Site Coamo
Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 395 | Junho de 2010 | Campo Mourão - Paraná

Gestoras do Amanhã

Cooperação que se põe à mesa

Cursos sociais e profissionalizantes oferecidos pelas cooperativas a esposas e filhas de agricultores incrementam renda familiar e propiciam maior satisfação e valorização pessoal para milhares de mulheres rurais

A busca pela melhoria da renda e qualidade de vida da família é o objetivo mais comum entre as bilhões de pessoas que compõem a população mundial. Não importa a raça, a cor ou religião, o que qualquer ser humano almeja é, e sempre será, uma melhor condição de sobrevivência. E nessa corrida pela valorização pessoal e profissional os cursos sociais e profissionalizantes oferecidos pelas cooperativas, como a Coamo, a esposas e filhas de agricultores, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), são instrumentos de desenvolvimento, fundamentais na formação, capacitação e reciclagem. Ferramentas que se tornaram, ao longo dos anos, alicerces para o crescimento das milhares de mulheres rurais que contribuem para a retirada do meio rural o alimento da vida. Gente que encontrou no aperfeiçoamento das habilidades manuais o caminho para a realização pessoal e profissional, transformando sonhos em lucro.

PIONEIRISMO – Na Coamo, esse programa existe há 34 anos. Por meio dele, a cooperativa leva às mulheres das comunidades rurais uma educação que suscita uma atuação diferenciada na sociedade. Dirigido exclusivamente para esposas e filhas de cooperados, o programa realizou, logo no primeiro ano, em 1976, 13 cursos, através dos quais foram repassados conhecimentos sobre a produção de pães e bolachas, o aproveitamento da soja na alimentação, industrialização do leite, entre outros.

O diretor-secretário da Coamo, Ricardo Accioly Calderari, elogia o trabalho e destaca que o projeto tem apoio total da diretoria da cooperativa, “pois tem um compromisso social muito grande, por meio do qual é possível investir na melhoria da qualidade de vida das famílias no campo, em todos os sentidos”. Calderari lembra, ainda, que quando os treinamentos foram iniciados eles eram ministrados por funcionários da cooperativa; diferente do que acontece hoje, quando os instrutores são contratados pelo Sescoop-Paraná, através da parceira firmada com a Coamo no ano de 2001. “O trabalho continuou sendo o mesmo, assim como os resultados propiciados pelo programa”, finaliza.

PARCERIA DE BONS RESULTADOS – A parceria entra a Coamo e o Sescoop-Paraná possibilitou o surgimento de novos cursos. Atualmente são oferecidos 56 diferentes cursos nas áreas de alimentação, artesanato, profissionalização e economia doméstica, além de palestras sobre saúde, bem-estar e qualidade de vida. “E nos últimos dois anos, houve um crescimento de 60% na realização dos eventos”, revela a coordenadora dos cursos de promoção social da Coamo, Odete Fonseca Massi. Até o ano passado, a cooperativa já realizou 9.234 cursos dentro do programa, contabilizando a participação de mais de 135 mil pessoas. Uma média de participação de quase quatro mil pessoas por ano, com a realização mensal de 22 cursos e anual de 270 cursos.

O gerente de Desenvolvimento Humano do Sescoop-Paraná, Leonardo Boesche, enxerga os cursos de promoção social como uma ferramenta de auxílio ao dia-a-dia do campo, incentivando a participação da família na vida da cooperativa. Ele entende que ao investir no público feminino a cooperativa está formando a sua próxima geração de gestores, uma vez que a mulher é quem educa os filhos. “Na maioria das vezes o jovem não conhece a história da cooperativa, não viu ela crescer e nem sentiu as necessidades que seus pais tiveram quando criaram essa sociedade; e como a mãe é a grande responsável por essa educação, ela acaba sendo fundamental nesse processo”, explica. “Elas não estão interessadas apenas na comercialização e recepção de produtos, mais, sobretudo, na formação de um novo homem, um homem mais cooperativo”, diz Boesche.

No Paraná, somente no ano de 2009, mais de 100 mil pessoas participaram de 3.000 eventos – sendo 700 na área de promoção social -, promovidos pelo Sescoop-Paraná, na parceria com as cooperativas do Estado, em mais de 40 mil horas de atividades. O objetivo do sistema, que destina em média 10% dos seus recursos em cursos, treinamentos, palestras e visitas técnicas para o publico feminino é, sobretudo, promover a capacitação e integração, além de valorizar o papel da mulher cooperativista. “Acreditamos que com o apoio das cooperativas, cujos agentes de Desenvolvimento Humano contribuem de forma significativa para o planejamento e execução das atividades do Sescoop, vamos superar o número de eventos do ano passado”, projeta Boesche.

Os cursos sociais na região da Coamo

Desde o início do programa de Promoção Social da Coamo, mais de nove mil cursos foram realizados na área de ação da cooperativa, com mais de 134 mil mulheres participantes. Na tabela abaixo, os números do levantamento feito pela Gerência de Assistência Técnica da Coamo:

ANO CURSOS PARTICIPANTES
1976 13 409
2009 266 3.458
1976/2009 9.273 134804

A escolha dos cursos é delas

 


Dentro dos cursos promovidos pela Coamo, na parceria com o Sescoop-Paraná, quem escolhe o tema são as próprias mulheres. Elas se baseiam nas necessidades do grupo para optarem pelos treinamentos. Assim, cada unidade da Coamo realiza, no mínimo, em média, dois cursos por ano. As cargas horárias variam de 8 a 24 horas/aula. E a maior demanda de cursos é para culinária, com 85% da preferência entre as mulheres.

Brincadeira que virou negócio sério

Luciana Kaiser aproveita conhecimentos dos cursos promovidos pela Coamo e Sescoop-PR e ganha espaço no mercado empresarial

Nestes 34 anos o programa melhorou a vida de muitas famílias do meio rural, como a da ex-dona de casa e hoje pequena empresária Luciana Scramin Kaiser, de Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná). Ela é uma das milhares de mulheres que já participaram dos cursos promovidos pela Coamo e o Sescoop-Paraná e buscaram o aprimoramento necessário para expandir um negócio que hoje é uma das principais fontes de renda da família. Empreendedora, Luciana percebeu que os cursos são uma ótima ferramenta para o seu melhoramento profissional e pessoal.

Há cerca de seis anos, motivada pelo esposo, o cooperado José Henrique Kaiser, Luciana resolveu apostar na produção artesanal de alimentos, e se deu bem. Mas, assim como tudo na vida, o início não foi fácil. Sonhando em construir algo e se sentir mais útil, ela começou o negócio por brincadeira. Produzia bolachas em pequenas quantidades e oferecia para os amigos e familiares. Em pouco tempo a brincadeira foi ficando séria. Com a boa aceitação do produto, aos poucos a produção teve de ser aumentada. Hoje, ela possui uma cozinha industrial bem equipada, construída no quintal de casa, onde passa boa parte do seu dia preparando delícias de encher os olhos e a barriga.

O negócio deu tão certo que Luciana precisou abrir uma pequena empresa, a qual colocou o sugestivo nome de “Ki-Sabor”. Cerca de 20 diferentes receitas são preparadas por ela, desde massas folheadas recheadas, doces, pães caseiros e de mel, além das tradicionais bolachas, com as quais iniciou sua jornada. “Minha vida mudou bastante nesses seis anos. Comecei entregando minhas bolachas de porta em porta, atendendo encomendas das pessoas conhecidas e quando a demanda começou a crescer percebi que era hora de me aperfeiçoar. Foi aí que resolvi buscar esse aperfeiçoamento através dos cursos sociais da Coamo, que aliás, até hoje faço questão de participar para aprender mais e mais”, conta a empresária. E para dar conta de todo trabalho de hoje, Luciana teve que contratar duas funcionárias, sendo uma delas a sua própria mãe.

DO SONHO A REALIDADE – O negócio idealizado por Luciana é hoje um bom alicerce do seu orçamento. De acordo com ela, o resultado da venda dos produtos chega a representar 50% da sua renda familiar. Tanto que, em tempos de crise na agricultura era ela quem tomava a frente das despesas e equilibrava as contas do lar. “Isso me faz sentir mais realizada como pessoa. Afinal, estou ajudando meu esposo e minha família. Me sinto mais orgulhosa de mim mesma e devo muito isso ao meu trabalho, é claro, mas também à minha família, que muito me incentivou; a Coamo e aos cursos que ela me proporcionou, que foram determinantes para esse crescimento profissional”, agradece, sem esquecer também da sua evolução pessoal nesse período. “Hoje não fico apenas ouvindo meu marido falar do trabalho dele; também tenho o que falar sobre a minha ocupação e isso é importante para mim. Posso dizer que sou mais feliz agora, bem mais realizada”, comemora.

COOPERATIVISMO – Ancorado na filosofia do cooperativismo, todo o trabalho capitaneado por Luciana Kaiser contou com a ajuda mútua de amigos e familiares, que segundo ela, foram importantes no processo de divulgação e aprovação das suas receitas. Uma verdadeira união de pessoas que se ajudam e participam ativamente do crescimento umas das outras. “Isso é cooperativismo. E eu vivo isso no meu dia-a-dia, já que meu marido é agricultor e cooperativista. Então, desde minhas funcionárias, até os estabelecimentos que acolhem meus produtos e o próprio consumidor final, tudo faz parte de uma cadeia cooperativista”, compara Luciana, já fazendo planos para o futuro. “Vou continuar participando dos cursos para melhorar cada vez mais e quem sabe aumentar minha produção e até minha cozinha”, diz.

Mercado e satisfação garantidos

O empresário Álvaro Machado da Luz, diretor comercial da rede Paraná Supermercados, com três lojas em Campo Mourão e Ivaiporã, é um dos grandes incentivadores desse tipo de trabalho. Ele foi o primeiro a abrir as portas do estabelecimento para a comercialização das receitas de Luciana e outras empreendedoras como ela. Da Luz justifica que a qualidade é o grande diferencial que o produto feito a partir da agricultura familiar representa na gôndola do supermercado. “O consumidor busca sempre novidades e está disposto a pagar por isso. Desta forma, abrimos as portas do nosso estabelecimento para esses produtos que lembram muito o sabor da fazenda”, compara.

O supermercadista não foi o único a ter essa percepção. Outros cinco estabelecimento em Campo Mourão, entre supermercados e panificadoras, também já abriram as portas para Luciana Kaiser, que para atender a demanda precisa se dividir entre o compromisso entre a sua clientela e os cuidados com os filhos e o marido. Para dar conta de tudo ela trabalha 16 horas por dia. Acorda às 4h30 da manhã, mas não reclama. “É cansativo, mas adoro o que faço e estou muito feliz com tudo isso. Graças a esse grande incentivo que tenho de todos os lados os resultados são compensativos”, comemora.

OPINIÃO DE CONSUMIDOR – Cada vez mais exigente o consumidor valoriza produtos de qualidade e de origem comprovada. Caso da senhora Neuci Colombo, que sempre que vai ao supermercado não deixa de levar para casa uma ou outra receita produzida na cozinha de Luciana. Ela diz que, além de saborosos, os produtos são de ótima qualidade. “É diferente. Eu conheço o produto. Sei de onde vem e como é produzido. Isso acaba fazendo muita diferença”, valoriza.

Mulheres buscam desenvolvimento pessoal

Cursos também servem como terapia e favorecem troca de experiências

A dona de casa Noeli Schimidt, de Campo Mourão, tem uma visão diferenciada dos cursos sociais. Ela também já participou de vários e, na prática, vê neles a oportunidade de se desenvolver mais, como pessoa. Ela valoriza principalmente o entrosamento que adquire com outras pessoas e as amizades que consegue fazer durante os treinamentos. “É uma ótima terapia. Me ajuda bastante. Conheci gente bacana e sinto que desde que comecei a participar, há cerca de dois anos, me sinto uma pessoa melhor, mais integrada a sociedade”, afirma.

Outra que elogia o trabalho desenvolvido é Durlei Machado Neves, esposa do cooperado Altamir Paula Neves, de Mamborê (Centro-Oeste Paranaense). Ela conta que há pelo menos 15 anos é frequentadora assídua dos eventos e já aprendeu de tudo um pouco. “Fiz desde cursos de artesanato e culinária, e até de administração e gestão rural. São conhecimentos que levamos para as nossas vidas”, enfatiza.

A experiência vivida por dona Durlei nesses anos todos apontam, segundo ela, um crescimento intelectual e comunitário de muitas pessoas. “Eu vi muita gente crescer intelectualmente e comunitariamente nesses cursos. Pessoas que conseguiram se desenvolver e viver melhor a partir do momento em que começaram a participar mais e se integrar, como aconteceu comigo”, afirma.

Também de Mamborê, a dona de casa Maria de Lourdes Moraes de Azevedo admite que já participou de muitos outros eventos femininos. No entanto, nunca como os promovidos pela Coamo. “Para mim, é uma oportunidade de desenvolvimento. O que eu aprendi aqui vou repassar e ensinar outras pessoas”, salienta, elogiando o ambiente acolhedor durante os cursos.

DUPLA SATISFAÇÃO – Para Sérgio Kazuo Kawakami, que há seis anos é instrutor de cursos de culinária do Sescoop-Paraná, além de ensinar pratos que agradam o paladar da família o importante é repassar ensinamentos para que as pessoas aprendam a se alimentar melhor. Ele diz que além do fato de muitas esposas de cooperados conseguirem agregar uma renda extra através da produção de pratos diferentes e reforçar o orçamento da família, o mais importante é saber que as participantes também estão se desenvolvendo melhor como pessoa e aprendendo a ter uma vida mais saudável. “É muito bom voltar nas comunidades por onde passamos e ver que o nosso trabalho está dando resultado, seja pelo lado comercial ou pessoal. É gratificante perceber que essas pessoas estão se desenvolvendo de uma forma ou de outra”, comemora Kawakami, completando que assim como quem aprende, também se sente realizado podendo ensinar. “É gratificante ver o sorriso dessas pessoas quando encerramos os cursos, satisfeitas com o que aprenderam. Elas se realizam e acabam realizando a gente também e isso não tem dinheiro que pague”, afirma.

O mesmo prazer em poder levar esse conhecimento e contribuir com o crescimento dessas pessoas, sente a instrutora Elaine Angélica Gasparello. Ela também valoriza a reciprocidade que encontra nas comunidades e observa que as famílias que participam dos cursos a recebem muito bem e aproveitam as informações da melhor maneira possível. “Esse trabalho social é muito bem acolhido e é uma satisfação para nós podermos exercer a nossa profissão e contribuir nesse processo. Além de levar qualidade de vida, o nosso objetivo é fazer com que essas pessoas possam também agregar valor econômico para essas famílias. Muitas vezes essas pessoas não acreditam no seu próprio potencial e através desses cursos conseguimos despertar isso nelas”, finaliza.

Mais sorrisos com doces e queijos

Conservas e compotas, doces e salgados. Produtos que fazem brilhar o sorriso da dona Neuza Ferreira da Silva, de Juranda, no Centro-Oeste do Paraná. Com uma vontade incrível de aprender, ela superou barreiras e investiu em um projeto para incrementar a renda da família agregando valor aos produtos da terra.

Tudo começou com a participação dela em um curso de tricô promovido pela Coamo no final da década de 80. Ela conta que nos últimos anos participou de mais de 20 cursos através da Coamo.

Algumas receitas da dona Neuza estão entre os campeões de venda na feira livre da cidade, que acontece uma vez por semana. Já existe, inclusive, uma marca própria para os produtos: Dinda. São mais de 20, entre doces de leite, de abóbora, banana, goiaba, de abacaxi e mamão; conservas de jurubeba, pimenta-vermelha, pepino, e beterraba; pasta de alho e pão caseiro. Com a venda dos produtos, dona Neuza consegue um resultado líquido mensal de cerca de um salário mínimo.

FÁBRICA DE QUEIJOS – Dona Maria Ramos, de Ivailândia, distrito de Engenheiro Beltrão, no Norte do Paraná, conta que a família investiu, há seis anos, na bovinocultura leiteira e na industrialização do leite. Assim, aproveitando o conhecimento dos cursos da Coamo, ela começou a transformar o produto em queijos, requeijão e doces, agregando valor à produção e mais dinheiro no bolso da família.

E a vida deles mudou, para melhor. Dona Maria prepara os produtos e ela mesma visita as clientes da cidade, entregando queijos à domicílio. “Também participo da feira na cidade, o que ajuda a divulgar bem os nossos produtos”, ressalta. “Nosso lucro varia entre 20% a 30% dos resultados com a produção de leite. É uma renda que ajuda a complementar a nossa renda, garantindo, inclusive, a cobertura de alguns custos da lavoura”, concluem.