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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 392 | Março de 2010 | Campo Mourão - Paraná

Rotação de culturas

Quando o todo supera a soma das partes

Sinergismo existente no esquema de rotação de culturas é fundamental para que uma planta ajude a outra a ter o seu melhor desempenho

A rotação de culturas também foi um dos temas apresentados em detalhes para os associados da Coamo durante o 22º Encontro de Cooperados na Fazenda Experimental da Coamo. Os produtores rurais tiveram acesso a in-formações históricas e aos resultados técnicos gerados dentro da unidade demonstrativa da cooperativa, que conduz o mais antigo experimento do Brasil em rotação de culturas. “São 25 anos de estudos para consolidar essa prática conservacionista que tem como foco central o desenvolvimento do sistema produtivo como um todo”, lembra o agrônomo da Coamo Gilberto Guarido, que co-ordenou os trabalhos da estação. Na prática, segundo ele, o esquema junta todas as tecnologias disponibilizadas para a produção dentro de uma visão sistêmica que visa alcançar o máximo do potencial das plantas. “É um verdadeiro sinergismo, onde uma planta ajuda a outra a ter o seu melhor desempenho”, compara.

ESTABILIDADE – Os resultados práticos a partir do trabalho com rotação mostram que os melhores rendimentos das lavouras estão em áreas onde há rotatividade de culturas. O pesquisador da área de Manejo do Solo e da Cultura da Embrapa Soja, Júlio César Franchini dos Santos, explica que nos sistemas integrados de produção há melhor aproveitamento da infra-estrutura das propriedades, com intensificação do uso da terra e diversificação de produtos. De quebra, essa interação, segundo ele, ajuda a reduzir doenças, problemas de compactação do solo, manejo de plantas daninhas, melhora a qualidade biológica do solo. “Tem um conjunto de melhorias no sistema que faz com que ele seja estável, mesmo em condições adversas. Então, quando o produtor possui um bom manejo do solo ele funciona como um seguro, dando garantia de produtividade e manutenção da renda”, assegura.

BOA ACEITAÇÃO – A pesquisa considera satisfatório o nível de aceitação da tecnologia de rotação de cultuas no campo. “O que ainda limita a adoção da prática, pelos produtores rurais, é a falta de planejamento”, acentua Guarido. No entanto, segundo ele, a tecnologia já provou que dá resultados positivos. “Os agricultores estão mais bem informados, hoje em dia. E sabem que dentro de um sistema há uma grande diversidade de variações, principalmente de solo e clima. No entanto, para todas as regiões existe um esquema de rotação desenvolvido e adaptado”, garante o técnico da Coamo.

SALTO NA QUALIDADE – Para Franchini, o que de mais importante aconteceu nesses 25 anos de pesquisa dentro do sistema de rotação de culturas foi a melhoria da qualidade do sistema de plantio direto. “No início tinha dificuldades com as máquinas e depois veio a necessidade de se ter cobertura do solo. E isso foi uma as grandes contribuições. Com cobertura é possível dar proteção ao contra a erosão, manter a temperatura e facilitar o manejo de plantas daninhas”, sustenta. Para ele, a aveia preta é, hoje, a principal opção para cobertura do solo, dentro de um sistema de rotação de culturas. No entanto, também existem outras opções.

Coamo tem ensaio em rotação de culturas mais antigo do Brasil

Pesquisa comemora 25 anos do experimento com rotação de culturas, conduzido pela Embrapa Soja dentro da Fazenda Coamo, consolidando a prática conservacionista

Iniciado no dia 11 de abril de 1985, a partir de uma ideia da diretoria da Coamo que teve total apoio da Embrapa Soja, o projeto de pesquisa em Rotação de Culturas foi concretizado dentro de uma proposta de estudo dos ecossistemas rurais. O agrônomo e ex-pesquisador da Embrapa Soja, Celso de Almeida Gaudêncio, foi quem deu início e coordenou, a até bem pouco tempo, o ensaio implantado na Fazenda Experimental da Coamo. O projeto foi pioneiro no Brasil e balizou os resultados da pesquisa nacional, consolidando a importância econômica e ambiental dessa antiga prática conservacionista.

FILME – Gaudêncio, que por muitos anos esteve à frente da pesquisa na área de Ecologia e Manejo de Solos e Plantas, foi homenageado durante o 22º Encontro de Cooperados da Coamo, realizado de 2 a 9 de fevereiro, em Campo Mourão, pelos 25 anos do ensaio com rotação de culturas na unidade demonstrativa da cooperativa, considerado o mais antigo do país. “Passa um filme na cabeça quando faço uma cronologia de todo o trabalho desenvolvido com o tema aqui dentro da fazenda da Coamo”, revela o agrônomo.

Segundo Gaudêncio, o tema é muito antigo. A prática, na opinião dele, deixou de ter certa importância com o advento dos insumos modernos. “Resgatamos um pouco da importância da rotação de culturas com o pioneirismo da Coamo”, considera o ex-pesquisador.

FERRAMENTA BIOLÓGICA – Com a introdução de culturas de alto potencial no sistema produtivo, como a soja, a pesquisa percebeu que os cultivos muito contínuos, agravados pelo processo convencional de preparo do solo, indicavam problemas de diminuição da capa-cidade produtiva das plantas. “Foi aí que a rotação de culturas voltou à tona como uma ferra-menta biológica. Passamos a usar plantas que recuperavam e reciclavam nutrientes, que aumentavam a porosidade e a absorção de água pelo solo, que aumentavam a eficiência dos fertilizantes, e que podiam até racionalizar o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas” lembra Gaudêncio. Os efeitos positivos também foram sentidos, conforme esclarece o agrônomo, no controle de doenças, principalmente no sistema radicular, através da quebra do ciclo de pragas e plantas daninhas no campo. “Tudo isso foram efeitos que esse ensaio já produziu, melhorando sensivelmente a capacidade produtiva do solo, ampliando a produtividade das culturas e favorecendo a expressão do potencial máximo de cada planta”, resume.

SOLO POTENCIALIZADO – A rotação de culturas é sinônimo de palha no solo e, por essa razão, na opinião de Gaudêncio, foi fundamental para o sistema de Plantio direto. “As duas ações, juntas, potencializam os atributos do solo. O produtor passa a proteger o solo de duas formas: enquanto a planta está verde o sistema radicular está atuando na reciclagem e na aeração do solo; e quando ela se coloca no solo na forma de palha está sendo mineralizada, reciclando nutrientes que essas raízes enquanto verdes retiraram do solo. Isso é fantástico”, revela.

SEQUÊNCIA CERTA – O ex-pesquisador da Embrapa Soja diz que o sucesso da rotação é trabalhar com a sequência de plantas. “O conceito chave dessa prática é uma planta beneficiar a outra dentro do sistema produtivo. A soja, por exemplo, é capaz de beneficiar outras culturas em nitrogênio. Outras plantas, na capacidade de troca dos cátios e conforme a qualidade do solo, podem fazer com que os adubos sejam mais eficientes, com resultados mais duradouros”, esclarece Gaudêncio. Para ele, descobrir a sequência certa de culturas para uma boa rotação é o caminho do sucesso com a tecnologia. “Nesse sentido, a base é o planejamento. Essa decisão vai depender de uma série de fatores, que levam em conta as condições de clima e solo da região”, orienta.

APOIO – Celso Gaudêncio lembra que quando foi convidado para elaborar e coordenar a pesquisa em rotação de culturas dentro da Fazenda Experimental Coamo recebeu todas as condições para executar o experimento. “Isso me motivou ainda mais. E o entusiasmo da cooperativa foi fundamental para que os resultados fossem concretizados”, afirma. “Não precisava nem de palavras apresentar os resultados do trabalho. O próprio visual do experimento mostrava que a rotação de culturas era um caminho a ser seguido”, salienta. “Eu sinto que o projeto foi e continua sendo um verdadeiro laboratório. Vários pesquisadores fazem suas determinações e informam os resultados publicados a partir do trabalho desenvolvido aqui”.

SENTIMENTO – Para Gaudêncio, o sentimento que fica depois de tanta dedicação e trabalho é o de dever cumprido. “Qualquer um fica orgulhoso em ter o seu trabalho reconhecido. Eu não sou diferente”, valoriza. “Escrevi meu nome na história dos 40 anos da Coamo. Uma cooperativa que contribuiu muito para o Brasil, não só na produção de grãos, mas também com presença forte na economia do país. Pois, se hoje so-mos um país viável, devemos isso à agricultura”, elogia.

OPINIÃO: “Sistema de produção vegetal completa um quarto de século”

Celso de Almeida Gaudêncio – Pecuarista e experiente em ecossistemas rurais

“Ao comemorar 40 anos de serviços prestados aos associados, à produção rural e à economia brasileira, a Coamo comemora também a feliz iniciativa da diretoria, capitaneada pelo seu presidente, o Engenheiro Agrônomo José Aroldo Gallassini, de conduzir na Fazenda Experimental, a partir de 1985, um ensaio de longa duração em ecossistemas rurais.

A idéia foi lançada pela diretoria, em conjunto com o corpo técnico, e o ensaio idealizado por Joaquim Mariano Costa floresceu, revolucionando a forma racional de condução das lavouras.

A busca dos efeitos exercidos pelas espécies vegetais quando em rotação e o distanciamento da monocultura trouxeram, para abrangência da Cooperativa, uma nova forma de pensar, inspirada nos preceitos do enfoque sistêmico que explora justamente a contribuição que algumas culturas exercem sobre as outras, quando cultivadas em rotação. Esta prática mostra também que as inteirações decorrentes, nos seus múltiplos aspectos, melhoram a capacidade produtiva do solo, assim otimizando o potencial genético das cultivares comerciais.

As espécies usadas para cobertura vegetal melhoram, enquanto verdes, os atributos físicos dos solos, amenizando a falta de umidade em períodos secos e aumentando a eficiência dos fertilizantes aplicados nas lavouras.

Promovem também a reciclagem de nutrientes, a fixação do nitrogênio e o aporte de material orgânico, traduzidos pelo aumento da capacidade de troca catiônica, resultante da maior disponibilidade de bases no solo, na proximidade do sistema radicular, com efeitos em cascatas sobre o rendimento de grãos.

Ao aumentar a estabilidade produtiva em anos secos, a rotação proporciona maior renda aos produtores rurais no momento de menor oferta.

Na concepção dos sistemas de produção, os agentes biológicos apresentam-se fortes, isto é, o efeito da rotação de espécies vegetais usada pelo agricultor é de fazer inveja a qualquer ambientalista.

Mesmos quando a cobertura verde do solo não é adubada, os níveis reciclados de potássio, cálcio e magnésio são crescentes, demonstrando que os componentes naturais são importantes na melhoria da fertilidade do solo e no aumento exponencial da produtividade.

O uso da cobertura verde contribui, também, com o desenvolvimento do sistema radicular dos cultivos subsequentes, influenciando positivamente o controle das plantas daninhas e das doenças que afetam as culturas de grãos.

Os sistemas de rotação de culturas anuais podem ser associados às pastagens, no sistema de integração agropecuária (sistema misto lavoura-pasto) auxiliando inclusive no manejo das pastagens em sistemas de pastoreio racional intensivo frontal ou não.

Os resultados do ensaio iniciado em 11 de abril de 1985 ofertaram, nesse período, um elenco de sistemas que beneficiaram tanto os produtores rurais, como a economia brasileira e a valorização da terra, pelo aumento do potencial produtivo do solo, mostrando cabalmente que a tecnologia adotada pelo produtor brasileiro é impar e ambientalmente correta”.