‘seo’ Ênio Bedin.

NO SANGUE – Filho mais novo de uma família de oito irmãos, o cooperado Leandro Demarco (32) recebeu do pai, o também cooperado Raimundo Demarco, há três anos, a missão de tocar em frente o pequeno sítio de 16 alqueires na comunidade Rio Xaxim, em Toledo, no Oeste Paranaense. Aos poucos o jovem foi conquistando o seu espaço e a confiança do pai e hoje é quem toma das decisões na propriedade. “Nasci neste sítio, nesta casa, e cresci vendo o meu pai trabalhar. E olha que trabalho não faltava. Eu mesmo, ainda pequeno, tinha as minhas tarefas, depois da escola: tratar o gado, ajudar na casa. Tudo aquilo estava no meu sangue”, lembra.

A formação da consciência para o trabalho foi a base que Leandro precisava para tomar a decisão de permanecer no sítio. “Sempre orientei meus filhos que não se vence na vida sem muito trabalho”, afirma ‘seo’ Raimundo. O repasse do controle a Leandro foi gradativa. “Primeiro ele teve que provar que estava preparado”, brinca o patriarca, confirmando que sempre viu vocação no filho para a lida no campo. Hoje, Leandro cuida de tudo, mas ‘seo’ Raimundo não se contenta em ficar em casa. “Ainda ajudo em algumas tarefas. No mais, já retirei todos os tocos do sítio para quem ninguém ficasse sentado durante o trabalho, nem eu”, acrescenta, sorrindo.

O sonho de Leandro acabou sendo acalentado pelo pai, num relacionamento baseado na amizade e respeito. “Minha meta é de uma vida com mais qualidade para toda a família. Percebi logo que lá fora seria mais difícil alcançar o sucesso profissional. Descobri cedo que o sítio era o meu lugar. Portanto, é aqui que, como meu pai, vou construir o meu futuro”, conclui Leandro Demarco.

Quanto mais cedo, melhor

É cada vez maior o número de jovens que assumem o comando dos negócios da família nas propriedades rurais. A maioria deles mantém uma tradição que tem sido passada por diversas gerações. Nesta reportagem especial, o Jornal Coamo apurou que pais e filhos têm funções diferentes dentro da propriedade, mas a confiança é a base da relação entre eles. A união da experiência com a juventude é uma estratégia que tem dado certo neste processo de sucessão que nem sempre é bem aceito por pais e filhos.

BASE DO SUCESSO – As lições recebidas dos pais, pelos filhos, é a base para o sucesso de uma boa sucessão familiar. Quanto mais cedo houver esta interação, melhor será a gestão dos negócios pelo sucessor da família. E, normalmente, quando são bem orientados, os filhos não só dão sequência ao trabalho dos pais, mas vão além, conduzindo os negócios para o sucesso.

ORIENTAÇÃO – Os pais têm um papel importante neste processo, já que, pela ordem natural da vida, tudo o que o pai construiu deve seguir na mão dos filhos em determinado momento.

Certo de que a sobrevivência de um empreendimento familiar está diretamente ligada ao bom êxito deste processo, o especialista na formação e desenvolvimento de sucessores e coordenador e professor do programa de Gestão da Empresa Familiar na Escola de Administração de Empresas, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Rogério Yuji Tsukamoto, destaca que a sucessão deve ser iniciada desde o nascimento do sucessor. O estímulo, segundo ele, pode ser dado à criança quando o pai leva o filho ao local de trabalho e ele pode passar algumas horas lá, brincando. "As pessoas costumam achar que a hora de o sucessor conhecer o negócio da família é no final da faculdade, mas aí já é muito tarde. Ele precisa ir lá desde pequeno para começar a tomar gosto pelo empreendimento e perceber sua dinâmica, e também aprender sobre o trabalho. Com o tempo, as pessoas passarão a valorizá-lo como profissional e ele terá uma boa bagagem para gerir os rumos da empresa", afirma Tsukamoto.

Coamo investe na formação de lideranças entre jovens cooperados

Um levantamento realizado pela Gerência de Atendimento a Cooperados da Coamo revela que o quadro social é composto, atualmente, por 21.805 associados ativos. Deste total, 14,3% possui idade entre 25 a 35 anos. “O número de cooperados nesta faixa etária vem crescendo a cada ano. E eles contribuem para a construção de uma nova realidade do campo, numa gestão mais profissional, principalmente diante do maior fluxo de informações disponíveis no mercado. No entanto, também reconhecem a importância do trabalho da cooperativa no apoio à produção, do plantio à colheita, que oferece uma linha completa de produtos e serviços em benefício da produtividade e da rentabilidade no campo”, argumenta o dirtor-presidente da Coamo, José Aroldo Gallassini.

JOVENS LÍDERES – Um bom exemplo da liderança exercida pelos jovens no campo pode ser destacado através do programa da Coamo de Jovens Líderes, premiado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e revista Globo Rural. Com o apoio do Sescoop, o programa já formou mais de 650 jovens cooperados, atuando dentro uma proposta de gestão da propriedade rural. Neste ano, a cooperativa está trabalhando com a 13ª turma de jovens cooperados.