NA ERA DA INFORMAÇÃO, OS ESPECIALIZADOS GANHAM
MAIS NA GESTÃO DA PROPRIEDADE RURAL. AUMENTAM A RENTABILIDADE
DOS NEGÓCIOS COM ESTRATÉGIAS SIMPLES. ADMINISTRAR
OS CUSTOS E GERENCIAR O TEMPO SÃO ALGUMAS DAS FERRAMENTAS
ESSENCIAIS PARA O SUCESSO DAS ATIVIDADES
O controle gerencial é uma ferramenta que vem ocupando
um espaço imprescindível na rotina de trabalho produtor
rural. É comum, hoje em dia, o agricultor estar sempre acompanhado
de uma agenda, onde anota todas as fases dos seus negócios.
Muitos deles, inclusive, descarregam as informações
no computador da fazenda. Assim, contabilizam despesas e receitas
em planilhas eletrônicas, com resultados cada vez mais precisos,
na busca de um ponto de equilíbrio para a sustentabilidade
da produção.
Este é o perfil do agricultor moderno, ou empreendedor rural
– um profissional adaptado aos novos tempos, de cotações
apertadas e lucro cada vez menor. O empresário rural aproveita
a era da informação para se especializar cada vez
mais na gestão do agronegócio, aumentando a rentabilidade
da propriedade rural com estratégias simples que visam, principalmente,
a redução dos seus custos.
Neste sentido,
já existe uma convenção entre os agricultores
que o caminho para o sucesso está na eficiência. “É
preciso tomar as decisões certas, no momento exato”,
orienta o presidente da Coamo, José Aroldo Gallassini. Para
ele, a velocidade com que tudo muda está obrigando a todos
os segmentos da cadeia produtiva a serem cada vez mais competitivos.
“Pequenos detalhes que às vezes passam desapercebido
se tornam fundamentais para o sucesso das atividades”, lembra.
O presidente da Coamo diz que o agricultor tem uma infinidade de
itens que deve analisar com mais precisão. “É
preciso que o agricultor também tenha em mente uma previsão
de plantio para os talhões da sua propriedade, para que vá
fazendo um escalonamento dos cultivos”, destaca. As decisões
devem ser tomadas também levando-se em conta as sinalizações
do mercado. “O produtor tem que estar atento a todos os fatores
que podem levá-lo ao sucesso”, enfatiza.
No aspecto econômico o presidente da Coamo lembra que existem
agricultores que faturam alto na atividade mas não sabem
onde e como foi aplicado o seu dinheiro. “Tudo deve ser levado
em conta e na ponta do lápis. E o melhor caminho para que
isso aconteça é através do trabalha conjunto,
entre o técnico que assiste a propriedade e o agricultor,
juntamente com a sua família”, ressalta.
PROFISSINALIZAÇÃO
E RIGOR – O engenheiro agrônomo Gustavo Sbrissia,
assessor técnico do Sistema Ocepar – Organização
e Sindicato das Cooperativas do Estado do Paraná, define
que diante dos preços em queda e do aumento nos custos de
produção o mercado exige profissionalização
e rigor dos produtores rurais no controle de custos e gerenciamento
das suas atividades. “Muitas vezes ao perguntar para o agricultor
como ele sabe se sua atividade está rentável ou não
a resposta é direta: ‘eu vejo a minha conta... se tem
dinheiro, a atividade está viável, caso contrário,
a coisa está ruim”, exemplifica.
Na opinião do técnico, hoje é fundamental o
produtor rural ter conhecimento de conceitos básicos de controle
de custos, como por exemplo os custos fixos, variáveis, desembolsos,
depreciação e custo de oportunidade. “De uma
maneira bem simplificada, os custos fixos são aqueles que
vão ocorrer independente da quantidade produzida, como a
mão-de-obra permanente; a depreciação de máquinas
e benfeitorias; as parcelas do financiamento e impostos. Já
os variáveis são aqueles que oscilam com a quantidade
produzida e são consumidos em um ciclo de produção,
como a compra de sementes e salário de empregados temporários”,
revela, acrescentando que geralmente o que o produtor ainda tem
um controle um pouco maior é o saldo de caixa, ou seja, aquela
diferença entre a receita e o desembolso que ele realizou
no ciclo da produção, ou aquele dinheiro que ele realmente
viu saindo do bolso. “É importante notar que os desembolsos
são apenas uma parte dos custos de produção.
E quem trabalha analisando apenas saldo de caixa, sabe apenas se
vai ter condições ou não de honrar com os compromissos
junto à cooperativa e a outros fornecedores, mas não
permite uma avaliação a longo prazo, se vai conseguir
renovar seu parque de máquinas e benfeitorias, pois não
considera os custos com depreciação”, destaca.
E com relação à depreciação,
Sbrissia diz que de uma maneira bastante simplista ela se refere
ao dinheiro que o produtor deveria guardar todo ano para substituir
seus bens quando tornarem impróprios para a utilização,
depois de vencida sua vida útil. “Geralmente poucos
produtores fazem essa reserva de capital e tem dificuldades na hora
de renovar suas máquinas”, salienta.
MAIOR RECEITA OU MENOR CUSTO? – Dentro do
gerenciamento de propriedades rurais há duas formas de aumentar
a lucratividade da cultura: aumentando a receita ou diminuindo os
custos. Para o assessor técnico da Ocepar, o crescimento
das receitas hoje está mais complicado, mas pode vir do aumento
da produtividade ou através do aumento do preço de
venda. “Se o produtor rural for bastante tecnificado dificilmente
consegue alterar sua produtividade sem ter aumentos sensíveis
nos custos”, enfatiza. “A outra maneira é conseguir
negociar melhor sua produção. Mas se tratando de commodities
somos apenas um tomador de preços”, complementa.
Já a redução dos custos, segundo ele, pode
vir através do aumento de escala, para diluir os custos fixos
e maximizar estruturas e máquinas, tomando cuidado para que
o aumento de escala também não resulte em um aumento
maior dos custos. “A outra forma de reduzir custos é
através da alteração do mix de produtos, ou
seja, a combinação de diferentes explorações”,
assinala.
DESPESAS SEPARADAS – Outra boa dica no gerenciamento
é não misturar as despesas da casa, com as do supermercado,
familiares e com as despesas da propriedade. “O colégio
dos filhos deve sair da renda da atividade, mas não fazer
parte dos custos de produção. Muitas vezes é
até interessante e facilita o controle ter contas de banco
separadas para as despesas pessoais e da propriedade. E um ótimo
começo é ter uma caderneta de anotações
e diariamente anotar as despesas da casa e da propriedade”,
completa.
Capital de reserva
A
família Castelli é um bom exemplo do sucesso
que pode significar a atividade agrícola bem administrada.
Cultivando 200 alqueires de área em Mamborê (Centro-Oeste
do Paraná), e outros dois mil nos estados da Bahia
e Goiás, os produtores sabem bem da importância
e têm comprovado que o gerenciamento eficiente é
o único caminho na busca por melhores resultados. “Sem
planejamento não existe condição para
lucro”, diz Venildo, um dos filhos de Ervalino Castelli,
o patriarca da família, ao revelar alguns dos segredos
que tem levado a propriedade a ser modelo na região.
Tudo começou com a reorganização da propriedade,
há 5 anos. Os Castelli implantaram um programa de qualidade
na fazenda e deram o primeiro passo rumo a melhor administração
do tempo e do espaço. A estratégia deu certo
e abriu caminho para as demais ferramentas de gerenciamento
rural. “Não ganhamos só em estética.
Também agilizamos nossas ações. Isso
possibilitou um novo ritmo ao trabalho, que hoje é
muito mais planejado, e por conta disso, os resultados são
mais estáveis”, assegura o cooperado Venildo
Castelli. Ele administra as áreas da família
junto os irmãos Rui e Nei, além dos filhos Eraldo
e Everaldo, e do genro Valdinei Castaldi. “Somos uma
empresa familiar com o foco voltado para os resultados. Por
isso, nossas ações são sempre direcionadas
para a eficiência”, destaca.
SINTONIA – Na fazenda em Mamborê
os Castelli mantém uma equipe de três funcionários,
que auxiliam nas atividades de campo. Os profissionais são
treinados para o máximo desempenho das funções.
As decisões de cultivo são tomadas em conjunto.
Antes entre a família e depois com o agrônomo
que assiste a propriedade. “O produtor deve estar em
perfeita sintonia com o seu técnico e definir com antecedência
o cultivo, sempre levando em consideração as
questões de rotação de culturas, diversificação
e rentabilidade da lavoura a ser implantada. “É
preciso fazer a lição de casa, pois essa é
a ponta de todo o processo”, reforça Venildo
Castelli.
CAPITAL DE GIRO – Os Castelli fazem
reuniões mensais para avaliar o desenvolvimento do
trabalho, tomar novas decisões e efetuar vendas. A
renda das propriedades é dividida em partes iguais.
“Fazemos questão, sempre, de manter um capital
de giro de 20% do resultado gerado no ano. É um recurso
que fica disponível para ocasiões emergenciais”,
revelam.
OLHO NO MERCADO – Entre as diferenças
aplicadas na propriedade pelo cooperado também está
a programação das vendas sobre a produção.
As informações do mercado são acompanhadas
de perto. “Diariamente procuramos saber como está
o mercado. E o próprio contato com a Coamo nos oferece
essa condição”, sustenta. O acompanhamento
do mercado, na opinião do cooperado, tem como propósito
principal o escalonamento das vendas da produção.
A produtividade na fazenda dos Castelli tem ficado acima da
média regional, nas últimas três safras.
A média da soja é de 140 sacas por alqueire.
No milho, 360 sacas por alqueire. E com o trigo, que é
a opção de cultivo de inverno do cooperado,
a média das últimas três safras é
de 90 sacas por alqueire. |

Agricultor tradicional em Manoel Ribas, região Central do
Paraná, o cooperado Albino Coltro é proprietário
de 250 alqueires de área. O forte da propriedade é
o plantio da soja, mas outras culturas e atividades também
ajudam a complementar a renda da família, como o plantio
de milho e feijão e a criação de gado de corte.
A soja rendeu nos últimos três anos uma produtividade
média de 130 sacas por alqueire, enquanto o milho 360 e o
feijão entre 85 sacas por alqueire. Na pecuária, são
150 cabeças mantidas, principalmente, em sistema de engorda
através de confinamento.
A primeira vista este poderia ser o perfil básico de um agricultor
comum, não fosse pela eficiência com que o cooperado
planeja as atividades da sua propriedade. Quando está plantando
ele já está pensando na safra seguinte. “Onde
a gente planta soja já sabemos que vamos cultivar milho no
próximo ano e, assim, tratamos de definir também a
cobertura que vai ocupar a área durante o inverno”,
conta.
Segundo ele, as vantagens do trabalho planejado está a possibilidade
de correr menos riscos. “A própria administração
do tempo já oferece uma segurança maior ao nosso trabalho.
Temos mais tempo para decidir os pontos importantes das realizações
das tarefas dentro e fora da propriedade”, valoriza.
15% A MAIS – Pensando sempre em melhorar
os resultados da fazenda, o Coltro investiu em treinamentos e especializou
a mão-de-obra. Também direcionou as atividades para
os próprios familiares, estabelecendo parcerias com dois
netos (Marcos e Rogério) e o genro Valdomiro Boiko. “Em
família podemos gerir melhor o nosso negócio, uma
vez que cada um cuida da sua tarefa e todos lucramos mais com isso”,
argumenta.
Com a estabilidade dos negócios, os resultados são
cada vez melhores. A família acredita que há uma rentabilidade
líquida de 15%, de tudo o que é desenvolvido na fazenda.
“As despesas são custeadas com o resultado bruto. Do
que sobra, reservamos uma parte para eventualidades e fazemos novos
investimentos”, aponta Coltro.
CONTROLE ELETRÔNICO – Na fazenda, o
computador vem sendo um grande aliado. Eridan Nogueira, neta de
Coltro, é a encarregada da nova função, que
começa a ganhar espaço. “Já encomendamos
programas específicos para os acompanhamentos das atividades
e também já providenciamos a instalação
da internet, para ficarmos por dentro das informações
de mercado e clima. Assim, estaremos mais globalizados”, comenta
Coltro.
“Um bom negócio começa
no papel”
A vocação empresarial do cooperado Laudino
Pancera, de Toledo (Oeste do Paraná), começou
muito antes dele se tornar agricultor. Os primeiros passos
nos negócios foram dados em uma empresa do ramo madeireiro,
onde Pancera iniciou a sua vida profissional como mirim e
chegou a ser gerente. “Foi um período de grande
aprendizado, quando termos como controle de custos, planilha
orçamentária e previsão de investimentos
passaram a fazer parte do cotidiano de Pancera.
A experiência acumulada com as funções
gerenciais ele trouxe para a propriedade rural, a sua nova
profissão, no início da década de 70.
“Sempre administrei a minha lavoura como uma empresa.
Com o planejamento das atividades e o controle de custos o
resultado não poderia ser outro senão o lucro
estabilizado. Assim, o crescimento do cooperado foi sendo
estabelecido. Primeiro em extensividade: saiu de 28 alqueires
e hoje 55 alqueires hoje; depois em verticalidade: ampliando
a produção das suas lavouras. Um exemplo é
a cultura da soja, que saltou de uma produtividade média
de 100 sacas por alqueire para 145 na média das últimas
três safras.
LUCRO
PRESUMIDO – O sucesso com a atividade agrícola
possibilitou ao cooperado e sua família uma melhor
qualidade de vida, que ele faz questão de manter até
hoje. “Minha família sempre está em primeiro
plano. É por isso que não abro mão de
administrar bem o nosso patrimônio, que é o solo,
porque é dele que sai todo o nosso sustento”,
destaca Pancera. Ele conta com orgulho que o estudo dos filhos
foi custeado com os resultados do sítio. “Não
é fácil manter o planejamento, mas estamos sempre
focados na gestão da nossa propriedade”, explica,
revelando que num ano em que não ocorram problemas
climáticos, o lucro bruto do sítio chega a 50%.
“A metade disso sobra líquido para a família
e a outra parte é direcionada para a manutenção
do parque de máquinas e a própria sustentabilidade
da propriedade”, contabiliza. “O gerenciamento
é uma necessidade do agricultor moderno. Principalmente
para aqueles que trabalham em escala e que não podem
se dar ao luxo de errar”, completa Pancera.
PLANILHAS – As anotações,
antes feitas pelo cooperado em um pedaço de papel,
hoje são planilhadas eletronicamente. Com a ajuda do
filho Tarso, acadêmico de Agronomia, o gerenciamento
da propriedade é feito no computador. “Utilizo
o programa Ocepar Campo e os conhecimentos que adquiri durante
um curso oferecido pela Coamo”, conta Tarso, que está
se preparando para assumir a propriedade da família. |
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