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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 361 | Maio de 2007 | Campo Mourão - Paraná

Doenças da Soja

Ferrugem: Coamo reúne especialistas em evento inédito

Realizado pela Coamo, em parceria com a Syngenta, workshop padroniza informações para o controle da doença

Aos poucos o produtor rural vai familiarizando-se com uma das mais severas doenças da cultura da soja: a ferrugem asiática. A doença chegou ao Brasil em 2002, mas foi na safra passada que ela mostrou, definitivamente, todo o seu potencial destrutivo, em função de um clima favorável (alta umidade e temperatura – condições também ideais para o desenvolvimento da soja).

Diante da preocupação gerada em torno da condução da próxima safra, mais uma vez a Coamo sai na frente. Ao atualizar o seu quadro técnico sobre a doença, a co-operativa reuniu, em Campo Mourão, no Centro-Oeste paranaense, seis cientistas renomados no cenário agrícola brasileiro. Atuando em centros de pesquisa e universidades de diversos estados, eles contribuíram para a padronização das informações que serão preconizadas pela assistência técnica da cooperativa nas questões relevantes sobre o controle da doença no Workshop Ferrugem da Soja 2007, promovido pela Coamo com apoio da Syngenta. O evento reuniu, além dos pesquisadores, todo o quadro técnico da cooperativa, que é composto por 180 profissionais.

Objetivos – Com a exposição de resultados científicos sobre o comportamento da doença no campo, sobretudo na última safra, os pesquisadores fizeram importantes considerações técnico-científicas, que serão muito úteis na geração de posicionamentos locais e regionais. As informações serão utilizadas pela assistência técnica da Coamo no procedimento das recomendações de controles, preventivo ou curativo, dentro do manejo da lavoura de soja. “A ferrugem da soja é, seguramente, um dos grandes problemas que afetam a agricultura brasileira na atualidade, e os produtores rurais estão enfrentando e sentindo no bolso os prejuízos contabilizados nas últimas safras, em face do poder destrutivo da doença”, explicou o coordenador do evento Joaquim Mariano Costa, responsável pela Fazenda Experimental da Coamo.

Para o gerente de Suporte Técnico e Mercado da Syngenta, José Erasmo Soares, além de oportunizar o aprofundamento do tema, o evento também avaliou a situação atual da doença nas principais regiões produtoras e os impactos na última safra. “É importante destacar o privilégio de contar com os mais renomados pesquisadores brasileiros sobre o assunto”, valoriza Soares, acrescentando que entre as propostas do encontro esteve a forma de como a assistência técnica vai olhar a ferrugem, daqui para frente. “As informações geradas a partir desde evento ajudarão na definição de controles mais eficientes e racionais, tomando por base, principalmente, a prevenção”, constatou.

Caminho certo – “Por tudo que vimos e sentimos de toda a equipe técnica e dos pesquisadores, o workshop foi um evento dos mais importantes que já realizamos”, aponta o gerente de Assistência Técnica da Coamo, Nei Leocádio Cesconetto. Ele diz que as informações geradas no encontro confirmaram que a cooperativa sempre esteve no caminho certo, na orientação do seu quadro social. “Hoje não temos mais dúvidas de como manejar essa doença no campo. E estamos muito felizes por ver que a maioria das condutas, e as mais importantes, nós já vínhamos fazendo. Desta forma, quem ganha, mais uma vez, são os nossos cooperados, que terão um suporte técnico ainda melhor, com relação ao manejo da ferrugem, que é o principal problema no sistema de produção de soja também na região da Coamo”, conclui Cesconetto.

Informação padrão

Quando se fala em doenças, especialmente da ferrugem da soja, nenhum controle é tão exato a ponto que se possa garantir uma unanimidade das informações. Sendo assim, a presença dos pesquisadores no workshop da Coamo serviu para estabelecer um consenso, suscitando uma padronização nas informações que serão preconizadas pelo Departamento Técnico da Coamo nas próximas safras. "Doravante, temos as maiores probabilidades de fazer uma recomendação ainda mais acertada, com relação ao controle da ferrugem", afirma Joaquim Costa, revelando que durante o encontro foram analisadas 50 questões com as principais dúvidas da assistência técnica e dos produtores rurais no campo.

Para o agrônomo da Coamo, a preocupação maior para o controle da ferrugem está relacionada com o número de aplicações do fungicida e com o momento certo para a realização da pulverização. "No evento definimos, por exemplo, o conceito de aplicação preventiva - sem a presença visual da doença, e curativa - quando a doença aparecer a nível de campo", explica Costa. Geralmente, o controle preventivo é o mais indicado, mas o curativo também é possível de ser realizado. "A decisão vai depender do risco que o produtor deseja correr, lembrando que no tratamento curativo as chances de perder o "timing" da primeira aplicação são grandes", alerta o técnico.

Primeira no florecimento - Levando em conta o conceito de aplicação preventiva, a indicação dos técnicos da Coamo é que os produtores rurais façam a primeira aplicação do fungicida quando a lavoura de soja estiver no florecimento pleno, caso não seja constatada a presença da doença. "O Detec da Coamo já vinha preconizando esta recomendação", lembra Costa, salientando que se a doença aparecer antes deste estágio o produtor deve optar, então, pelo tratamento curativo. "O mais importante é manter um bom monitoramento da lavoura para não errar na primeira aplicação", alerta.

Os experimentos feitos na última safra pela Fazenda Coamo indicam que o controle é inviável com apenas uma aplicação do fungicida. Segundo Costa, "houve casos que foram feitas até três aplicações", revela. "No entanto, foi indispensável fazer, pelo menos, duas aplicações durante a safra", completa o agrônomo, prevendo que se o clima da nova safra se comportar com o da última o produtor já deve planejar, no mínimo, duas aplicações.

Encontro de fitopatologistas
 

  • Dauri José Tessmann, professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná;
  • Carlos Alberto Forcelini, professor da Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPR), no Rio Grande do Sul;
  • Fabiano Victor Siqueri, pesquisador da Fundação MT, no Mato Grosso;
  • Luis Henrique Carregal, professor da Universidade de Rio Verde (URV), em Goiás;
  • Claudia Vieira Godoy, pesquisadora da Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná;
  • Ricardo Balardin, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul.
 

Perdas com ferrugem

Levantamento do Departamento Técnico da Coamo aponta que as perdas com a ferrugem da soja chegaram a 10%, na safra 2006/2007, mesmo com tratamento. Os cooperados efetuaram uma média de 2,25 aplicações de fungicida para o controle da doença. No Brasil, segundo a Embrapa, os prejuízos somaram US$ 2,19 bilhões em 2006/07, ante US$ 2,12 bilhões no ciclo anterior.

Principais conclusões

Os resultados da pesquisa

Os fitopatologistas presentes ao Workshop Ferrugem da Soja, promovido pela Coamo com apoio da Syngenta, trouxeram para o evento as suas experiências e os resultados dos trabalhos conduzidos na última safra de verão. Os dados foram apresentados e depois debatidos entre o quadro técnico da cooperativa, levando em conta as formas de enxergar e prevenir a ferrugem no campo.

Administrar riscos – O professor Dauri José Tessmann, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Noroeste paranaense, defende a corrente de que o técnico, juntamente com o produtor rural, deve levar em conta o risco/benefício do tratamento, seja ele preventivo ou curativo. Ele alerta que o curativo tem um risco maior de dar errado, já que depende de um monitoramento bem feito, para não entrar com o controle muito tarde e, assim, reduzir a eficiência do controle.

O pesquisador apresentou os dados de um trabalho demonstrado durante o encontro de co-operados da Coamo, neste ano, onde a cooperativa também fez uma comparação sobre o número de aplicações do fungicida. “Concluímos que o número ideal de aplicações, dependendo do comportamento do clima no ano, é de, pelo menos, duas. Uma terceira aplicação é economicamente viável em áreas com bom potencial produtivo”, afirma.

Falhas nas práticas – Para o professor Luiz Henrique Carregal Pereira da Silva, da Universidade de Rio Verde (URV), em Goiás, as falhas nas práticas culturais estão entre as maiores vilãs no estabelecimento de prejuízos com a ferrugem da soja. “Em Goiás, elas estão relacionadas com a ‘desobediência’ do vazio sanitário; a falta de eliminação da soja tigüera; o atraso no momento da primeira aplicação; as aplicações calendarizadas; a um intervalo muito longo entre a primeira e a segunda aplicação; ao uso de produtos ineficientes; ao plantio muito tardio; à rotação de culturas; e até a falhas de aplicações aéreas”, aponta o pesquisador.

Carregal defende a prática do vazio sanitário no controle da ferrugem. Ele lembra que em regiões onde os produtores desobedeceram a prática as ocorrências foram as mais graves do estado. “Os vizinhos desses agricultores ‘desobedientes’ fizeram números excessivos de aplicações e a produtividade das lavouras foi muito baixa. Tivemos áreas com cinco e até seis aplicações e uma colheita bastante reduzida, em alguns casos 25 a 28 sacas por hectare”, lamenta.

Aplicações calendarizadas – A Embrapa Soja, de Londrina (Norte do Paraná), coordena o Consórcio Anti-Ferrugem no Brasil e tem uma posição contrária à calendarização das aplicações. A pesquisadora Claudia Vieira Godoy lembra que a recomen-dação do consorcio é para o monitoramento. “O grande problema destas aplicações é que como a ferrugem é uma doença que pode entrar a qualquer momento (estágio) da planta, o produtor pode perder o momento de aplicação ou aplicar sem necessidade”, sustenta. “Ficar de olho na presença de focos pode fazer toda a diferença no sucesso do controle da doença, já que o fungo da ferrugem se dissemina muito rápido, por causa do vento e das condições climáticas”.

Para a próxima safra, o consórcio está implementando um vazio sanitário (90 dias sem soja na entressafra) que abrange todo o Brasil, para tentar reduzir os focos iniciais da doença. “Mas quem vai dizer se a ferrugem vai ser agressiva ou não na próxima safra é o clima. Por enquanto, os modelos de previsão mostram um ano com La Nina, que é um pouco mais seco. Mais ainda é preciso saber se isso vai se confirmar”, adianta.

Ferrugem sim, mas com produção – “Já que a ferrugem e a soja gostam das mesmas condições de clima, eu prefiro controlar a ferrugem, que vem com a chuva, do que o oídio, por exemplo, que está associado a seca e que compromete o rendimento da cultura”. A afirmação é do pesquisador Carlos Alberto Forcelini, da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. Ele diz que embora a ferrugem seja uma doença muito destrutiva, o controle dela não é tão difícil. “O mais importante é acertar a época em que ele é feito, porque o início do tratamento é vital para ter um sucesso na cultura”, orienta.

Forcelini também atenta para o monitoramento da lavoura para avaliar a necessidade de um eventual controle antecipado, antes da floração. “Mas caso a lavoura chegue na floração e não se perceba a presença da doença, é recomendável que o produtor faça uma aplicação, assim mesmo, porque esse tratamento também vai ser útil para outras doenças da soja, além de prevenir a entrada da ferrugem. A segunda e a terceira aplicação vai depender da pressão da doença”, resume.

Cobertor para a planta – O pesquisador Fabiano Victor Siqueri, da Fundação MT, no Mato Grosso, diz que a informação que o produtor tem a sua disposição é o grande cobertor da planta. “A ferrugem é uma doença que não admite erros. E um dos pontos principais é o momento de aplicação, que deve ser feito na fase reprodutiva para proteger a planta”, esclarece.

Segundo Siqueri, “o sucesso do controle da ferrugem está sustentado por três pilares: o momento da aplicação; a qualidade da aplicação; e o produto, já que não adianta fazer bem as outras duas coisas e ter um produto que não funcione”. Ele alerta que a ferrugem é uma doença que tem que ser controlada dentro do manejo. “Temos que pensar no controle da doença desde o plantio da lavoura, partindo do pressuposto que se você plantou na época correta, com variedade que seja produtiva, deu condições para ela produzir, é desejável que se faça o controle preventivo”, ensina.

Quando há perda do timing, o pesquisador orienta que a aplicação deve ser feita tão logo for possível. E como a doença vai ser controlada de uma maneira mais tardia, a indicação é de que aja um monitoramento ainda maior e uma diminuição do tempo entre a primeira e a segunda aplicação. “O ideal é repetir a aplicação em até uma semana, para evitar dar tempo para a doença se proliferar”, ressalta Siqueri.

Tecnologia de aplicação – Para o professor Ricardo Balardin, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, o principal ponto do controle químico é a tecnologia de aplicação. “O trabalho de pulverização tem que ser realizado num contexto em que arquitetura de planta, espaçamento, número de plantas e época de semeadura, que são fatores importantes a serem considerados, uma vez que o que visa a aplicação de gotas no alvo”, explica.

Para o pesquisador, a assistência técnica é quem vai determinar a eficiência do controle. “Mas é preciso tomar cuidado com o que vai ser remendado, para não orientar erradamente. Por isso, eventos como este, promovido pela Coamo, são fundamentais para a estruturação de uma proposta de suporte técnico que seja adequada não só para a cooperativa, como também para os seus associados”, valoriza.

Sobre o manejo de doenças, Balardin afirma que, de maneira geral, se trabalha preventivamente. “O que difere é a maneira com que cada uma delas progride, a taxa de agressividade, e isso faz com que aja necessidade de diferentes modos de manejo. E no caso da ferrugem temos que trabalhar preventivamente por causa da necessidade que ela encontra para se multiplicar, principalmente sob condições de clima favoráveis. É melhor o produtor desperdiçar uma aplicação do que ele ter comprometido um porcentual da sua lavoura por conta da doença”, admite.