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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 356 | Novembro de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Sustentabilidade

A magia dos “PEQUENOS”

Planejamento, diversificação, informação, tecnologia e trabalho, muito trabalho. Uma combinação de fatores que fazem o sucesso de muitos pequenos produtores rurais

A vida do pequeno produtor rural está longe de ser um truque de mágica. Mas é como se ele tivesse que tirar um coelho da cartola a cada dia de trabalho no sítio. Verdadeiros heróis da resistência, com os dois pés no chão, estes homens e mulheres deixam de lado a ilusão da produção de escala – possível apenas em grandes áreas, e, com várias “cartas na manga”, multiplicam o trabalho, com apoio incondicional da família, na construção de resultados cadenciados, porém, expressivos e duradouros. Considerados pequenos no tamanho das suas propriedades, eles são capazes de agregar amplo valor ao trabalho, o que os torna grandes em eficiência e passíveis de notoriedade.

É uma adaptação aos novos tempos, onde a combinação de fatores como planejamento, diversificação, informação, tecnologia e muito trabalho, é fundamental para todos os seguimentos da cadeia produtiva. Sobretudo na pequena propriedade, que para se tornar sustentável necessita, fundamentalmente, de ações que transformem sacrifício e amor a terra em lucro, mesmo quando o resultado econômico é apertado.

Esta nova face do pequeno produtor rural abre caminho para uma realidade que é cada vez mais presente no campo: o conceito de sobrevivência agora extrapola a questão empírica e mergulha na onda da profissionalização, onde o que mais interessa é fazer render o pequeno pedaço de chão, mesmo que para isto seja preciso ganhar espaço até em sonho.

Fonte dos desejos – E quando se trata de sonhar, os pequenos produtores são grandes mestres. E eles nem precisam ir muito longe para materializar as conquistas. A maioria deles se realiza nas próprias terras da família. “Por que sair daqui? Este é o nosso campo, onde conhecemos bem as regras do jogo”, argumenta Afonso Sembarki, cooperado da Coamo há 20 anos. O sítio da família, localizado na comunidade Água da Fonte, em Farol (Centro-Oeste do Paraná) foi o berço de Sembarski. São 15 alqueires de área própria. Em dez deles o cooperado planta soja e milho no verão e aveia no inverno. Os cinco alqueires restantes são ocupados por pastagem perene, formada por capim brizantão. “Arrendamos outros dez alqueires, utilizados no cultivo de lavouras”, acrescenta Sembarski.

A agricultura tem sido o carro-chefe do sítio. Sem contar a estiagem ocorrida nas últimas três safras, que reduziu consideravelmente as produtividades das lavouras, as médias do cooperado sempre giraram em torno de 130 sacas de soja por alqueire. “O tamanho não nos impede de utilizarmos o máximo da tecnologia. E não poderia ser diferente. Senão, dificilmente seríamos eficientes”, destaca Sembarski.

“Na pequena propriedade existem mais dificuldades, sempre. Mas, qualquer que seja o tamanho da propriedade, se não tiver opções de renda, os resultados não aparecem. Por isso, diversificar é a grande saída. Dá mais trabalho, mas partindo do princípio que só se ganha dinheiro trabalhando, este é o caminho”, orienta o técnico Rudi Ricardo Scherer, do Detec da Coamo em Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná). E a diversificação está presente no sítio do cooperado Afonso Sembarski, através da bovino-cultura leiteira. A atividade foi incorporada no sítio há dez anos, como forma de ocupar a mão-de-obra da família e agregar maior renda.

Salário atraente – Com o leite os Sembarski praticamente mantêm as despesas da casa. Todos os meses eles embolsam uma renda líquida de seis a sete salários mínimos. O que começou com apenas três vacas, financiadas com apoio da Coamo, hoje se transformou num grande negócio. “É uma atividade que consome todo o nosso tempo. O que é muito bom, porque sempre temos serviço no sítio”, salienta dona Neide, esposa do cooperado Afonso Sembarsaki, que coordena o trabalho no curral, junta-mente com o filho Vitor. Hoje, a família possui um plantel com mais de 50 animais, sendo que 20 vacas estão em lactação. A produção média diária de leite é superior a 400 litros.

Durante o inverno, os animais pastoreiam as áreas de aveia. “Assim, as duas atividades são exploradas de forma integrada, onde uma complementa a outra”, lembra Scherer. Neste processo, segundo o técnico, o trabalho da família tem papel preponderante para se chegar aos resultados. “A receita na pequena propriedade é sempre mais apertada. Então, temos que saber lidar com isso, e de uma forma eficiente fazer render aquilo que não é tão grande assim”, destaca o co-operado, lembrando que o apoio da cooperativa tem sido decisivo para o seu desenvolvimento pessoal e profissional. “Com a Coamo nos tornamos fortes. Ela faz com que as informações cheguem até a propriedade, através da assistência técnica, e nos proporciona a segurança e a certeza de estar-mos em casa”, comemora.

Cooperativismo democrático

As cooperativas baseiam-se em valores de ajuda mútua e responsabilidade, democracia, igualdade, equidade e solidariedade. Na tradição dos seus fundadores, os membros das cooperativas acreditam nos valores éticos da honestidade, transparência, responsabilidade social e preocupação pelo seu semelhante.

No Brasil são 6.791.054 cooperados, nos 13 ramos de atividade econômica do cooperativismo. Segundo a OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras, 81% das propriedades rurais brasileiras possuem até 100 hectares. Na região da Coamo, 80% dos cooperados são mini e pequenos produtores.

Segundo a Ocepar – Organização das Cooperativas do Paraná, a expressiva participação dos pequenos e médios produtores (área até 50 hectares) nos quadros sociais das cooperativas, representando 70% do total, evidencia a importância das cooperativas para essa faixa de produtores, que são normalmente os menos favorecidos.

Um aprendizado que se leva para a vida

Sem hesitar, o cooperado Valdecir Roberto Homiak, que possui a sua propriedade na região de Martinópolis, distrito de Farol, afirma: “aprendi a trabalhar com a Coamo”. Aos 13 anos, logo após o falecimento do pai, ele assumiu o sítio da família. “Na época, eu ensaiava os meus primeiros passos na agricultura, mas tinha que ajudar a minha família, de alguma forma”, lembra, contando que o sofrimento de todos foi amenizado pelo apoio da Coamo. “A cooperativa nos ajudou muito. Ofereceu-nos todo o suporte técnico e econômico, colaborando, em muito, para que eu adquirisse todo o conhecimento que hoje possuo para a condução das atividades no sítio”, valoriza.

Há mais de 20 anos como integrante do quadro social da cooperativa, Valdecir Homiak começou a trabalhar administrando o sítio de 16 alqueires da família. As lições do dia-a-dia no campo fizeram moldar no jovem agricultor um perfil altamente profissional. “Como o meu aprendizado teve base no sistema de gestão da Coamo, incorporei a filosofia dos “pés no chão e muito trabalho”, sem abrir mão dos avanços tecnológicos. Um aprendizado que se leva para a vida”, reconhece.

Visão e desenvolvimento – O fato de ser pequeno agricultor não limitou o desenvolvimento do cooperado. Com uma visão de grande empresário, Homiak busca explorar o máximo do potencial de produção das suas áreas. “Este é o caminho. O produtor tem que fazer o solo produzir, porque não adianta possuir grandes áreas e não ter eficiência. Esta condição faz a diferença no campo. É o que vai determinar o sucesso ou o fracasso da lavoura”, ressalta o técnico Claudinei Batista do Prado, do Detec da Coamo em Campo Mourão.

O cooperado, que hoje possui uma área de 50 alqueires (toda cultivada), conta que sempre buscou o desenvolvimento. “Estou sempre voltado para as informações. Procuro tirar o maior proveito possível dos encontros técnicos e das visitas que recebo dos profissionais da cooperativa em minha propriedade. Quando estou em casa também estou sempre buscando o conhecimento. E até mesmo durante o trabalho, pois no trator, na colheitadeira mantenho o rádio ligado, o tempo todo. Informação nunca é demais”, garante Homiak. “A participação do agricultor nas ações organizadas pela cooperativa é fator preponderante para o seu sucesso. Eles ganham o dia de trabalho, porque agregam conhecimentos para verticalizar a propriedade”, acrescenta Claudinei do Prado.

Resultados acima da média – As atitudes fizeram do co-operado Valdecir Homiak um agricultor profissional, com resultados altamente eficientes. Na região de Farol ele já foi eleito, por seis vezes, como agricultor modelo, com destaque para o planejamento, organização, eficiência e produção. Em anos considerados bons (quando a estiagem não afeta o desenvolvimento das lavouras), o produtor mantém uma produtividade média de 140 sacas por alqueires de soja, volume acima da média regional.

“Na construção da pessoa e do seu lado profissional é muito importante ter referências. E as minhas não poderiam ter sido melhores. Mas o ser humano tem que fazer a sua parte, no pessoal e no profissional, para garantir o seu completo desenvolvimento”, conclui o cooperado.

Viabilidade na parceria com o vizinho

Na pequena propriedade, tempo é dinheiro. E com a mecanização da agricultura, o tempo passou a ser decisivo para o sucesso do empreendimento. Na maioria dos casos o agricultor opta pela diversificação, para ocupar a mão-de-obra e a da família. Mas também existem os que negociam o tempo disponível, vendendo a própria mão-de-obra ou trocando serviços com os vizinhos. Assim, ganham mais dinheiro – ou deixam de gastá-lo, além de evitarem a manutenção de uma estrutura de máquinas e implementos na propriedade, racionalizando os custos fixos do sítio.

Este é o caso do cooperado Maurício Aparecido da Silveira, de Campo Mourão. No sítio de 19 alqueires, localizado na comunidade Rio 119, o trabalho no cultivo de lavouras mecanizadas (soja e milho, no verão; milho safrinha e aveia, no inverno), ocupa uma pequena parte do tempo do co-operado. O restante dele, de maneira inteligente, o produtor negocia com o seu vizinho, trocando serviços. “Faço o plantio e a colheita para o meu vizinho; em contrapartida ele me fornece a plantadeira e a colheitadeira para realizar o mesmo trabalho no meu sítio”, revela.

Silveira conta que chegou a trabalhar para outras propriedades, mas a parceria com o vizinho foi a melhor saída para garantir eficiência para o sítio. “Trabalhamos neste sistema há quatro anos, o que me permite racionalizar custos sem reduzir tecnologia”, afirma, considerando que ambos os lados acabam ganhando com a troca de serviços, porque o trabalho é padronizado. “Como sou eu que planto e colho as lavouras, posso garantir que o trabalho é feito com o mesmo capricho, tanto nas operações no campo quanto nos cuidados com o maquinário”, ressalta.

Pequeno grande mundo – Para o engenheiro agrônomo Luiz Carlos de Castro, do Detec da Coamo em Campo Mourão, pequenos produtores também têm que pensar como empresários. “Não se pode mais viver apenas nos limites do sítio. É preciso suplantar objetivos, com planejamento, e ser eficiente, independente do tamanho”, considera. Em áreas menores, segundo ele, esses conceitos devem ser mais bem elaborados, porque a rentabilidade ao longo dos anos, nas principais atividades, tem caído por área. “É aí que entra a questão da eficiência, porque na pequena propriedade o rendimento por área é menor e o controle de custos é maior”, analisa Castro.

A estrutura de máquinas que o cooperado mantém na propriedade se resume em um trator, um pulverizador e uma carreta agrícola. Com a troca de serviços com o vizinho, Silveira deixa de pagar pelos serviços de plantio e colheita das suas lavouras. “Na verdade, não só deixo de pagar como ganho com isso, porque uso meu tempo, que talvez estivesse ocioso, com a satisfação de estar sendo útil para mim e para outras pessoas. É muito bom”, destaca.

Tecnologia de ponta – Maurício da Silveira, que faz parte do quadro social da Coamo há 21 anos, sabe bem que a informação é a base para o sucesso de qualquer negócio. Assim, ele faz questão de participar dos eventos da cooperativa e abre espaço para discussões técnicas em torno das melhores opções para a sua propriedade.

Nesta safra, 30% da sua área está ocupada com o milho e o restante com soja, em sistema de rotação. A prática tem garantindo estabilidade na produtividade das lavouras. Em anos considerados normais têm girado em torno de 150 sacas por alqueire de soja e 350 de milho. “A grande saída para o pequeno produtor é fazer a sua área produzir. E para isso nós contamos com a Coamo”, finaliza.