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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 350 | Maio de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Gestão Rural

Eficiência não tem tamanho

A gestão do negócio torna o crescimento do empreendimento rural mais viável, fazendo com que fique forte para o enfrentamento de crises, estabelecendo uma melhor rentabilidade no mercado

Gestão. Uma palavra que tem como sinônimo o sucesso. Em sua essência, gerir significa administrar, gerenciar. Um conceito que apesar de ser empírico ao conhecimento humano, ainda é, para muitos, uma novidade.

No meio rural a gestão do negócio torna o crescimento do empreendimento mais viável, fazendo com que fique forte para o enfrentamento de crises, ou mesmo no dia-a-dia, preparando a propriedade para uma melhor rentabilidade no mercado. “A visão de que a competitividade está na cadeia traz benefícios aos elos, que em momentos de crise tendem a ajudar-se mutuamente”, argumenta o técnico Rudi Ricardo Scherer, do Detec da Coamo em Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná). Segundo ele, o agricultor moderno deve abusar desta ferramenta, principalmente nesse momento em que o setor rural passa por uma crise sem precedentes. “Fortalecer a gestão empresarial das propriedades rurais, independentemente do tamanho, é o grande investimento a ser realizado”, orienta.

Profissionalização – Hoje em dia, o produtor rural deve ter uma visão de empreendedor, seja dentro e fora da porteira. E a gestão é o caminho para esta profissionalização. Mas o segredo é saber explorar, além do planejamento da propriedade. “É preciso olhar na entrelinhas. Buscar aspectos que normal-mente não aparecem no planejamento e organização”, esclarece Scherer, alertando que os controles e metas devem estar bem claras no papel. “O ideal é aumentar o capital com o incremento de produtividade e não com a ampliação da área de cultivo. E conhecendo bem o nosso custo, saberemos quanto vamos receber de margem no final de cada safra. Isto é trabalhar com segurança, maximizando o efeito produtivo do solo e potencializando a produção, levando em conta todos os aspectos que possam influir para o resultado que esperamos, sejam eles físicos, químicos, biológicos, climáticos, políticos ou de mercado”, relaciona.

Tamanho não é documento – Num processo de gestão rural o fator que mais possui influência são horas trabalhadas. A quantidade de tempo que o produtor, o gerente ou o empregado da propriedade dispensa ao trabalho no campo é que vai definir o ganho. “Lógico que depende de fazer tudo certo no momento certo. E para auxiliar a tomada de decisões é que existem as ferramentas de planejamento, administração e gerenciamento da propriedade. Assim, com ações coerentes e acertadamente direcionadas, o produtor pode duplicar a rentabilidade e, dependendo do caso, até triplicar o seu ganho por área”, contabiliza o técnico da Coamo.

Anotações – A que ponto o produtor pode chegar para desenvolver adequadamente a gestão da propriedade rural? Para Rudi Scherer o primeiro passo é começar com anotações. Colocar no papel tudo que precisa ser feito e onde se quer chegar. “Assim, o negócio deixa de ser virtual e torna-se real”, diz, enfatizando que o produtor precisa construir a sua história de trabalho, que vai servir de base para a estruturação de um projeto bem sucedido de exploração da atividade.

Estas atitudes do produtor rural, que muitas vezes implicam numa mudança de postura dentro da propriedade, somam-se ao avanço da tecnologia de cultivo. “Por isso elas são cada vez mais necessárias. E isso tudo é para ontem, já que a agricultura é seletiva”, sustenta Scherer. Segundo ele, “o segredo é aproveitar o máximo de tudo, do clima, do solo, dos insumos, e saber usar adequadamente as informações que estão disponíveis no mercado”.

Manual de sobrevivência

Para agir diante do momento de crise, o Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e o Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, do Rio Grande do Sul, editaram um manual de sobrevivência do agricultor durante uma crise. De acordo com o manual, é importante ter ciência de que existem dois tipos de ações a serem tomadas: as preventivas (mais indicadas e efetivas, pois agem antecipadamente, não deixando o problema ocorrer); e as saneadoras (mais drásticas, agem em cima do problema existente, pois já se está sentindo os efeitos da crise).

A publicação revela que muitos empresários rurais, felizmente, já estão se dando conta de que para ter rentabilidade e competitividade, é indispensável que eles cumpram simultaneamente alguns pré-requisitos, como melhorar a qualidade dos produtos agrícolas; reduzir ao mínimo os custos unitários de produção; e aumentar ao máximo a receita obtida na venda dos seus excedentes.

Assim, de acordo com o manual, o homem do campo deve agir com gestão, para assegurar um bom controle financeiro, de tecnologia e qualidade, e comercial.

Gestão Financeira:

  • Controle as entradas e saídas de dinheiro
  • Controle os custos de produção
  • Planeje o uso da terra
  • Dimensione máquinas e benfeitorias

Gestão de Tecnologia e Qualidade:

  • Selecione tecnologias que aumentem a produção e reduzam custos
  • Acabe com os desperdícios implantando um sistema de qualidade
  • Evite o retrabalho
  • Use racionalmente a energia
  • Selecione mão-de-obra adequada
  • Proporcione um ambiente de colaboração
  • Tenha liderança e motivação, e valorize as competências da família

Gestão Comercial:

  • Mantenha-se informado para comprar e vender bem
  • Participe dos eventos técnicos como forma de agregar conhecimento
  • Aprenda sobre novas estratégias

Dados de 15 anos

O sítio Santa Terezinha, localizado na comunidade Placa União, em Peabiru (Centro-Oeste do Paraná) já foi bem menor do que é hoje. De 2,5 alqueires, há 27 anos, se transformou em 22, hoje, sendo 19 de planta. Um crescimento de quase 1000% que só foi possível graças a visão empreendedora do cooperado Aristides Gerônimo Fernandes. A estratégia adotada pelo agricultor não faz parte de nenhuma forma milagrosa. Ele usou e abusou de ferramentas de gerenciamento a administração rural que, de nome, desconhecia no início. “A gestão era feita, basicamente, pela intuição. Sabia onde queria chegar e fazia de tudo para alcançar cada objetivo, por menor que ele pudesse parecer”, conta o cooperado, sempre ao lado da esposa Tereza e do filho Claudinei, os dois braços no trabalho do sítio.

Sócio da Coamo desde 1980, o produtor ganhou da cooperativa, em 1998, um caderno para fazer as anotações sobre o andamento das atividades no sítio. Era o primeiro passo para a formação de um banco de dados sobre a propriedade, que hoje apresenta históricos sobre a produção e comercialização das safras, clima e temperaturas registradas na propriedade. “Tudo o que acontece aqui eu anoto neste caderno”, afirma Aristides Fernandes, mostrando o caderno já com as folhas amareladas. “Foi o caderno que eu ganhei da Coamo, quando ingressei no Projeto Colono e aperfeiçoei as minhas atitudes de gerenciamento rural”, agradece.

Gráficos preparados à mão – Além de planilhar as informações, levando em conta a data de plantio, o preço dos insumos, o custo de produção, o valor da mão-de-obra e a produtividade da cultura, o cooperado também aprendeu a elaborar gráficos de verificação. Eles refletem a realidade vivida a cada safra e surpreendem pela simplicidade. Como não possui computador na propriedade, a família prepara os gráficos manualmente. O resultado é uma grande lição de força de vontade e de empreendedorismo.

Os gráficos de precipitação pluviométrica são os mais coloridos. Eles contêm dados de 15 anos. E é através destes gráficos que o cooperado decide as melhores épocas de plantio no sítio, confrontando as informações com as características das cultivares e híbridos recomendados pela assistência técnica da cooperativa.

Fechando o caixa – Na última safra a colheita rendeu 358 sacas de milho 126 sacas de soja por alqueire. Quanto deste resultado é lucro? O cooperado sabe! Depois de fazer o balanço, a média do retorno financeiro, que varia de ano para ano, tem sido de 60% no milho e 50% na soja.

Segredo é não errar

Informação, para o cooperado Tercilo Pereira, de Campo Mourão, é a base de todo o seu trabalho. Quando a reportagem do Jornal Coamo chegou ao sítio de 27 alqueires mantido pela família, no distrito de Piquirivai, encontrou Pereira acompanhando, pela televisão, o fechamento da Bolsa de Chicago. Quem conhece bem o agricultor sabe que essa atitude é normal, porque para ele a propriedade é, na verdade, uma empresa produtiva e rentável. “Ser pequeno não significa ser ineficiente. Pelo contrário: temos que ser cada vez mais eficientes para nos manter na atividade. É por isso que não podemos abrir mão das ferramentas de administração e gerenciamento, porque quanto menos erramos, mais ganhamos”, argumenta Pereira.

A receita do cooperado, que também foi integrante do Projeto Colono da Coamo, é sempre fazer uma reserva para enfrentar os anos mais difíceis. “Dinheiro se consegue guardando e não ganhando”, ensina. Dentro desta filosofia, Pereira acrescenta que em época de crise é preferível perder um dedo do que a mão. “É preciso estar consciente disso, porque a agricultura é cíclica. No entanto, não se pode perder o foco do negócio e gerir com eficiência os setores que podem influenciar nos resultados finais da propriedade”, ressalta o produtor.

De olho no vizinho – Outra estratégia do cooperado é usar os vizinhos como parâmetro. “Se o solo e o clima são os mesmos eu não posso colher menos. E se isso acontecer vou fazer de tudo para não errar mais”, assegura.

As anotações fazem parte da realidade diária de Pereira desde que ele ganhou da Coamo um caderno e uma caneta. O banco de dados do produtor tem feito com que ele ganhe tempo nas decisões da propriedade e dinheiro, já que com as informações na mão ele economiza, inclusive, no custo de produção. No caderno estão arquivadas as informações de 13 safras.

Com o controle econômico das atividades, o agricultor sabe, exatamente, o que o quanto gasta para produzir. E como planta com recursos próprios, Pereira sabe bem quanto ganha. “A rentabilidade do sítio, numa média de dez anos, poucas vezes ficou abaixo de 100%, com uma receita líquida calculada em 9 salários mínimos por alqueire por ano”, comemora. Em anos bons, o cooperado chegou a ter uma rentabilidade bem maior. Como na safra 2002/2003, quando em 9 alqueires de soja ele colheu 152 sacas por alqueire. “Neste ano vendi toda a produção numa média de R$ 40,50 por saca, o que proporcionou um retorno de 375% sobre o capital investido”, salienta.

Monitorando informações – No sítio, o esquema de produção é dividido entre o cultivo da soja e milho, no verão, dentro do sistema de rotação. Os gráficos com informações da precipitação pluviométrica e temperatura auxiliam na tomada de decisões para o melhor momento de plantio. “Busco a informação onde ela está. Não fico esperando. Vou para a luta, porque quem está na chuva é para se molhar. E se for para me molhar não vai ser de graça. Tenho que tirar algum proveito disso”, conclui.

Olho do dono

Com a ajuda de um funcionário, o cooperado Daniel de Fabris, de Abelardo Luz (Extremo-Oeste de Santa Catarina), toca a propriedade de 62 alqueires. Logo na entrada do sítio uma referência ao nome dado à propriedade: Boa Vista. Um grande lago artificial, cuidadosamente decorado e cuidado dá as boas vindas aos visitantes. Já é possível perceber o capricho dedicado ao lugar. Sensação confirmada quando o cooperado começa a falar dos seus negócios. O tom entusiasmado de suas palavras indicam um apaixonado pelo que faz, revelando um agricultor que faz questão de gerir, ele mesmo, todos os negócios da propriedade.

“Acompanho tudo de perto. Nenhum parafuso é apertado aqui sem que eu esteja ao lado”, comenta, explicando que a estratégia não é apenas para o controle, mas para que ele se mantenha informado sobre todas as atividades do sítio. A soja e o milho são as culturas principais da propriedade. Elas dividem espaço durante o verão. E no inverno o cooperado planta trigo e aveia preta para cobertura. Ele ainda mantém uma pequena criação de ovelhas, que garante uma renda extra usada na manutenção da bonita casa que mantém no sítio, onde mora com a mulher, Dilce e os filhos Danieli e Fernando, que atualmente estão na universidade.

Profissionalismo – Filho de agricultores, Fabris conhece bem a atividade e, principalmente, como tirar o melhor proveito dela. “Desde que iniciei a minha carreira nesta profissão não abro mão de gerenciar a minha propriedade como uma empresa”, sustenta. Ele lembra de agricultores que começaram na atividade na mesma época e hoje estão fora do mercado. “A agricultura é altamente seletiva. Se não souber trabalhar com ela o único caminho é vender a propriedade”, destaca.

Com o gerenciamento na ponta do lápis, o agricultor mantém baixos os custos de produção. Assim, ganha em eficiência. A decisão de sair de arrendamentos inviáveis também contou pontos para Fabris. “Fiz as contas e decidi que não poderia pagar para produzir. Então decidi abrir das terras arrendadas e concentrar o trabalho no meu sítio, buscando verticalizar a produção”, assinala. O cooperado também não fez dívidas, o que tem assegurado a ele uma posição confortável neste momento de crise.

Comercialização – A grande sacada de Daniel de Fabris está no momento de vender a safra. Com os custos na mão, ele escalona as vendas e comercializa sempre com lucro. E mesmo com os atuais preços da soja, ele tem feito boa médias. Segundo o produtor, a rentabilidade da propriedade, contando com os resultados de uma safra normal, supera, facilmente, a casa dos 50% de margem.

Parceria – Sócio da Coamo desde que a cooperativa chegou a Abelardo Luz, em 1984, o cooperado faz questão de valorizar a parceria mantida com a cooperativa em todo este tempo. “A Coamo me dá segurança para fazer o que mais sei: produzir”, comemora. As médias registradas na propriedade do cooperado tem girado em torno de 120 sacas de soja e 420 sacas de milho por alqueire. O trigo tem rendido uma média de 100 sacas por alqueire.