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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 395 | Junho de 2010 | Campo Mourão - Paraná

Cooperação e Cidadania

Aprendiz de cidadão

Parceria cooperativa-escola proporciona oportunidade do primeiro emprego e muda perfil de jovens urbanos de baixa renda. Ao “inocular” o vírus da cooperação, eles conquistam não só o mercado de trabalho, mas, sobretudo, o direito à cidadania

Quando percebe o contato carinhoso da mãe a adolescente Daniele Cristina da Silva sabe que é hora de acordar. São 6h20. Uma revirada na cama deixa transparecer que ela demorou a pegar no sono. Um segundo chamado da mãe e ela desperta e, ainda sonolenta, fixa o olhar no vazio, como se quisesse enxergar o futuro. Quando levanta e se olha no espelho do banheiro ela já não é mais a mesma menina que adormeceu na noite anterior. Custa a acreditar que algo mudou, porque tudo ao seu redor está do mesmo jeito. Ainda assim, sente que aquele dia não será igual aos outros.

Uma mistura de ansiedade e euforia toma conta da menina de apenas 16 anos de idade. O olhar sem disfarce dos irmãos mais velhos e do pai, na mesa do café, parece expressar uma admiração pela jovem, sentimento que até então ela não havia experimentado. Daniele aproveita o momento, enquanto a mãe apressa um último retoque na roupa que ela veste. Um gole no café preto e algumas mordidas no pão antecedem a saída pelo portão da casa, empurrando a bicicleta. E sob atenção da família, que observa da janela, ela ganha as ruas e pedala em direção ao maior desafio que já enfrentara em sua vida: o primeiro dia de trabalho.

No caminho, os pensamentos vêm e vão. Tudo é muito novo para o mundo de Daniele. As pessoas parecem nem notar, mas ela está em plena busca da sua cidadania. Quinze minutos de pedaladas e logo a frente a realidade de uma empresa que já foi sonho. Enfim, Daniele anotava, às 7h30 do dia 15 de abril de 2010, o seu primeiro registro como menor aprendiz em um dos departamentos da Coamo, dando início a um novo ciclo de sua vida.

CABEÇA CHEIA, DE EXPECTATIVAS – Filha de um pedreiro aposentado e uma diarista, Daniele é um dos 30 estudantes de escolas públicas de Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná) selecionados para a turma de 2009/2010 do programa Aprendiz em Serviços Administrativos no Cooperativismo. Como ela, outros mais de 300 meninos e meninas já passaram pela cooperativa e ganharam preparação técnica e prática para a primeira oportunidade no mercado de trabalho. “Sonhava com o dia em que seria contratada pela Coamo. Tenho certeza de que essa oportunidade fará diferença na minha vida. Mesmo se eu não for efetivada, levarei daqui o conhecimento e a experiência de ter trabalhado em uma grande empresa”, valoriza.

Ela conta que superou as dificuldades de comunicação interpessoal, driblou a timidez e ficou mais responsável. “Antes eu só estudava e dependia dos meus pais. Hoje, minha agenda de compromissos aumentou: concilio estudo, trabalho e curso. E tenho mais independência financeira, podendo ajudar em casa, bem como participar das decisões da família. Me sinto mais incluída”, afirma Daniele.

Até mesmo a relação com os amigos e vizinhos mudou, para melhor. “Percebo que estou mais presente em tudo. As pessoas elogiam o fato de eu estar trabalhando e perguntam a minha opinião sobre isso ou aquilo. Uma sensação muito boa, que, até então, eu não tinha sentido. Se continuar assim está ótimo. Superou todas as minhas expectativas”, agradece.

Daniele já imagina o seu crescimento profissional, estabelecendo carreira dentro da Coamo. “Por enquanto, estou em busca de conhecimento; tudo o que eu puder aprender e as pessoas puderem me ensinar. No entanto, vou dar o melhor de mim para ser efetivada e obter sucesso dentro da cooperativa, a exemplo de outros profissionais que já estiveram onde estou”, espera.

Do aprendizado a uma carreira de sucesso

Quem também já passou pela experiência do primeiro emprego e viu a vida mudar, para melhor, diante da oportunidade oferecida pela Coamo, foi Alessandro de Oliveira, Dalila Cristina dos Anjos e Alex Leal, ambos de Campo Mourão. Começaram como aprendizes e se desenvolveram dentro da cooperativa, seja como profissionais ou como cidadãos. Hoje, incorporados ao quadro funcional da Coamo, têm uma carreira sólida no mercado de trabalho, proporcionada pelo contexto cooperativista, e cresceram economicamente e socialmente. Com isso, os três mudaram seus perfis como pessoa, ocupando, inclusive, posições de destaque nas comunidades onde vivem.

No caso de Alex, o ingresso na Coamo aconteceu em 1988. Na época, com 12 anos, ele fazia parte de um projeto municipal de educação militar conhecido como Guarda Mirim. Dois anos depois ele foi promovido ao cargo de aprendiz. “Foi uma grande alegria, porque passei a ganhar um salário mínimo integral. Nunca tinha visto tanto dinheiro”, brinca.

Filho único e de pais separados, Alex morava com a mãe, dona Silvani. Rigorosa, ela sempre manteve o tipo “linha dura” com o menino. Os dois viviam de forma simples e o dinheiro que Alex ganhava na cooperativa ajudava a mãe a manter as despesas da casa. “Não tive a figura masculina do meu pai presente. Desde que entrei na Coamo procurei me espelhar nos meus companheiros de trabalho e seguir seus exemplos. Felizmente, consegui estabelecer um bom caráter, já que essa convivência oportunizou a minha mudança de vida”, conta.

Já Alessandro ingressou na Coamo na vaga de menor aprendiz em agosto de 1998, depois de fazer um cadastro na Agência do Trabalhador. Foi informado da sua contratação bem no dia do seu aniversário de 16 anos. Não fosse a oportunidade na cooperativa, ele teria ido para um colégio militar; até porque, como filho de pais separados, o jovem morava com as duas irmãs mais velhas e, mesmo juntos, tinham poucas condições econômicas para viver. “Não foi fácil. Aluguel, alimentação e todos os outros custos da casa. Aprendi cedo que precisava ajudar”, lembra. Com 14 anos ele já vendia sorvete para contribuir com a renda da irmã, que trabalhava como doméstica. “Quando chegava o final do mês, juntávamos o dinheiro ganho e pagavam as contas. Com o que sobrava, comprávamos os alimentos”, conta.

E Dalila teve a oportunidade do primeiro emprego na Coamo em julho de 2003, na época com 14 anos de idade. Também filha de pais separados, ela morava com a mãe e os avós, numa casa de três peças. Ao todo, sete pessoas dividiam os cômodos. A aposentadoria do avô e os salários da mãe e da tia sustentavam a família. “Penso que a dificuldade me fez amadurecer. Desde pequena sempre tive vontade de trabalhar para ajudar minha mãe. Me lembro que sempre falava em comprar uma casa para ela, para que pudéssemos melhorar de vida”, revela.

A mãe, dona Cristina, matriculou Dalila em um programa municipal conhecido como Pró-Jovem. Lá ela recebeu formação para serviços administrativos e foi indicada para a Coamo dois meses depois de iniciar o curso. “Ela nunca tinha saído de casa sozinha. Foi uma grande mudança para nós duas. Levava e ia buscá-la todos os dias, de bicicleta. E, cada conquista dela também foi uma conquista minha”, revela, emocionada, dona Cristina.

EVOLUÇÃO – Para os três, a experiência como aprendiz contou muito para o crescimento profissional. Alex passou por seis promoções e hoje ocupa o cargo de chefe do Departamento de Análise de Crédito da Credicoamo. Ele se preparou para assumir os desafios. Fez faculdade na área de Ciências Contábeis e cursou inglês. Hoje, com 35 anos de idade, casado e com dois filhos, ele possui uma vida confortável, ainda ao lado da mãe, construída com a conquista do seu próprio espaço.

Alessandro agradece a Coamo pelas lições que aprendeu. Ele passou por três promoções e depois de concluir o curso de agronomia, recentemente, participou de uma seletiva e foi promovido a engenheiro agrônomo no entreposto de Pitanga, na região Central do Paraná. “Através da cooperativa consegui ver o mundo de uma forma diferente. Isso me fez acreditar que sempre posso olhar para frente e almejar mais; ver que a partir do momento que você tem intenção de algo não existe obstáculos, basta ter dedicação e acreditar que você pode”, ensina, anunciando que já está terminando uma especialização na área agronômica e planeja ingressar, na sequência, num curso de MBA em agronegócio.

Hoje Analista de Sementes, Dalila também comemora a evolução. Desde que ingressou na Coamo, ela obteve três promoções e viu o salário crescer em 156% no período. A cada mês, ela guardava um pouco do dinheiro para alimentar o sonho dela e da mãe. “Quem acompanhou viu essa menina se transformando em mulher, dedicada, justa e, acima de tudo, competente”, afirmam as demais analistas que trabalham no mesmo departamento de Dalila. Aos 21 anos, ela faz questão de lembrar de duas entre as conquistas alcançadas até aqui: o curso universitário (acadêmica do 3º ano de Letras) e a construção da casa própria, na união de esforços com a mãe. “Fomos construindo esses sonhos aos poucos e hoje eles são belas realidades. Devo agradecer a todos que passaram pela minha vida nesses sete anos. Tem sido um aprendizado que me preparou para a vida”, valoriza Dalila, que tem como próximo objetivo o início da faculdade de agronomia.

Ações têm foco no desenvolvimento humano

Programa promove capacitação administrativa dos jovens, desenvolvendo neles competências para a empregabilidade; além de buscar a expressão de características como o companheirismo, a coletividade, a comunicação, a superação e o respeito ao próximo

Após ter sido idealizado e implantado pela Coamo em 1989, o programa, no formato atual, ganhou, a partir de 2003, a parceria firmada com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) e Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). “A ação entre cooperativa-escola-entidades vem mudando o perfil de jovens urbanos de baixa renda. O objetivo não é formar simplesmente trabalhadores, mas, acima de tudo, cidadãos”, revela Antonio César Marini, chefe do Departamento de Seleção e Desenvolvimento Pessoal, da Gerência de Recursos Humanos da Coamo. “A meta – continua -, é promover a capacitação administrativa dos jovens, desenvolvendo neles competências para a empregabilidade; além de buscar a expressão de características como o companheirismo, a coletividade, a comunicação, a superação e o respeito ao próximo”.

DESENVOLVIMENTO – De 2006 para cá, a cada início de ano 180 estudantes de seis escolas públicas de Campo Mourão – divididos entre meninas e meninos -, são encaminhados para a primeira seleção do programa. Desses, cerca de 20% são selecionados pela cooperativa para formar uma nova turma de jovens aprendizes. São encaminhados para um curso de educação profissional com duração de dois anos e 90% deles serão aproveitados pela Coamo, sendo que, desses, 80% são efetivados como auxiliares dentro da estrutura organizacional da cooperativa. “Na primeira seleção só os estudantes com média igual ou maior de 80, com boa frequência escolar, comportamento e participação em sala de aula são encaminhados ao programa”, revela Marini. Depois, o desenvolvimento fica por conta de cada um deles. “Oferecemos todas as condições para os adolescentes terem o contato com a teoria, feita no contra-turno escolar, e a prática, feita dentro da própria Coamo.

CONSCIÊNCIA CORPORATIVA – No Senac, eles têm aulas duas vezes por semana, sempre no período da tarde. Somando as partes teórica e prática, os adolescentes participam de cerca de 3.500 horas de atividades. “Há uma preocupação de todos os envolvidos no processo de aproximar a realidade educacional da operacional, consolidando três elementos básicos da formação: o saber, o fazer o e relacionar”, explica o diretor de Educação Profissional do Senac em Campo Mourão, José Mateus Bido. “É aprender a aprender; depois aplicar o aprendizado e, por fim, saber fazer bem feito”, resume.

Para Bido, o programa desenvolve, sobretudo, a conscientização do jovem sobre o seu papel enquanto pessoa, agente social, participante de um processo de produção. O diretor diz que duas regularidades comprovam esse processo: a consciência pessoal, revelada a partir de um melhor planejamento de vida, a gestão de gastos e o compromisso com o futuro profissional, diante do ingresso na universidade; e a consciência empresarial, através da disciplina no ambiente de trabalho, o compromisso com os resultados e a qualidade nos serviços prestados. “A marca Coamo é muito forte, socialmente falando. Isso amplia a dimensão do programa, principalmente porque os adolescentes sabem que mesmo que eles não continuem trabalhando na cooperativa usarão o conhecimento adquirido para o resto da sua vida, além de acrescentarem muito em seus currículos”, avalia Bido.

VÍRUS DA COOPERAÇÃO – O gerente de Desenvolvimento Humano do Sescoop-Paraná, Leonardo Boesche, diz que ao “inocular” o vírus da cooperação os adolescentes que integram o programa Jovem Aprendiz Cooperativo conquistam não só o mercado de trabalho, mas, sobretudo, o direito à cidadania. Ele lembra que a experiência da Coamo nesse processo contribuiu para consolidar o modelo de contratação de adolescentes, que, inclusive, serviu de base para a implementação do programa em outras cooperativas do Estado, que teve as primeiras turmas em 2006. “Com o crachá da sua cooperativa no peito, esse jovem passa a ser uma nova pessoa, que sonha com um futuro melhor. É uma fase crítica para esse adolescente, de auto-afirmação. Por isso, é tão importante ele se sentir incluído e valorizado”, acentua.

Segundo Boesche, o programa incute nos jovens a identidade do cooperativismo e busca formar, de fato, os novos colaboradores do sistema. “É como se fosse um laboratório, onde os estudantes aplicam a teoria na prática”, compara. Durante os dois anos do curso, para cada hora de teoria os adolescentes têm outras quatro de prática. “Nesse sentido, os jovens assimilam valores éticos e os princípios do cooperativismo, além de elevar o nível de escolaridade, proporcionando um itinerário profissional formativo”.

Os números no Paraná

A tabela abaixo revela os números do programa no Estado do Paraná. Os dados são do Sescoop e contemplam todas as turmas de 2006 até hoje:

 

ANO COOPERATIVAS MUNICÍPIOS TURMAS ESTUDANTES
2006 12 6 7 152
2007 13 8 10 181
2008 13 8 12 258
2009 31 10 15 364
TOTAL 31 10 44 955

O programa na Coamo

180 estudantes indicados para a primeira etapa do programa
As indicações são divididas entre meninos e meninas
Ambos devem ter média escolar igual ou acima de 80
Boa frequência nas aulas
Bom comportamento na escola
Alta participação em sala de aula
6 escolas públicas de Campo Mourão são parceiras
30 jovens são selecionados para o treinamento
90% dos selecionados são aproveitados pela Coamo
80% dos aproveitados são efetivados pela Coamo
O curso tem duração de 2 anos
Uma turma é formada a cada ano
São 647 horas/aula de teoria
2.816 horas/aula de prática

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

O adolescente cidadão
Iniciação para o trabalho
Comunicação no trabalho
Iniciação à informática
Serviços administrativos no cooperativismo

Agente de transformação social

O Aprendiz em Serviços Administrativos no Cooperativismo continua sendo um agente de transformação e inclusão econômica e social de adolescentes em busca de oportunidades no mercado de trabalho. As disciplinas do programa orientam para reflexões sobre a atuação dos adolescentes como cidadão, desde a contribuição para o próprio contexto social, seja na comunidade, escola ou família. E ainda outras questões como consumo consciente, preservação do meio ambiente e respeito ao outro e a diversidade entre outros temas.

É um tipo de educação profissional presencial, inicial e continuada. Os selecionados devem estar matriculados e frequentando o ensino fundamental em escolas públicas e ter idade mínima de 14 anos. São cinco blocos temáticos repassados durante o treinamento: adolescente cidadão, iniciação para o trabalho, comunicação no trabalho, iniciação à informática e serviços administrativos no cooperativismo.

O cooperativismo e a cidadania

“Um homem se humilha, se castram seu sonhos. Seu sonho é sua vida, e vida é trabalho. Sem o seu trabalho, o homem não tem honra. E sem a sua honra, se morre, se mata”. Num fragmento da poesia de Gonzaguinha, cantada com sabedoria, o homem deve concentrar os seus esforços na luta por direitos sociais, tais como educação, saúde, dignidade, justiça e, principalmente, o direito ao trabalho. E dentro desse contexto, o cooperativismo tem sido espelho para o Paraná e o Brasil.

O diretor-presidente do Sistema Ocepar, João Paulo Koslovski, lembra que onde a cooperativa está instalada ela leva não só o desenvolvimento econômico mas também a promoção social. “Não existe hoje um mecanismo mais forte de prática da cidadania do que o cooperativismo”, sustenta. As oportunidades geradas pelas cooperativas respondem por investimentos em ações sociais que cresceram, em média, 13% em seis anos (2002 a 2008). “Esses números permitem mensurar o alcance das ações, bem como a importância do setor cooperativista para a distribuição de renda, geração de emprego e desenvolvimento econômico e social das comunidades”, avalia Koslovski.

Na parceria com o Sescoop e outras instituições paranaenses são alavancas as ações do sistema cooperativista no Estado. “Em 2009 comemoramos 10 anos desse serviço, cuja atuação, nesse período de atuação, contabilizou investimentos de R$ 55 milhões em formação e promoção social, beneficiando mais de 670 mil pessoas”, enfatiza o presidente da Ocepar. Koslovski considera que a Coamo tem demonstrado, através dos investimentos promovidos em desenvolvimento humano, sobretudo na parceria com o Sescoop-Paraná, que a aplicação desses recursos vem profissionalizando efetivamente não só os seus colaboradores, como os cooperados e familiares.

Fique sabendo:

 

***Os menores aprendizes sempre fizeram parte do contexto empresarial. O cargo passou por várias nomenclaturas, como contínuo, office-boy e mirim. Ao longo dos anos a função se consolidou como passaporte para a efetivação no mercado de trabalho. A própria Lei de Diretrizes e Base da Educação Brasileira (LDB), de 1996, estabelece o preparo do jovem para o trabalho e para a cidadania, e o aprimoramento dele como pessoa e sua própria formação ética – que é a postura que o individuo deve ter na sociedade.

***O programa, no formato atual, é regido pela lei federal 10.097, de 17 de dezembro de 2000, que estabelece que o trabalho do menor deve ser condicionado à formação do desenvolvimento físico, psíquico, moral e social, na parceria com escolas técnicas de educação.