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Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 354 | Setembro de 2006 | Campo Mourão - Paraná

Diversificação

Quando o caminho no sítio segue diversas rotas

Independente do tamanho e do tipo da propriedade, a diversificação é a melhor forma de evitar as incertezas e vulnerabilidades de clima, mercado, pragas e doenças. Renda extra no campo, explorando os quatro cantos da área

Uma análise sócio-econômica realizada pelo Departamento de Assistência Técnica da Coamo, sobre os índices de quantidade de horas trabalhadas no campo – levando em conta o plantio, aplicações, colheita e tempo gasto com  operações bancárias, revela que um agricultor que possui 80 alqueires de área e que opta, apenas, por cultivos anuais (soja no verão e trigo no inverno, por exemplo), terá, efetivamente, trabalho para 120 dias no ano. E para os outros 245 dias, o que fazer? A resposta pode estar num conceito simples e que tem revolucionado as propriedades rurais, independente do tamanho e do tipo: a diversificação de atividades. Uma proposta de viabilização da propriedade rural, considerada é a melhor forma de evitar incertezas e vulnerabilidades de clima, mercado, logística, pragas e doenças.

Para democratizar as atividades do sítio, o produtor rural deve investir em várias frentes. Desta forma, além de manter a sua estrutura operacional e de maquinários ocupada o ano inteiro, ele ainda reduz riscos e perdas. É como o velho ditado popular: “não coloque todos os ovos em uma única cesta”. Agindo nesta linha de raciocínio, quando uma atividade não for bem as outras podem compensar, da forma com que na média o resultado seja o mais positivo possível.

Mais atividades, maior renda – Para o engenheiro agrônomo Hugo Furlan, do Detec da Coamo em Roncador (Centro-Oeste do Paraná), uma propriedade bem diversificada indica que o agricultor possui uma gestão profissional do seu negócio, quer seja dentro ou fora da porteira. “O segredo para explorar eficientemente todas as atividades propostas para o sítio é melhorar os conhecimentos sobre planejamento e organização empresarial. É importante que o produtor rural conheça bem a sua realidade de clima, solo, mercado e logística, para entrar no negócio certo, com a garantia de conquistar resultados positivos lá na frente”, argumenta Furlan.

Segundo ele, nem sempre a opção preferida é a melhor maneira de se buscar um rendimento extra na propriedade. “O que vai bem em uma determinada região pode não ter a mesma eficiência em uma outra. E vice-versa”, garante o técnico, orientando que a escolha pelas alternativas deve levar em conta uma análise mercadológica, envolvendo questões técnicas, operacionais e econômicas.

Modo de caminhar – Entre as opções de culturas que podem compor uma propriedade diversificada estão a fruticultura, a piscicultura, a horticultura, a bovinocultura, a suinocultura, a avicultura, entre outras. “A Coamo orienta e incentiva os seus cooperados a não depender apenas da monocultura, uma vez que não existem vantagens neste tipo de exploração. A diversificação é sempre um bom negócio para o produtor rural, uma vez que no campo, de uma forma bem participativa, o foco não é o ponto de chegada e sim o modo de caminhar”, avalia o diretor-presidente da Coamo, José Aroldo Gallassini.

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A diversificação pode ser horizontal (pela produção de um maior número de culturas na propriedade) ou vertical (que é a realização de várias etapas de produção de um determinado produto). Um exemplo de exploração agrícola com diversificação vertical é uma propriedade rural que explora a pecuária de leite, com capim e ração produzidos na propriedade, e pasteuriza, engarrafa e vende o leite, podendo também transformá-lo em queijo, doce de leite, e outros derivados.

Para diversificar uma propriedade é necessário que o agricultor adquira o hábito de cultivar espécies diferentes. Neste caso, também é importante preparar as pessoas e máquinas para as mudanças, como, por exemplo, realizar um diagnóstico da propriedade identificando seus pontos fortes e fracos; identificar as oportunidades que o mercado oferece; conhecer as exigências dos consumidores, entre outros. Além disso, é necessário um conhecimento profundo da atividade rural no tocante às suas características, inter-relações e mesmo relacionamentos com os demais setores da economia.

Fonte: Embrapa

Vinho de qualidade com um toque polonês

Nada como um bom “pirogue” – prato típico da culinária polonesa, acompanhado de uma taça de vinho colonial, produzido especialmente para a ocasião. Melhor ainda – para o caso de um imigrante polonês, se a bebida tiver um toque pessoal que leve o sabor da terra natal nas duas ocasiões.

A cena poderia ser protagonizada pelo cooperado Paulo Blanski, de Tupãssi (Oeste do Paraná). Ele faz da diversificação um estilo de vida,  na propriedade de 40 alqueires, movimentada o ano inteiro por várias alternativas de culturas, entre elas a produção de uva para a fabricação de vinho. “Aprendi a receita da bebida através de cursos e, com o passar do tempo foi aprimorando o meu próprio vinho”, conta o agricultor, que faz questão de cuidar de tudo no sítio, sempre acompanhado pelo filho Márcio.

A produção de vinho dos Blanski chega, em períodos de safra cheia, a 500 litros por ano. A maior parte é direcionada para o consumo da família ou para presentear os amigos. “A diversificação, no meu caso, não é um negócio para tirar apenas proveito econômico. É, acima de tudo, uma grande terapia e muito prazerosa”, revela Paulo Blanki. Ele cultiva duas variedades de uva (Bordô e Niágara Rosada), num total de 600 pés. A colheita da uva é feita entre os meses de dezembro e janeiro.

Feno, pupunha e cabritos – O parreiral não é a única atividade extra que o cooperado Paulo Blanski mantém na sua propriedade. Ele também cultiva 1.500 pés de palmito pupunha e 35 cabeças de cabritos, das raças Anglo Diana e Boher. As duas atividades seguem a trilha do vinho. São mantidas, principal-mente, pela satisfação. “Com um bom vinho e um palmito de qualidade para uma boa salada sempre sou convidado para um churrasco com os amigos”, brinca o produtor, ensinando que a vida não é feita só de trabalho.

Blonski ainda enfarda feno de aveia, durante o inverno. “O sítio já esteve mais diversificado, mas devido a falta de mão-de-obra qualificada tive que reduzir as opções”, lamenta. Sobre a produção de feno de aveia o cooperado informa que a maior parte da produção é de terceiros. Em anos considerados bons, Blanski chega a enfardar 10 mil peças. Metade deste volume é fruto do cultivo próprio de aveia. Segundo o agricultor, 20% da sua produção é consumida no sítio. O restante é comercializado na região.

Mata nativa – Além dos cultivos anuais de soja, no verão, e milho safrinha, no inverno, o associado mantém, intocados, cerca de um alqueire de mata nativa, com árvores centenárias e de lei, como canela, angico, cedro e peroba.

Hortaliça é o grande negócio dos Silva

Em Marilândia do Sul (Norte do Paraná) a produção de hortaliça tornou-se uma prática bastante comum nos últimos anos. Além de diversificar a produção, as plantas também são excelentes fontes de renda, e em muitos casos, o carro-chefe da propriedade. O cooperado Sebastião Pereira da Silva, por exemplo, produz seis tipos: tomate, beterraba, cebola, cenoura, repolho e couve, além das lavouras de grãos, em uma área de 50 alqueires, na região conhecida como Nova Moreira.

O tomate e a cenoura são as principais alternativas da família. A produção é vendida para praticamente todo o Brasil, a compradores que vêm até a propriedade buscar o produto e depois distribuem nas mais diversas cidades do país.

Suporte da propriedade – A horticultura ocupa praticamente metade da área cultivada pelo cooperado, sendo que o restante é direcionado para a produção de milho e trigo, no inverno, e soja, no verão. Sebastião da Silva conta que começou a apostar na diversificação ainda na década de 70, quando até então cultivava arroz e pipoca. “A mudança foi radical, mas deu certo. Na época a lavoura não estava rendendo bem e fizemos um estudo. A melhor alternativa encontrada foi a horticultura, que hoje é a nossa principal fonte de renda, sendo responsável por cerca de 55% da renda bruta da propriedade”, lembra.

Apoio familiar – O trabalho na horta demanda muita mão-de-obra. Por isso, além de agregar renda à atividade agrícola, também gera empregos. E para dar conta de toda a produção, o cooperado conta com a ajuda dos quatro filhos: Osmarlei, Osmaldo, Edmar e Lucas, e de doze famílias, que formam uma espécie de sociedade, chamados de meeiros. “Eles ajudam no plantio, cultivo e, principalmente, na colheita, quando fazem a pré-classificação (ainda na lavoura) e classificação dos produtos antes de entregar para o atacadista”, revela Sebastião da Silva.

O engenheiro agrônomo Durval Bachega, encarregado do Detec da Coamo em Marilândia do Sul, revela que 27% dos produtores atendidos pela cooperativa na região trabalham com horticultura. “É uma boa forma de rotação de culturas e que também pode ser muito rentável, desde que se tenha mão-de-obra disponível e um bom planejamento”, orienta.

Pêssegos com sabor de sucesso

Dos 85 alqueires cultivados pelo cooperado Mário Kovalek em Roncador (Centro-Oeste do Paraná), cerca de 3% é destinado à produção de frutas de caroço, especialmente o pêssego e a nectarina, que são plantas que se adaptaram bem ao tipo de clima e solo da região. No entanto, esta pequena área de fruticultura garante trabalho o ano inteiro para o cooperado e representa, na rentabilidade anual da propriedade, entre 15 a 20% da receita global.

Não poderia ser melhor para Kovalek, que resolveu diversificar a propriedade há 10 anos. “Fui atrás de novas alternativas que pudessem agregar maior renda para o sítio e aliei este projeto com satisfação de cultivar frutas”, conta o cooperado, que é considerado um dos maiores produtores da região. No total, Kovalek possui 2.100 pés de pêssego, sendo 1.400 em plena produção, e 250 de nectarina. A produção, dependendo do comportamento do clima – as duas plantas preferem temperaturas mais baixas entre os meses de maio e julho, chega a render 50 quilos por pé.

Mantendo despesas – O cooperado Mário Kovalek afirma que, no mínimo, a rentabilidade da fruticultura responde pelas despesas para manutenção da propriedade. “O resultado das lavouras acaba sobrando para os investimentos e também para as merecidas férias da família”, revela o produtor, que também acredita que a vida não é feita apenas de trabalho.

Feirão do pêssego – A colheita das frutas começa a partir da segunda quinzena de outubro e vai até meados de dezembro. A produção de Kovalek é comercializada junto a supermercados da região. Ele também vende para centrais de abastecimento. “A época de colheita também é uma grande festa para a comunidade. É que todos os anos promovemos, aqui no sítio, o “Feirão do Pêssego”, conforme o avanço da colheita, oferecendo os frutos com os mais variados preços. É muito prazeroso ver que a comunidade aprecia o produto. Mais um motivo para continuar produzindo com qualidade”, comemora Kovalek.

Licor de orquídeas – Uma das paixões da dona Lurdes, esposa do cooperado Mário Kovalek, é o cultivo de orquídeas. No sítio, elas estão por toda parte. Sobretudo nas duas estufas de flores. São dezenas delas, algumas raras outras mais comuns, que além de enfeitar o ambiente, também servem de matéria-prima para mais um produto da diversificação dos Kovalek, que já está pronto para ser lançado no mercado. Trata-se do licor de orquídeas, uma receita da própria dona Lurdes com um sabor delicioso.