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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 388 | Outubro de 2009 | Campo Mourão - Paraná

Adubação de Sistema

Selfservice de adubo no solo

Minerais são disponibilizados no sistema de produção para serem aproveitados por todas as plantas presentes no solo e não apenas por uma cultura, isoladamente. Assim, a própria planta se encarrega de buscar no solo os nutrientes que precisa para se desenvolver e garantir produtividade. Um processo racional, sob o ponto de vista econômico e ecológico, capaz de manter o ambiente produtivo mais sustentável

Pontuar uma adubação química para a soja, outra para o milho e uma terceira para o trigo. Esta segregação pode estar com os dias contados. Isolar a aplicação dos minerais para uma cultura específica, sobretudo incorporando os nutrientes no sulco de semeadura, está se tornando uma prática cada vez mais descontinuada. A grande novidade do campo é a Adubação de Sistema. Um novo conceito que tem como foco o sistema produtivo como um todo, disponibilizando os elementos químicos de forma mais racional, levando em conta o equilíbrio da fertilidade. Um processo que se espelha na questão da racionalidade econômica e ecológica, e que busca a manutenção da sustentabilidade no ambiente produtivo rural.

Pensar e efetivar a distribuição do adubo para que os nutrientes sejam aproveitados, da melhor maneira possível, por todas as culturas que fazem parte do esquema de rotação adotado pela propriedade. Este é o principal objetivo da nova tecnologia, formada a partir da visão holística do processo produtivo. O professor-doutor Antonio Luiz Fancelli, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), considera que “adubar o sis-tema é enxergar acima a abaixo do solo”. Ele explica que tudo começa quando o produtor define, em parceria com a sua assistência técnica, um programa de rotação de culturas. “A partir daí, são determinados a utilização dos recursos necessários para o desenvolvimento de cada planta, o momento mais adequado que cada cultura vai se beneficiar dos nutrientes e a maneira com que cada uma delas vai responder dentro do sistema. Tudo dentro de um conceito de racionalidade de tempo e dinheiro, visando, acima de tudo, uma produção mais econômica e, ao mesmo tempo, sustentável do ponto de vista ambiental”, argumenta Fancelli.

ADUBO GUARDADO NA TERRA – O agrônomo da Coamo em Campo Mourão, Alvimar Vergílio Castelli, revela que boa parte das áreas que são assistidas tecnicamente por ele, adota a nova prática. “É uma forma de guardar o adubo na terra”, garante o técnico. “Assim – continua -, a própria planta se encarrega de buscar no solo os nutrientes que precisa para se desenvolver e garantir alta produtividade”.

O agrônomo da Coamo faz outra comparação quando se refere à Adubação de Sistema: “é como se o solo fosse um grande restaurante selfservice. Neste caso, a comida é colocada no solo, conforme a demanda para o equilíbrio da fertilidade, e a planta se serve dos nutrientes que ela necessita”, destaca Castelli.

NUTRIENTES POTENCIALI-ZADOS – Para Fancelli, muitas vezes, na adubação tradicional, o produtor rural oferece nutrientes que a planta não precisa. Desta forma, ele acaba jogando dinheiro fora, além de desperdiçar tempo de trabalho e não conseguir atingir os resultados desejados com a cultura, já que o adubo em excesso ou em falta pode reduzir o potencial produtivo das lavouras. Um exemplo, na opinião do professor, é o uso do cloreto de potássio, que possui um índice salino bastante acentuado quando utilizado no sulco de semeadura. “Diante deste fato, o produtor pode aplicar este elemento apenas uma vez no ano, garantindo cobertura para todas as culturas que fazem parte do seu sistema de produção”, orienta.

Outra característica importante, segundo Fancelli, é o uso mais eficiente do fósforo. O professor revela que trabalhos recentes de pesquisa mostram que é possível reduzir o uso deste elemento no sistema, por conta do aumento da eficiência da absorção do elemento por parte das plantas.

SUSTENTABILIDADE – No processo produtivo, há uma estreita relação entre a adubação de sistemas e a sustentabilidade da atividade agrícola. Esta interação, conforme explica o agrônomo da Coamo, faz com que o produtor aumente a eficiência na utilização dos nutrientes. Com isso, o agricultor tem a possibilidade de, ao longo do tempo, de reduzir a quantidade de adubo que seria usado na lavoura, por conta de uma disponibilização mais uniforme no solo, em função da maneira como os nutrientes são ofertados, e, por consequência melhor aproveitado pelas plantas. “Isto significa mais eficiência para o agricultor e para o sistema de produção. É a sustentabilidade no campo”, considera Castelli.

Antes de tudo, o equilíbrio da fertilidade

O ponto de partida para um projeto consistente de adubação do sistema é uma boa análise do solo. “Primeiro é preciso saber como está a fertilidade e, se necessário, equilibrar os nutrientes. Depois é só cuidar da manutenção destes elementos, evitando que o solo se desgaste a cada colheita”, orienta Castelli. O agrônomo também ensina que cada planta que emerge do solo é um indicador biológico de uma situação específica da presença ou não dos nutrientes no solo. “O colchão, a berneira e a mamona indicam falta de potássio; o rubin, solo extremamente fértil; o picão, bons níveis de potássio; a guanxumba, solo compactado; a tiririca e capim carrapicho, solos ácidos com deficiência de cálcio e magnésio, e com drenagem deficiente; e a buva revela falta biomassa (matéria orgânica), indicando que o solo está recebendo muita luz e aquecimento”, assegura Castelli.

VOLUME DE PALHA – O sistema também depende, na análise do professor Fancelli, da reposição contínua de resíduos, determinando um bom volume de palhada sobre o solo. “Ainda precisamos de estudos pormenorizados de como seria a liberação dos nutrientes presentes na palhada, por consequência da sua decomposição, para que tivéssemos fluxos adequados de ofertas de elementos para as plantas, no sentido de que, em determinados momentos, ela não tivesse dificuldade para encontrar o que precisa no solo”, esclarece.

E sobre a questão da presença de palha sobre o solo o técnico da Coamo, afirma que, quando descoberto o solo fica desprotegido. “Nestas condições o solo chega a perder até 750 milímetros de água por ano, pelo processo de evaporação. Com este volume de água é possível, por exemplo, cultivar duas culturas de trigo”, compara Castelli. Para o agrônomo, a cobertura evita o aquecimento do solo. “Dados da pesquisa oficial indicam que a planta absorve água do solo em até 33 graus centígrados. Em alguns solos, dependendo da hora do dia e da intensidade solar, a temperatura do solo chega a até 70 graus centígrados. Esta condição, sozinha, já é suficiente para que a planta pare toda a sua a atividade biológica”, aponta Castelli.

CARBONO – Para o agrônomo da Coamo, quanto mais matéria orgânica sobre o solo maior será a sua capacidade de absorção de água. “Não adianta ter adubo no solo se não tiver atividade biológica”, afirma Castelli. Ele exemplifica: “para cada grama de matéria orgânica é possível ter 10 gramas de água armazenada no solo, e 3,6 gramas de carbono sequestrado”. Castelli acrescenta que 58% da biomassa sobre o solo é transformada em carbono, cuja função é alimentar os seres vivos, ativando a biologia do solo. “A sustentação da planta no solo é proporcionada pelo carbono. Se ela não tiver isso, ela cai. Não pára em pé. Por isso, ele é tão importante”, assegura.

ESTRUTURA DO SOLO – A ação do corte proporcionado pelo disco, quando o adubo é incorporado na linha de plantio acaba por desestruturar do solo, segundo o agrônomo da Coamo. Ele sustenta que quando o produtor quebra as partículas de argila, favorece o entupimento dos poros sobre a camada superficial da terra, através das chuvas, que é por onde penetram os nutrientes e ocorrem as trocas gasosas, como o oxigênio, o nitrogênio e o carbono. “Com menos infiltração de água, maior será a possibilidade de erosão, sem contar que a dificuldade de entrada do ar colabora para aumentar o índice de carbono no solo”, salienta Castelli.

Quando o solo está bem estruturado a adubação de sistema tem maiores chances de sucesso. “Com uma boa aeração do solo a planta tem nitrogênio de graça. Sobre um hectare de lavoura estão suspensas 75 toneladas de nitrogênio, no ar que respiramos. Este nitrogênio pode ser fixado no solo por bactérias como as da soja, gratuitamente, desde que o solo esteja bem estruturado. É o suficiente para que, por exemplo, o produtor tenha condições de plantar a cultura da soja sem nenhum quilo adubo nitrogenado”, contabiliza Castelli.

O inverno prepara o verão

Na avaliação da assistência técnica da Coamo, a melhor época para adubar o sistema é o período de inverno. É nesta época que se trabalha todas as coberturas, na sua maioria gramíneas, que produzem muita biomassa ou fitomassa e cujo sistema radicular melhora a estrutura do solo, propiciando incremento na absorção, retenção e drenagem de água. Espalhar o adubo sobre o solo é uma das opções, quando a fertilidade do solo está bem equilibrada. Outra forma é incorporar o adubo na linha de plantio do trigo, que é mais próxima uma da outra, quando comparada ao plantio do milho, por exemplo.

Em Moreira Sales, no Noroeste paranaense, a família Porfírio adota a adubação de sistema como forma de colaborar para melhorar as condições de produção. A brachiária ruziziensis é a grande novidade. Indicada para solos mais frágeis e regiões mais quentes, como é o caso do arenito, ela garante boa cobertura sobre o solo, resultando em um maior suporte para a cultura em caso de estiagem.

No inverno passado, a família cultivou 10 alqueires com a ruziziensis, inclusive na forma de consórcio com o milho safrinha. E quando computou os resultados veio a surpresa. Apesar da estiagem, a produtividade média ficou 20% acima da verificada nos demais talhões da propriedade. “Neste ano não tivemos dúvida. Cobrimos toda a propriedade com adubos verdes, apostando mais na ruziziensis”, assinala o cooperado Pedro Porfírio, ao lado dos filhos Rogério e Róger, também associados.

AVEIA PRETA DEPOIS DA SAFRINHA – Na propriedade do cooperado Valdir Kreve, em Toledo, no Oeste do Paraná, a cobertura verde no período de inverno faz parte do esquema de produção há pelo menos dez anos. Ele semeia a aveia preta sobre a palhada do milho safrinha. Uma das vantagens é o controle da buva, que acaba tendo germinação bloqueada pela aveia. Outra, é a possibilidade de antecipar a distribuição de parte do adubo que será utilizado no plantio da soja. “Assim, ainda ganho tempo na implantação da lavoura de verão”, observa o produtor.

Kreve considera que a aveia planta no pós-colheita da safrinha aumenta em pelo menos 50% o volume de matéria seca sobre o solo. Com isso, segundo ele, os resultados são melhores, principalmente em anos de déficit hídrico. “É quando o clima não colabora que se pode perceber os resultados. O solo fica coberto por mais tempo e o sistema radicular da aveia facilita a infiltração de água. Sem contar o benefício de conter possíveis erosões”.

RESULTADOS – A adubação de sistema aliado à boa produção de biomassa sobre o solo tem rendido resultados interessantes no campo. Segundo Alvimar Castelli, agrônomo da Coamo, em áreas com um bom volume de palha, na comparação com talhões pouco manejados, a produtividade média da soja foi superior em 25 a 30 sacas por alqueire. “E tem mais: com o solo mais fofo o produtor economiza até 40% do óleo diesel, somente durante o trabalho de plantio”, contabiliza o técnico da Coamo. Ele acrescenta que tudo o que é desperdiçado com o trabalho no campo é carbono que vai para o espaço. “Só a agricultura, hoje, responde por 23% do carbono que se perde no espaço, deixando de ser fixado no solo”, esclarece Castelli.