Opinião

Editorial:
Safra de confiança e participação

Engenheiro agrônomo José Aroldo Gallassini, diretor presidente da Coamo

Estamos encerrando com muito sucesso a safra de verão 2001/2002, registrando o recebimento dos maiores volumes de soja da história da Coamo, além de uma expressiva participação dos nossos cooperados, movimentando milhões de toneladas nos diversos entrepostos da cooperativa. Uma safra que apresentou altas produtividades nas lavouras de soja e milho de um grande número de cooperados. Mas, infelizmente, tivemos também um período de estiagem que durou cerca de 60 dias em algumas das nossas regiões e que trouxe muitos prejuízos para as lavouras de milho safrinha, estimados em mais de 50% da produção. Com isto, haverá falta de milho no mercado interno e como conseqüência, deveremos ter bons preços para o cereal, mas também aumento de custos para os avicultores e suinocultores. 

No geral, podemos afirmar que estamos terminando uma boa safra, marcada pela eficiência nos trabalhos da Coamo e da forte participação do nosso quadro social na entrega de milhões de toneladas de produtos nos entrepostos da cooperativa. Dentro do nosso planejamento estratégico, pensando em resultados cada vez melhores, estamos realizando investimentos significativos na nossa estrutura operacional visando melhor qualidade nos serviços e satisfação dos nossos cooperados. 

Com relação à comercialização, de maneira geral, os preços foram bons durante a safra. Dentro deste contexto, uma iniciativa bem-sucedida lançada pela Coamo que agradou aos cooperados nesta safra de verão 2001/2002 foi a disponibilização de contratos de soja com trava de dólar, modalidade que possibilitou a cobertura dos custos de produção. Os contratos foram operacionalizados com valores superiores aos preços do dia quando do fechamento das operações. 

Pelo sucesso alcançado, acreditamos que esta modalidade de comercialização, com opção de trava de dólar, deve continuar a ser feita caso o dólar esteja em bons patamares e exista oportunidades para a sua realização. Porém, é importante ressaltar que a decisão de comercialização deve ser dos cooperados. 

O grande desafio dos cooperados está na necessidade de comercializar a sua produção pensando inicialmente em cobrir os seus custos de produção, e não para especular com o objetivo de ganhar o máximo nos preços. Desta maneira, com um bom planejamento e uma comercialização escalonada para o pagamento dos custos de produção, o que vier será excedente e lucro. O mesmo não acontecerá com especulações durante a safra, havendo a possibilidade dos produtores enfrentarem sérios riscos com a comercialização da produção a preços baixos. 

A regularização das chuvas está possibilitando o plantio da safra de trigo, que deve ser semeada na área de ação da Coamo dentro das previsões iniciais. Dentro do planejamento habitual, a Coamo está fornecendo o volume de sementes suficientes para o atendimento a demanda dos seus cooperados. Esperamos que a safra de inverno transcorra normalmente e que tenhamos uma boa safra. 

Por fim, manifestamos nossos agradecimentos a Deus pelas boas colheitas desta safra de verão. Agradecemos também aos nossos cooperados pela participação maciça na cooperativa, com abastecimento de insumos e entrega da produção. Os números expressivos desta safra consolidam a realização de um trabalho sério e profissional, fruto da confiança inabalável e grande coesão entre cooperados, diretores e funcionários, proporcionando assim, uma parceria de bons resultados, para satisfação de todos da família Coamo.

 

 

Ponto de vista:

Podemos sobreviver ao protecionismo?

João Paulo Koslovski(*)

Os últimos acontecimentos relacionados ao protecionismo colocam em cheque a expansão da liberalização do comércio e a própria globalização. Os subsídios atualmente concedidos aos produtores desses países distorcem completamente o mercado, derrubando os preços recebidos pelos produtores. Se o comércio agrícola for liberalizado, ficando livre da intervenção protecionista, as economias em desenvolvimento deverão ter um ganho de renda de US$ 150 bilhões até 2015. As demais economias deverão ter um benefício de US$ 100 bilhões até aquele ano, segundo estimativa do BIRD. 

Os gastos com a política agrícola chegaram a US$ 327 bilhões nos países do Primeiro Mundo, em 2000, segundo cálculo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse valor é maior que a receita de exportação agrícola dos países em desenvolvimento, naquele ano, que foi estimada em US$ 170 bilhões. Por conta do protecionismo, o Brasil perde cerca de US$ 5 bilhões por ano, sendo um dos maiores prejudicados por estas políticas, por exportar produtos como açúcar, soja, suco de laranja e carnes.

Algumas das razões para os tímidos avanços nas negociações para por fim ao protecionismo é que, na Europa e no Japão, os beneficiários do protecionismo agrícola continuam poderosos e influentes, logrando mesmo adicionar a suas fileiras o forte movimento ambiental e sua capacidade de arregimentação. Nos Estados Unidos, indústrias pouco competitivas sobrevivem sustentadas pelo uso abusivo do antidumping e pelos picos tarifários, reafirmando sua importância política em função de sua concentração regional. Nos dois lados do Atlântico, os sindicatos, revitalizados pelo governo democrata nos EUA, pelas vitórias dos socialistas europeus e pelo medo do desemprego, pressionam por cláusulas trabalhistas nos países em desenvolvimento - o que aumentaria os custos de produção, e pela proteção a indústrias tradicionais.

Depois das duríssimas discussões de Doha, onde se buscou estabelecer uma redução das políticas protecionistas, assistimos a vergonhosa "Farm Bill" (Lei Agrícola Norte-Americana), que aumentará os gastos governamentais no setor em 80%, correspondendo a US$ 82 bilhões nos próximos 10 anos. Essa Lei amplia e reintroduz subsídios em produtos agrícolas que vão do mel ao grão-de-bico. E para as principais commodities como o milho, a soja e o trigo são criados novos pagamentos relacionados a preços e produção, provocando grandes distorções comerciais que causam elevados prejuízos aos países em desenvolvimento, pois é no comércio agrícola que estes apresentam vantagens competitivas. Essa nova Lei contradiz tudo o que se pretendia após a rodada de Doha.

Para que o Brasil possa alterar esta situação no duro cenário de guerra comercial, é preciso tomar, urgentemente, uma providência: criar uma secretaria de comércio exterior, com status de ministério, para coordenar todas as negociações internacionais, compatibilizando os interesses dos diversos setores nacionais; evitando levar quatro ministros em cada reunião da OMC ou Alca, como em Doha. 

Também devemos reafirmar a importância estratégica do bloco no fortalecimento do nosso poder de barganha na arena mundial do comércio. Que a consolidação do Mercosul seja nossa resposta ao recrudescimento do protecionismo nos países desenvolvidos, servindo de exemplo de comércio desimpedido, fundamentado em bases justas e negociação franca.

Os países em desenvolvimento com forte atuação no setor agropecuário não podem ficar inertes, devendo se posicionar corajosamente contra esta verdadeira asfixia praticada contra aqueles que têm condições competitivas.

Questionar formalmente os subsídios e ações desleais de comércio deve ser a primeira ação do governo e da sociedade, a exemplo do trabalho que está sendo feito na soja, onde cinco entidades, entre elas a OCB, com a participação do governo, preparam argumentos para 
questionar, junto a OMC, os subsídios concedidos ao produto.

O Brasil precisa fortalecer cada vez mais a equipe que atua junto a OMC para, de forma organizada e com fortes argumentos, contestar as medidas que prejudicam o comércio dos países mais fracos. Para isso é preciso que mais vozes se somem aos reclamos do Brasil. 
Neste particular, o nosso país pode e deve liderar uma ação internacional que permita sensibilizar os países desenvolvidos em relação aos graves problemas econômicos e, sobretudo sociais que estão sendo causados pelas medidas discursivas adotadas junto ao comércio mundial.

(*) João Paulo Koslovski, engº agrônomo, presidente do Sistema Ocepar e Robson Leandro Mafioletti, engº agrônomo, analista técnico e econômico da Ocepar