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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 348 | Março de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Opinião

Editorial:

A grave crise no campo

ENGENHEIRO AGRÔNOMO JOSÉ AROLDO GALLASSINI, DIRETOR-PRESIDENTE DA COAMO

"A estiagem, a desvalorização cambial e os altos custos de produção na agricultura, a febre aftosa e a gripe aviária, estão tirando o sono de milhares de produtores e provocando grandes prejuízos"

Diferente dos anos anteriores, que registraram boas safras e preços, enfrentamos atualmente um dos períodos mais difíceis no agronegócio brasileiro. A es-tiagem, a desvalorização cambial e os altos custos de produção na agricultura, a febre aftosa e a gripe aviária, estão tirando o sono de milhares de produtores e pro-vocando grandes prejuízos.

Em face desta grave situação, há muito estamos, em nome dos nossos 19,6 mil cooperados, junto com a Ocepar e lideranças do setor produtivo, reivindicando e buscando soluções junto as autoridades para resolver essa crise da agricultura, considerada a pior das últimas décadas. Estamos participando inten-samente desta mobilização da agricultura paranaense através de reuniões e audiências junto as autoridades, deputados, sena-dores e o governo (ministros da Agricultura, Planejamento e Fazenda) com apresentação de medidas emer-genciais para a superação deste momento difícil e indesejado pelo qual está pas-sando a nossa agricultura.

Recentemente, no dia 28 de março, estivemos em Brasília junto com o presidente da Ocepar em audiência com autoridades do governo reivindicando urgentes medidas para amenizar a crise da agricultura. Dentro do pacote de medidas consideradas emer-genciais (leia na página 3) entre as mais impor-tantes que plei-teamos, estão a prorrogação das dívidas de custeio das safras 2004/05 e 2005/06 e a liberação de re-cursos para a comercialização da safra.

Porém, o que não está definido e deve ser anunciado pelo governo no início de abril são as normas desta prorrogação, ou seja, o que será prorrogado, qual o montante e o prazo. No tocante ao prazo, solicitamos ao governo uma prorrogação para 10 anos, o que atenderia as necessidades do setor dando alívio aos produtores que hoje estão descapitalizados. O governo demonstrou estar sensível ao nosso pleito e como resultado esperamos que as medidas venham ao encontro das necessidades do setor.

Para se ter uma idéia da dimensão da crise e dos prejuízos enfrentados pelos agricultores, somente em função da estiagem, na safra 2004/05 houve perda de 6 milhões de toneladas no Paraná e na safra 2005/06 o prejuízo foi de 4 milhões de toneladas, o que agravou ainda mais a situação da agricultura no estado. Em faturamento, a crise do setor agropecuário em 2005 provocou uma perda de R$ 5,28 bilhões em relação ao ano de 2004.

Vivemos hoje uma crise marcada pela frustração de safra e frustração de preço. Os baixos preços praticados nas últimas safras são motivados pela taxa cambial desfavorável ao setor produtivo, ocasionando queda nos preços internos. Como conseqüência, os produtores estão endividados e sem condições de pagar as suas contas. A situação é tão crítica que mesmo que tivéssemos uma safra normal não sobraria recursos para quitação das contas da safra anterior.

Vamos aguardar e confiar nas propostas que o governo anunciará neste início de abril para que seja resolvida esta grave crise e que os produtores continuem as suas atividades e possam ter condições de retomar a sua capacidade de renda.

Ponto de Vista:

A crise também chega às cidades

JOÃO PAULO KOSLOVSKI, PRESIDENTE DO SISTEMA OCEPAR

E vai interferir no emprego e na renda da população. Mas, ainda há tempo para amenizar a forma como vai interferir nas nossas vidas. Depende da capacidade do governo compreender os mecanismos dessa crise e interferir de forma a reduzir seu impacto negativo. Cada dia de atraso na tomada de medidas torna a solução mais difícil. Mas, por que a crise vai chegar à cidade?

Porque falta implantar uma política agrícola com mecanismos que dêem segurança ao agricultor (seguro, crédito rural, preços de garantia), garantindo a renda mínima para a sua sobrevivência.

Hoje vivemos num cenário parecido com o de 1995, quando o setor viveu uma das maiores crises de sua história, com conseqüências graves no meio urbano, pois afetou drasticamente a produção de máquinas, equipamentos e outros insumos. A crise foi tão profunda que foram necessários vários programas para alongar as dívidas das empresas do setor que sobreviveram e também dívidas dos agricultores.

O que está acontecendo agora?

Perda, por causa de fatores climáticos adversos, de mais de 10 milhões de toneladas na produção de alimentos em duas safras; valorização de 39% do real frente ao dólar entre janeiro de 2003 a fevereiro deste ano; queda de 33% dos preços dos principais produtos agrícolas no mesmo período. Sem os mecanismos de proteção, o balanço é trágico: queda de 33,4% do poder de troca entre 2003 a 2005.

As conseqüências da crise começaram a ser sentidos ainda no ano passado, onde a participação do agronegócio no total das exportações brasileiras caiu de 40,4% em 2004 para 36,9% em 2005. É uma redução de 3,5 pontos percentuais. O crescimento do PIB brasileiro no ano passado foi de apenas 2,3%. É importante considerar que ainda não sentimos toda a intensidade dos reflexos da crise e que o saldo da balança comercial só tem sido positivo em função do superávit do agronegócio, alicerçado em compromissos já existentes.

A queda do PIB mostra, com clareza, o agravamento do período de dificuldades da economia brasileira, puxado pelo baixo desempenho do agronegócio em função das causas que apontamos. O desemprego na agricultura já começa a se apresentar como o grande drama para as cidades do interior. Pesquisa realizada pela Faep mostra que 35,59% dos agricultores entrevistados vai demitir trabalhadores.

Depois de viver um período de crescimento entre as safras de 2001 a 2004, tendo dado significativa contribuição para o superávit da balança comercial, agora o setor precisa da compreensão das autoridades para recuperar sua capacidade produtiva. O que pede não é privilégio nem benesse: um programa de renegociação das dívidas rurais dos agricultores sem condições de pagar de forma que não se acumulem as pendências vencidas ou vincendas neste ano. Precisa de recursos em apoio à comercialização para dar sustentação aos preços dos produtos, hoje comercializados abaixo do preço mínimo. Recursos para a implantação das lavouras de inverno e um seguro que garanta a renda da atividade rural.

No longo prazo é preciso buscar soluções para o endividamento rural, fazendo os ajustes adequados ao Projeto de Lei 5.507; estabelecer novos mecanismos de captação de recursos para o setor; implementar o seguro agrícola e cumprir com a política de preços mínimos.

Em síntese, o agronegócio precisa de instrumentos adequados para evitar a instabilidade e a insegurança que afetam a renda dos agricultores e que vem promovendo sua descapitalização. Se houver uma política agrícola que garanta a sua segurança, o agricultor retribuirá com a garantia de continuar produzindo alimentos para consumo e para ampliar sua participação na balança comercial brasileira.