A formação de palhada sempre foi um problema em regiões onde o clima na maior parte do ano é quente e seco, como no arenito, onde coberturas com aveia e azevém são de pouca adaptação ao clima, além de se decomporem muito rapidamente em função das altas temperaturas.
Mas uma tecnologia que já foi mostrada no Encontro de Cooperados da Coamo em anos anteriores, e vem sendo utilizada por produtores do Mato Grosso do Sul, por exemplo, com bons resultados, está mudando essa realidade. Novamente neste ano, os cooperados Coamo que participaram do Encontro na Fazenda, realizado de 4 a 11 de fevereiro, puderam verificar e comprovar os efeitos positivos da cobertura fei-ta com uma forrageira apropriada para climas mais quentes: a braquiára ruzizienses.
O agrônomo Alvimar Vergílio Castelli, do Departamento Técnico da Coamo, responsável pela estação que abordou o tema durante o encontro, diz que a tecnologia vem sendo testada há pelo menos três anos na fazenda experimental e demanda de grande atenção para a implementação. Segundo Castelli, a forrageira é plantada junto com a cultura do milho safrinha, de forma intercalada. “É um sistema muito moderno e que dá muita sustentação para o solo e também para a soja ou outra cultura que venha a ser implantada na sequência. Mas é preciso estar antenado com a assistência técnica para não errar, pois existem alguns ‘segredos’ que devem ser observados”, alerta o agrônomo da Coamo.
Ele explica que se a tecnologia for mal manejada pode derrubar a produtividade da cultura do milho em até 30%, em razão da natural competição entre as duas espécies por água, luz e nutrientes. Contudo, o agrônomo certifica que existem ferramentas para zerar esses riscos e ainda assim adotar a tecnologia com eficiência. O segredo, segundo ele, é fazer o plantio do milho primeiramente e só depois, de 10 a 15 dias, entra com a braquiária. “Outra alternativa é fazer o plantio simultâneo, porém, quando o milho e a forrageira emergirem faz-se um controle com herbicida para suprimir a braquiária sem que ela morra, e ao mesmo tempo evitando que ela compita com o milho”, esclarece Castelli, observando que existe uma série de fatores que são favoráveis acerca do plantio da ruzizienses. Ele lembra que como toda tecnologia essa também precisa ser trabalhada, mas os resultados já são bastante satisfatórios. “Já observamos um incremento muito grande de palhada nesses primeiros anos e ao longo tempo essa matéria orgânica no solo vai ser extremamente benéfica para o sistema de produção como um todo”, diz, afirmando que também é uma técnica altamente eficaz para o controle de plantas daninhas como a buva.
ENTENDA – O milho e a braquiária emergem juntos, mas o cereal domina a área e depois da colheita a forrageira se espalha junto com a palhada do milho, formando uma grande camada de massa seca que cobre o solo por maior tempo, dando sustentação ao sistema de plantio direto.
O plantio de milho consorciado com braquiária ruziziensis é uma tecnologia destinada para recuperar solos compactados e degradados, o que ocorre tanto em solos arenosos como argilosos, que chegam a estas condições por falta de matéria orgânica, e têm a capacidade de concentração de água e a produtividade reduzidas.
A pesquisa indica que a tecnologia permite, através do sistema radicular da forrageira, uma injeção grande de carbono a matéria orgânica. O que vai limitar o uso do consórcio é o clima. “A exemplo do milho essa espécie de forrageira é sensível ao frio, mas tem uma grande vantagem de agregar ao sistema a possibilidade da produção de carne através do pastoreio dos animais, quando a cultura do milho for retirada”, lembra o agrônomo Sérgio José Alves, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Ele afirma que esta é uma forma de capitalizar mais o produtor, tendo ainda uma melhoria nas condições físicas do solo.
CULTIVO – A tecnologia consiste no plantio da braquiária ruziziensis no intervalo da cultura do milho. A forrageira pode ser semeada junto com o cereal ou logo depois, dependendo o objetivo do produtor. A primeira opção é semear a braquiária após a colheita da soja e ter o pasto mais cedo, ou junto com o milho. Desta forma o pasto só estará pronto quando a cultura for colhida. Após a colheita do milho, entre 15 ou 20 dias, os animais já podem ser colocados na área para o pastejo, o que significa o produtor conseguir produzir carne em uma época em que praticamente ninguém tem pasto, além de colher milho. “O ideal, e que nós estamos indicando, é que o produtor opte por alternativas, fazendo parte da área com milho e braquiária consorciados e outra somente com braquiária para ter pastos mais cedo e mais tarde. Quanto mais diversificar, maior a probabilidade de não ter prejuízos”, orienta.
CUIDADOS – Apesar de ser uma tecnologia eficaz e inovadora, o plantio do milho consorciado com a ruziziensis também é bastante técnico. Sem a orientação adequada ela pode trazer prejuízos para o produtor, em termos de perda de produtividade, ao invés de lucro. “Quanto maior o potencial de produtividade do milho, maior o prejuízo, por isso, é preciso estar consciente de que essa orientação deve ser bem feita e com profissionalismo e a Coamo tem um departamento técnico bem treinado a esse respeito”, sugere Alves.