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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 389 | Novembro de 2009 | Campo Mourão - Paraná

Produção Sustentável

Campo Mourão: Segundo município do país a implantar o sistema de plantio direto

Sistema é considerado a maior tecnologia já introduzida na agricultura, tornando o ambiente produtivo rentável e sustentável

O início dos anos 70 serviu de pano de fundo para as primeiras experiências brasileiras com o sistema de plantio direto. O Paraná, em especial, foi o precursor da tecnologia no país. O primeiro plantio de que se tem notícia foi feito em Rolândia, no Norte do Estado, pelo produtor Herbert Bartz, na safra 1972/73. Ele, que é considerado o “pai do plantio direto no Brasil”, foi aos Estados Unidos, conheceu e trouxe a técnica para o Brasil. Depois o sistema foi difundido e chegou a Campo Mourão na safra 1973/74, no Centro-Oeste do Paraná, através do agricultor Joaquim Montans, cooperado da Coamo. Assim, a tecnologia que revolucionou a agricultura está completando 36 anos em Campo Mourão, que foi o segundo município a implantar o Plantio Direto no Brasil.

O sistema de plantio direto surgiu frente à necessidade de tornar mais sustentável a produção agrícola, minimizando os custos com insumos e otimizando o aproveita-mento da área de plantio. E conseguiu. Perto de completar quatro décadas depois de implantada no país, a tecnologia é tida como a única alternativa para a sustentabilidade da agricultura. “Foi o grande acontecimento nos últimos dois mil anos de exploração agrícola. É o que a ciência agronômica ofereceu de mais importante até hoje, do ponto de vista biológico, químico e físico do solo”, resume o engenheiro agrônomo Joaquim Mariano Costa, responsável pela Fazenda Experimental da Coamo, em Campo Mourão, que acompanhou de perto o processo evolutivo do plantio direto no campo.

Com o plantio direto, o agricultor fecha o cerco contra os principais problemas que degradam o solo e, de quebra, ainda incrementa o sistema de produção, melhorando a produtividade e racionalizando os custos de produção. Dentre as vantagens do plantio direto estão a garantia de reduzir a lixiviação de nutrientes e da erosão superficial do solo, a manutenção da vida microbiológica do solo, a garantia de uma melhor atividade dos adubos químicos e de que todas as reações químicas no solo sejam bem sucedidas. Além da questão econômica, o sistema também consiste em reduzir o impacto ambiental causado pela agricultura.

No final da década de 70 já havia cerca de 10 mil hectares de cultivo direto na região de Campo Mourão. Mas foi a partir dos anos 80 que o sistema começou a deslanchar. “Em 1984 nós já tínhamos catalogado na região de Campo Mourão cerca de 60 mil hectares de lavouras em PD. Hoje, o sistema ocupa praticamente 100% das áreas de cultivo da região”, contabiliza Costa. Poucas tecnologias agrícolas têm experimentado um crescimento tão rápido em nível mundial como o plantio direto. E Campo Mourão foi uma das primeiras regiões do Brasil a implantar o sistema através dos agricultores Joaquim Peres Montans, Henrique Gustavo Salonski, Gabriel Borsato, Antonio Álvaro Massareto e Ricardo Accioly Calderari.

Os resultados com o PD foram validados e melhorados ano após ano. Um bom exemplo de incremento de produtividade com o uso desta tecnologia está na fazenda Santa Maria, de Joaquim Montans, propriedade que de lá para cá nunca mais teve suas terras aradas ou gradeadas. Em 1974 a produtividade era de 70 sacas de soja por alqueire e hoje a média gira em torno de 145 sacas de soja por alqueire. “O segredo é a continuidade do sistema. Não mexer no solo”, ensina Montans, que comemora: “essa evolução é um orgulho para todos nós e hoje com novas variedades, adubação verde, rotação de culturas e toda uma tecnologia a nossa disposição, sabemos que podemos aumentar ainda mais as nossas produtividades”.

TERRAS LAVADAS – Quem também se recorda bem daquela época é o engenheiro agrônomo Ricardo Accioly Calderari, diretor-secretário da Coamo. “O progresso foi tão grande nas últimas décadas que os agricultores mais novos sequer imaginam como eram os solos e a agricultura na década de 70”, diz. Os agricultores tinham, na época, duas grandes preocupações: precisavam de chuva, mas quando chovia, às vezes nem era chuva muito forte, as terras eram literal-mente ‘lavadas’ e tudo se perdia, incluindo a lavoura e o solo. “Se existe agricultura hoje é porque existe o plantio direto”, conta.

Após mais de três décadas depois de implantado, o plantio direto continua sendo comemorado pelos agricultores da região de Campo Mourão, safra após safra. Tranquilidade e agilidade no plantio, reserva de umidade no solo, menor custo de produção, maior segurança, germinação uni-forme, desenvolvimento das plantas em um mesmo padrão, tolerância ao veranico e, sobretudo a conservação dos solos, são as principais vantagens apontadas pelo cooperado Joaquim Montans. Ele já dizia isso em 1976, dois anos depois de encabeçar o plantio na região. E sua opinião não mudou. “O que tem de diferente, hoje, é que as idéias amadureceram e nos deu a certeza de que a continuidade no sistema é o único caminho para o sucesso do plantio direto”.

O PD e o sequestro de carbono

O sequestro de carbono é o processo de transformar o carbono do ar (dióxido de carbono ou CO2) em acumulações de carbono no solo. O dióxido de carbono é absorvido pelas plantas através do processo de fotossíntese, e transformado em material vegetal vivo. Quando as plantas morrem, suas folhas, caules e raízes que têm suas bases de carbono se deterioram no solo e se transformam em substância orgânica. Para aumentar o sequestro de carbono os produtores rurais podem utilizar diversas práticas, dentre as quais estão a produção sem revolvimento do solo (plantio direto); o aumento na intensidade da rotação de culturas, a manutenção de uma área de transição entre áreas protegidas e a lavoura; medidas de conservação para reduzir a erosão do solo, além de usar cobertura permanente no solo e fazer plantio de culturas que produzam mais resíduos, como milho, sorgo e trigo. Especialistas estimam que 20% ou mais das emissões de CO2 podem ser reduzidas através do seqüestro de carbono via agricultura.

Além de conservar e proteger o ambiente produtivo, a prática do Plantio Direto aumenta a matéria orgânica no solo em função de vários fatores, elencados pelo engenheiro agrônomo Ricardo Accioly Calderari. “O Plantio direto melhora a estrutura, a qualidade e a produtividade do solo através de substância orgânica, reduz a erosão, melhora a qualidade da água através da redução de erosão. O uso do plantio direto foi determinante para ampliar o potencial do nível de matéria orgânica no solo, por isso é que o sistema é a maior revolução da agricultura e do meio ambiente”, garante Calderari.